ADD N TO (X)
Quinta Dimensão
Deixaram o sexo de lado, trabalharam no isolamento e regressam com “Loud Like Nature”, o quarto álbum de uma carreira regularmente irregular, carregado de argumentos suficientemente fortes para chamar a atenção daqueles que insistem em considerá-los pretensiosos e vulgares. Barry7, um dos mentores do trio britânico, falou à Mondo Bizarre.
O método de composição de “Loud Like Nature” diferiu dos álbuns anteriores. Como foi trabalharem sozinhos?
Agora vivo em Nova Iorque, mas de vez em quando vou a Londres, o Steve (Claydon) vive em Londres e a Ann (Shenton) estava no Idaho enquanto compunha as coisas dela. Por isso achámos, que seria interessante cada um fazer o seu trabalho e ver como é que as coisas resultavam. No final até correram bem. Queríamos ver até que ponto podíamos utilizar esta liberdade para levar mais longe a nossa música. Chegámos a uma altura em que as coisas se tornaram um pouco pinkfloydianas mas divertidas. Acima de tudo queríamos que continuassem a ser Add N To (X), não queríamos que o disco fosse uma compilação de trabalhos a solo, já que não temos qualquer intenção de que isso aconteça. Por isso, dentro da mesma ideia pudemos trabalhar com pessoas fora do normal, que era algo que sempre quisemos fazer.
Ficaram surpreendidos pelo facto de apesar dos temas serem um pouco diferentes uns dos outros manterem a “essência” Add N To (X)?
Sim, continuam a ser as mesmas ideias esquizofrénicas. Não existe uma sonoridade específica, não é um álbum de rock ou de electroclash, mas no entanto pode ser tudo isso num só disco. Continua a ser a mesma “junk shop” onde sempre vivemos.
Mas como foi a gravação do disco? Utilizaram o material que já tinham individualmente ou juntaram-se os três num estúdio?
A maneira de gravar não se alterou. Costumamos juntar-nos num estúdio e gravamos durante uma ou duas semanas. Não somos propriamente como uma banda rock em que podemos sentar-nos e compor um tema numa guitarra acústica e depois ir para estúdio reproduzir a melodia com uma orquestra ou outros artifícios. Nós limitamo-nos a ir para estúdio trabalhar com as maquinas ao máximo e gravamos tudo “live-to tape”.
Hoje em dia já trabalham com mais equipamento digital ou preferem continuar com o analógico?
Continuamos a usar muitos instrumentos antigos, mas de vez em quando utilizamos alguns samplers e computadores. Eu prefiro fazer o meu trabalho em fita e afastar-me o mais possível dos computadores.
“Loud Like Nature” pode ser visto como um ponto de viragem na vossa maneira de trabalhar?
Não. O ponto de viragem está no facto da Ann se ter tornado no nosso Syd Barret. Ela está completamente louca. A semana passada recebemos uma carta do médico dela a dizer que a Ann já não estava disponível, e ao mesmo tempo recebemos uma carta dela a dizer que tinha desaparecido e que a única coisa que deixava era uma bicicleta ferrugenta e uma série de pombos mortos. Por isso é um grande ponto de viragem para nós...
Então como vão ser as coisas daqui para a frente?
É uma banda completamente diferente. Agora somos só dois, eu e o Steve. Não posso explicar muito mais, mas é como as coisas aconteceram... É uma pena porque acho que ela fez o seu melhor trabalho de sempre, mas perdeu o juízo todo e não há nada que possamos fazer. Antes de desaparecer ela vivia numa tenda, nas traseiras da casa de um tipo qualquer. Há muito tempo que ela ameaçava que iria fazer isso, por isso...
Como é que uma personagem como o Kim Fowley aparece no vosso disco?
Ele é fantástico mas a imprensa inglesa não sabe nada sobre ele. Não dá para acreditar que publicações como o New Musical Express nem sequer perguntem quem ele é!... Para mim ele é Nemesis. É uma daquelas pessoas estranhas que apresentou toda a gente a toda a gente. Ajudou os Beatles quando eles tocaram na América, produziu Jonathan Richman and The Modern Lovers, os Runnaways... Foi responsável por tantas coisas brilhantes, que me espanta como poucas pessoas sabem quem ele é. Eu decidi convidá-lo porque admiro muito o seu trabalho e acho que há algo em comum entre o trabalho dele e o nosso. É esquizofrénico e não se liga a nada. É como o Dennis Hopper da música, e acho fantástica a ideia de ter um cantor de 73 anos a colaborar connosco. Gosto muito do som da voz dele, tem muito carisma. É um homem cheio de criatividade.
