Entrevistas
ADAM GREEN
VERDES QUE TE QUERO VERDE
Cara-metade dos Moldy Peaches, Adam Green lançou este ano o seu segundo álbum a solo, o primeiro em que se afirma como compositor de excelência, facto ao qual não são alheios os arranjos de cordas que pontuam as canções de “Friends of Mine”. A conversa com a Mondo Bizarre revelou um entrevistado que fala como se estivesse sob o efeito de soporíferos mas com um raciocínio apreciável... e mau gosto gastronómico.

Adam Green está em todas. Depois da aventura a dois nos Moldy Peaches, o norte-americano lançou já o segundo álbum em nome próprio e no seu currículo contam-se concertos de abertura para os Kills, Libertines, Strokes e Tenacious D e uma versão de “Noddemix”, dos Young Marble Giants, a sair numa compilação da Rough Trade, em Setembro. Com apenas vinte e dois anos, este nova-iorquino com apetência para a escrita – tem a sua própria revista e já publicou um livro de seis (!) páginas – trocou ideias sobre videoclips com o realizador Jim Jarmusch e, diz a página oficial (www.adamgreen.net), festejou o seu aniversário com champanhe e antibióticos. Os pais, não lhe ficando atrás, acabam de publicar – em conjunto – um livro chamado “Managing Your Headaches”. É gente com cabeça.

“Friends of Mine” é consideravelmente diferente do seu primeiro álbum. Nota-se um abandono do lo-fi rumo a uma sonoridade mais límpida e definida. Há, sobretudo, canções mais complexas. Mudança inconsciente ou vontade de mudar?
Essas diferenças não são, de todo, acidentais.

De qualquer forma, como é que se passaram as coisas? Levantou-se um dia de manhã e pensou qualquer coisa do género “quero fazer um álbum que soe assim ou assado”?
Bem, o primeiro álbum reflecte três anos da minha vida que coincidem com a época dos Moldy Peaches. Três anos depois, os meus gostos mudaram e esta é a música que, hoje, quero fazer.

Em termos líricos, “Friends Of Mine” é um álbum revestido de um certo intimismo onde se encontram também alguns momentos de humor. Há, por um lado, uma canção “séria” como “Jessica” mas, por outro, existe também uma “No Legs”, mais bem disposta. Estas músicas estão no mesmo álbum mas provêm, certamente, de lugares diferentes...
Sim, concordo. Eu escrevo muito lentamente. Ao longo de um dia inteiro talvez escreva um verso apenas e é natural que haja coisas que surjam de diferentes motivos de inspiração porque não são escritas de uma vez só.

Cada canção é, então, como um puzzle ou há a preocupação de encontrar um todo com alguma coerência?
Penso que ambas as coisas. Nunca me predisponho a escrever uma canção com um objectivo predefinido. Começo a cantar e tomo nota das palavras mas não penso muito bem o que é aquilo, de que trata... Quando vou a meio caminho é que começo a descobrir o significado do que escrevo e aí certas ideias começam a tomar forma, para poderem representar alguma coisa para o ouvinte, levá-lo a um certo estado.

Uma das impressões que ressaltam da audição de “Friends of Mine” é a de que os arranjos de cordas soam tremendamente bem em conjugação com a guitarra acústica. Quando compôs as canções deste álbum, à guitarra, pensou imediatamente nos arranjos de cordas?
Queria fazê-lo, definitivamente, com cordas. Desde o princípio que esta ideia estava definida. Podia era não ter dinheiro...

Tentou imaginar como soariam as cordas? Apareciam-lhe os arranjos na cabeça?
Tinha algumas ideias para as cordas mas, de uma forma geral, os arranjos foram feitos por Jane Scarpantoni.

A secção de cordas soa um pouco como num álbum folk do princípio dos anos 70. Ao jeito de um “Bryter Layter”, de Nick Drake. Uma certa intemporalidade que, provavelmente, faria igual sentido dentro de dez anos...
Ela fez, de facto, um excelente trabalho...

Apesar de ser um álbum inteiramente acústico, “Friends Of Mine” funciona muito bem em palco. Assisti ao seu concerto em Barcelona no Festival Primavera Sound e, apesar de se apresentar sozinho em palco munido apenas de uma guitarra acústica, a reacção foi entusiástica...
Nesse concerto actuei sozinho porque a organização assim o desejou. Mas normalmente actuo com uma banda e prefiro fazê-lo dessa forma.

Para ter um som mais envolvente?
Porque se for só eu e uma guitarra acústica estou à mercê de outros condicionalismos. Depende do dia. Por enquanto, sempre que toco sozinho, tenho tido sorte e nunca fiquei embaraçado ou bloqueado. Nunca aconteceu qualquer desastre mas é mais confortável ter uma banda atrás de mim.

