U.N.K.L.E.
NEVER NEVER LAND Mo’wax-Island/Universal
Os U.N.K.L.E. de James Lavelle são um OVNI no panorama da música actual. O projecto do patrão da Mo’Wax é um híbrido de estilos, um misto de humor e ambição estética que não tem sido bem compreendido. O primeiro álbum, “Psyence Fiction” de 98, passou rapidamente de “next big thing” aos saldos da temporada. Não fora a versão de “Be There”, com o ex-cantor dos Stone Roses, uma das melhores canções alternativas desse ano e teria passado quase desapercebido. E, no entanto, quem o ouviu com atenção acabou por encontrar a substância necessária a um álbum que galga os anos e vai crescendo a cada nova audição. Agora arriscam-se a passar pelo mesmo. “Never Never Land” é “dark” e denso, difícil de digerir às primeiras audições. De alinhamento retorcido entre psicadelismos rock e electrónicas progressivas, de ambiente tenso e frio (comparável ao de “100th Window”, dos Massive Attack) e a milhas da produção habitual do presente. De facto, o título na sua ironia obscura, não poderia ser mais exacto: os U.N.K.L.E. estão em terra de ninguém entre o visionarismo do passado e do futuro. Entre a recuperação de visões floydianas e a projecção numa música futurista que utiliza a electrónica como meio e não como fim. Como não são rock num sentido mais garagista e minimal nem electrónica de tiques feitos ou batidas dançáveis, arriscam-se a desagradar a gregos e troianos. Por outro lado também não há aqui canções pop suficientemente formatadas para chegar a rádios ou televisões, arriscando-se a mais uma rápida passagem à prateleira dos monos das discotecas. E, no entanto… No entanto, este é um disco que vale por uma viagem, que vai surpreendendo o ouvido atento a cada mudança de faixa. Onde se vão descobrindo por entre as sombras as vozes de Ian Brown, de novo a assinar um dos melhores temas do álbum, de 3D, dos Massive Attack, de Josh Homme, dos Queens Of The Stone Age, em registo quase irreconhecível. Aqui arrancados aos seus ambientes habituais e enfiados num barco rumo à terra do nunca das estéticas do presente. Noutros casos poderia dizer-se que este seria mais um produto de formas do que de conteúdo. No entanto aqui a forma é também o conteúdo e este é um disco que vai levar tempo a entranhar-se. Um álbum para ser analisado por arqueólogos musicais do futuro. Um OVNI à procura de uma explicação. (8,5/10)
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 16)
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