As capas dos vossos discos têm sempre um conceito por trás. Qual é conceito desta? Algumas cenas parecem ser tiradas do vídeo de “Take Me To Your Leader”.
Nós fomos para Almeria, no sul de Espanha, porque adoro filmes de western spaghetti e porque queríamos fazer um vídeo nesse estilo. Como ficava demasiado caro acabámos por andar por ali e fizemos algumas gravações e algumas fotografias. A Ann tinha comprado um caixão de cartão que lhe devia ter sido entregue em casa mas extraviou-se, e quando já não estávamos à espera de o usar foi-nos enviado para Almeria. Foi aí que decidimos arrastá-lo até ao cimo de uma montanha de areia e acabámos por filmar essas cenas. Cada vez que fazemos um vídeo tentamos fazer com que seja algo especial, uma experiência nova. É como o titulo, que foi mais uma das ideias da Ann antes de ficar maluca, e parte do principio de que o som da natureza é ainda mais assustador do que os sons criados pelo homem. Numa floresta só se ouvem os sons da morte e do acasalamento. Nós somos todos da cidade e, se formos para o campo, até o silêncio é mais barulhento.
Concorda com a ideia de que alguns dos temas, como o “Take Me To Your Leader” ou “Sheez Mine”, são canções pop distorcidas?
Concordo plenamente. Esse tema foi escrito pelo Steve quando estava numa de glam rock e era para esse lado que ele queria levar as suas composições. No fundo tudo o que fizemos até agora pode considerar-se pop distorcida. É assim que vemos o mundo...
Por outro lado este disco é menos provocador do que os anteriores e também já não falam tanto de sexo...
Desta vez quisemos fazer algo diferente, que realmente gostássemos. Como agora viajamos muito já não nos importa o que se passa em Inglaterra. A Inglaterra é um pardieiro, e vivendo em Nova Iorque ou noutro lado tornamo-nos bastante diferentes e vemos as coisas de uma maneira diferente. Não passa tanto pelo facto de já não sermos terroristas sónicos, mas sim por nos divertirmos. As coisas tornam-se mais refinadas e tentamos fazê-las com mais bom senso. Podemos fazê-lo porque é aquilo que nos interessa. Já não nos interessa chatear as pessoas por causa do sexo porque isso já toda a gente do electroclash anda a fazer...
Ainda assim, o vosso sentido de humor não se perdeu. O humor é importante na vossa vida?
Nós gozamos sempre uns com os outros. É essa a nossa prioridade. A maioria das bandas não tem sentido de humor e tem a mania que são muito pomposos. Tentamos divertir-nos ao máximo e isso transpira para a nossa música.
Então não gosta de electroclash...
Acho que é apenas música house disfarçada de outra coisa qualquer. Eu odeio house e acho que está praticamente morta, a avaliar pelo ressurgimento das bandas de guitarras. Eu conheço alguns projectos de Nova Iorque e até são boas pessoas, mas eu não gosto da sonoridade. Nunca faria esse tipo de música. Não gosto muito dos Ladytron, mas acho os Crossover interessantes.
O ano passado editou um disco de recolha de música electrónica, “Barry 7’s Connectors”. Como é que surgiu essa ideia?
Há um tema chamado “Solar Flares”, do compositor Sven Libaek, que foi responsável pela base dos Add N To (X)... Eu encontrei uma cópia do “Solar Flares” há dez anos e como adoro esse disco fui falar com a Lo Recordings para ver se eles queriam reeditar o disco. É um disco genial, muito melhor do que a maioria da “library music” que se encontra. Eu e o Luke Vibert acabamos por ser convidados para pesquisar uma série de masters que tinham sido descobertos recentemente em Wembley e que fazem parte do espólio da Biblioteca de Chappell. Escolhemos as peças que nos interessavam mais, de acordo com os nossos objectivos. Enquanto o Luke escolheu as coisas mais na linha hip hop e breakbeat eu escolhi coisas mais electrónicas e esquisitas. O disco foi tão bem recebido que acabei por compilar um segundo volume.