Apesar de ser muito jovem, a sua voz soa consideravelmente madura. Não acha que esse facto lhe dá a credibilidade que normalmente não se concede a cantores/compositores tão inexperientes?
Acha isso?

Bem, é natural que o facto de ter uma voz de barítono, bem nivelada, lhe facilite um bocado as coisas. Pode estar a cantar uma treta qualquer que há uma certa dignidade nisso, porque é bem cantado.
Quando comecei nisto, não sabia cantar de todo. Com os Moldy Peaches – e isto é uma coisa difícil de admitir – não era capaz de cantar. Costumava gritar em vez de cantar. Hoje não tenho uma voz como a de Frank Sinatra mas três anos de maturidade fizeram-me bem. Tocar ao vivo ajudou-me a controlar a minha voz. Agora se isso me dá alguma credibilidade, não sei.

Aquilo que transparece, penso eu, é que tem coisas para dizer e sabe como cantá-las. E isso transmite uma imagem de segurança que não é típica em alguém da sua idade. O Bob Dylan no início ouviu muitas bocas (e ainda ouve) sobre a forma como cantava...
Bob Dylan tem um estilo completamente diferente do meu. Ele canta mais como um rapper, tem uma voz que fala. As letras dele, as suas construções frásicas são muito difíceis de cantar porque foram feitas para ser quase declamadas. Ele criou uma espécie de hiper-pronunciação teatral, como um rapper faz. Empurra a voz para a frente de uma forma teatral para que consigas apanhar todas as palavras. Leonard Cohen, por sua vez, está no outro extremo do espectro: escreveu canções de uma forma muito mais melódica, tem uma voz que é projectada de forma muito natural. Bob Dylan escreveu muitas das suas letras numa máquina de escrever e depois podia espremê-las na altura de cantar; no caso de Frank Sinatra, cada palavra tinha lugar numa nota – e eu localizo-me mais neste campo.

Existem planos para um novo álbum dos Moldy Peaches?
Não há planos nesse sentido mas isso não quer dizer que não venha, um dia, a acontecer.

O facto de ser nove anos mais novo que Kimya Dawson, a sua parceira nos Moldy Peaches, foi responsável por alguma tensão na vossa relação? Tinham, certamente, experiência e perspectivas diferentes...
Não creio. Quando nos conhecemos, eu tinha apenas 14 anos e a Kimya já estava nos vinte e tais. Num certo sentido, nem podíamos ser realmente amigos. A nossa amizade baseava-se no facto de escrevemos canções juntos porque não podíamos conversar sobre qualquer outra coisa. À medida que ficámos mais velhos, a diferença de idade deixou de ser tão importante. Quando eu tinha 18 anos, até saíamos juntos e isso era uma coisa muito normal. Claro que ela sabia mais coisas do que eu, tinha mais experiência. De qualquer forma, nem sei se os Moldy Peaches teriam existido se não houvesse uma diferença de idade tão acentuada – acho que de outra forma não teríamos escrito canções e teríamos feito outra coisa qualquer.

Todos os artigos que li sobre si ou os Moldy Peaches referem o termo “antifolk”. Apesar de quase todos eles explicarem a génese do conceito, trata-se de uma expressão que não diz absolutamente nada sobre a sua música...
“Antifolk” é como uma comunidade, uma série de performers que costumavam sair sempre para o mesmo bar em Nova Iorque em que havia uma sessão de microfone aberto todas as segundas-feiras à noite. Há vinte anos atrás, havia, em Green Village, uma cena folk muito pirosa, ao estilo de James Taylor. Mas a geração mais nova preferia ouvir discos de punk rock e eram essas pessoas que eram bem vindas nas noites de “open-mic”. Assim surgiu o “antifolk” que é uma reacção apenas contra esta forma muito particular de folk que havia na altura. O nome vingou porque o Lach, o gajo que organizava as noites “open-mic” nos anos oitenta, é o mesmo que as organiza hoje em dia.

Há algum álbum que tenha mudado a sua vida?
Eu sou o tipo de pessoa que já ouviu milhares e milhares de discos. Mas nos meus anos formativos houve artistas que me marcaram de forma radical como os Grateful Dead, Doors, Nirvana, Beck...

Uma última questão: o bacalhau tem algum significado especial para si?
Bacalhau? Um significado especial?! Onde é que queres chegar?

É o meu alimento preferido e, de certa forma, uma obsessão. Gostava de saber se também lhe agrada a iguaria...
Gosto de bacalhau frito com ketchup, molho picante e...

Que heresia! Com batatas fritas?
(embaraçado) Acho que sim...

Luís Guerra
(Mondo Bizarre # 16)