Entrevistas
20 MILES
20 MIL LÉGUAS NA TERRA DOS BLUES
O projecto do esforçado guitarrista da Jon Spencer Blues Explosion (JSBX) e do seu irmão, o baterista Donovan, está a algumas milhas de “Plastic Fang”. A propósito de “Keep It Coming...”, o terceiro capítulo, e das orientações dos 20 Miles, a Mondo Bizarre falou com Judah Bauer.

O Judah e o seu irmão Donovan nasceram em Appleton. É verdade que cedo começaram a trabalhar no cemitério local, ou é tudo parte de uma lenda?
Sim, trabalhámos lá por volta dos 20. Sim, é verdade. E até era um bom emprego.

Como decidiram compor música juntos?
Foi muito fácil. Eu e o meu irmão crescemos a ouvir música. Começámos por interessar-nos por bandas de punk rock enquanto adolescentes. A dada altura, viemos para Nova Iorque e foi quando os 20 Miles começaram a gravar, depois de fazermos algumas digressões como banda de suporte. Portanto, foi basicamente depois de nos mudarmos para Nova Iorque que decidimos trabalhar juntos.

Antes de se mudar para essa cidade e tornar-se membro da Blues Explosion, teve uns quantos projectos de hardcore. Exceptional Children Fight For Freedom lembra-lhe alguma coisa?
(risos) Sim, Exceptional Children Fight For Freedom foi algo que formei com o meu irmão. Era uma banda sem grandes referências, muito barulhenta e na linha do hardcore.

Foi apenas depois de terminar o seu trabalho no álbum “Now I Got Worry” da JSBX que os 20 Miles se oficializaram. É correcto afirmar que se tratou de um momento de viragem para si, em termos artísticos?
Não sei bem se foi um momento de viragem, mas foi quando estive no Norte do Mississipi e toquei com alguns dos meus artistas preferidos de blues. Foi muito divertido e uma experiência musical sem paralelo. Considero ter sido muito benéfico para mim porque permitiu que eu me compreendesse melhor enquanto músico, ao tocar com algumas das formações praticantes de blues que mais admiro e cito como influência no meu trabalho.

Como grande parte dos membros de uma banda com projectos paralelos – tomemos John Frusciante como exemplo –, parece expandir as suas capacidades artísticas a um nível nem sempre escutado na JSBX. Por que é que isto acontece?
Expandir – em que sentido?

O trabalho de Frusciante nos Red Hot Chili Peppers difere bastante do que se pode ouvir em “To Record Only Water For Ten Days”, por exemplo. O mesmo acontece se compararmos o último álbum dos 20 Miles e “Plastic Fang” da JSBX...
Bom, acho que nos deixámos levar por uma maior criatividade. Os 20 Miles potencializam uma reaproximação de muita country que eu adoro e que, de alguma forma, me inspirou quando decidi compor música. Distancia-se um pouco da Blues Explosion porque esta é uma banda mais orientada para o rock’n’roll. Nesse sentido, os 20 Miles exploram outras influências musicais para além do rock. É um tipo de música mais “moody” e mais ambiente, talvez.

Mais experimental?
Há, pelos menos, mais exploração. É mais acústica e convoca um som mais country e mais “bluesy” que vai além da simples performance.

Os 20 Miles gravaram “Ragged Backyard Classics” de 96 em menos de quatro horas. Porquê?
Bom, nós ouvimos a música que se faz em Nova Iorque há muitos anos. Acho que tem que ver com toda a movimentação que lhe está associada. É um disco de garage, sem muitas preocupações. Deixámo-nos levar pela música, foi o que aconteceu na altura.

Mas foi uma opção artística por forma a que o álbum soasse lo-fi?
Não estou certo de que foi uma escolha artística. É um disco que transpira muita energia e liberta vapor, tendo sido inspirado pela música que admiramos. Não diria, portanto, ter-se tratado de uma opção artística consciente.

O vosso último disco apresenta um rock’n’roll despido e directo, combinado com batidas funky, R&B autêntico e muito blues. O que pensa de “Keep It Coming...”?
Acho que conseguimos concebê-lo da forma que queríamos que soasse. É, de facto, um trabalho com muito blues. É também mais rock, o som é mais preenchido. O álbum anterior foi da nossa inteira responsabilidade. Por isso, eu queria que este fosse um pouco mais revivalista e tivesse mais pessoas envolvidas, que tivesse mais percussão e vozes de suporte. Estou muito feliz com a música. Acho que as vocalizações precisavam de ser um pouco mais trabalhadas, mas penso que consigo viver com isso.

A Pulse Magazine descreveu o vosso som como “dirty punk-ass blues”. Uma banda reminescente de um trabalho de guitarras polido e vintage – quão suja pode ser?
(risos) “Quão suja pode ser”? Não sei bem. O nosso legado inclui R.L. Burnside, um músico que considero incrível e que muito respeito. Gostaria de ser tão “rude” quanto ele, mas faço o que posso e dou o meu melhor.

Certo, mas concorda com a descrição que a Pulse Magazine fez dos 20 Miles?
No início, talvez. Agora, sei que existem muitas outras influências para além do punk, da country e do blues.

“Keep It Coming...” foi quase totalmente gravado no seu apartamento de Nova Iorque. Tencionava mantê-lo simples, doméstico e primitivo?
É a forma mais confortável de se trabalhar. Não tens ninguém a incomodar-te e sentes-te em casa. Estás mais à vontade com o material que tens e consegues ficar mais sossegado. Portanto, acho que foi uma boa opção.

Os convidados presentes no novo álbum incluem Cody e Luther Dickinson (North Mississippi All-Stars) e Hollis Queens (ex-Boss Hog). Como surgiram estes nomes?
Por ser músico conheço muitas pessoas. Estivemos juntos na estrada, ouvimos os respectivos discos e tornámo-nos amigos. De certo modo, pertencemos à mesma casta musical, temos um background idêntico. Já trabalhei com eles no passado. Lembro-me de uma canção que não chegámos a terminar. Era um tema mais orientado para o blues. Respeito-os muito, acima de tudo.

Pode explicar a história (se é que existe) por trás do nome ‘20 Miles’?
Não é bem uma história. Nós precisávamos de um nome para a banda e para título do disco. Queríamos uma coisa simples. Foi assim que nasceu a designação ‘20 Miles’.

Helder Gomes