Os elementos dos Add N To (X) têm vindo a desenvolver outros interesses paralelos à banda. O que nos pode dizer sobre as instalações do Steve, do jornal da Ann e sobre a sua nova editora e “club night”?
Sobre as instalações do Steve não posso falar porque não gosto de arte em geral e nunca me interessei em ver o trabalho dele. A Deadworth Echo é uma revista satírica publicada pela Ann que eu não compreendo porque ela é maluca. É o trabalho de uma lunática... A Horse Glue é uma editora sediada em Nova Iorque, na qual vamos editar um disco dos Pink Grease, que deve estar na rua em breve. Eles são uma mistura de música electrónica e rock’n’roll e são todos travestis. Uma espécie de cruzamento alucinado entre os Roxy Music e os Ramones. Escusam de nos procurar na internet porque não temos um website. Hoje em dia toda a gente parece ter um e nós queremos que as coisas se mantenham a um nível mais underground. Ainda assim as nossas edições devem ser distribuídas pela Mute. A Destroy It Yourself é noite em que ponho discos. Eu não me considero um DJ, aliás nem sei ao certo qual é a definição de DJ. Eu passo música com o Ethan Reed, que já trabalhou na Soul Jazz. Passamos toda a música que achamos interessante, dos Cramps ao Lee Hazelwood passando por música electrónica dos anos 70 ou punk electrónico.
Os Add N To (X) têm uma forte ligação com Sheffield. Como vê hoje as reedições do primeiro single dos Cabaret Voltaire, “Nag Nag Nag”, e a edição do vigésimo aniversario do “Dare”, dos Human League?
São dois discos fantásticos. Autênticos clássicos que mudaram a minha vida e espero que vendam muitas cópias às novas gerações. É música brilhante, diferente de tudo, e acho que foi preciso ter muita coragem para fazerem isso na altura. São dois discos muito íntegros. Lembro-me de ver os Cabaret Voltaire em 78 e 79, os Suicide, os Cramps... Todos eles mudaram a minha vida. Eu costumo dizer que esses discos salvaram a minha vida porque na altura havia a moda do funk e do disco e eu odiava esse tipo de coisas, e toda aquela cena britânica que se tornou hype deixa-me doido.
Falando em clássicos, tocaram recentemente com os Hawkwind...
O concerto dos Hawkwind foi horrível e chateei-me de morte. O nosso correu mais ou menos, mas estávamos a tocar para um monte de fanáticos dos Hawkwind, por isso nunca iriam gostar de nós. Eles pararam todos no tempo e não são capazes de gostar de nada novo porque já viram tudo, mas por outro lado vão ver a sua banda preferida, que são os Hawkwind... Como pessoas, os Hawkwind são fantásticos, mas fazem uma música horrível. Aquilo parecia uma reunião de hippies extraterrestres.
É verdade que viveu no antiga casa de Genesis P-Orridge (Throbbing Gristle, Psychic TV, Thee Magesty...)?
Sim. Quando o Genesis P-Orridge foi proibido de viver em Inglaterra mudou-se para a América e eu mudei-me para case dele. Durante algum tempo tomei conta das coisas dele até lhe enviar tudo para América. Eu gosto dos Throbbing Gristle, mas nunca achei piada às ideias dos Psychic TV. Foi uma coincidência isso ter acontecido, mas foi estranho viver na casa dele, porque parecia assombrada. Ficava na Beck Road, em Hackney, na parte este de Londres, e o mais curioso é que havia uma granada de mão debaixo das escadas, que só foi descoberta mais tarde quando a casa foi vendida a uma amiga nossa. Ela ligou à pessoa que dividia a casa comigo e perguntou-lhe porque é que tinha uma granada debaixo das escadas. Obviamente ele não sabia de nada porque nunca tinha reparado. Ao que parece tiveram que chamar a brigada anti-bombas e fazer uma inspecção geral a toda a área...
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 10)
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