A HAWK AND A HACKSAW
UM FALCÃO E UM ACORDEÃO
Jeremy Barnes começou a tocar bateria nos Neutral Milk Hotel, mesmo no coração do rock americano, que juntamente com bandas como Olivia Tremor Control procuraram novas formas de incorporar elementos folk e psicadélicos no corpo do rock americano. Insatisfeito, procurou um projecto a solo e sozinho criou A Hawk And A Hacksaw, um caleidoscópio de sons, onde o acordeão e as galinhas dão voz às histórias que Jeremy quer contar. A Hawk And A Hacksaw vão actuar ao vivo em Portugal nos dias 10 e 11 de Junho respectivamente no O Meu Mercedes É Maior Do Que O Teu, no Porto e na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa.
Depois de crescer a ouvir mariachi e tocar bateria nos Neutral Milk Hotel, Jeremy Barnes sentiu que precisava dar alguma expressão àquilo que queria dizer e criou A Hawk Ad AHacksaw, um universo de sons que se auto-organizam de forma semi-caótica e que mostram um mundo onde ciganos da Roménia podem conviver com americanos do Novo México. Com uma grande paixão pelas viagens e pela cultura da Europa de Leste, Jeremy vive a aventura de tocar em festas na Sérvia e de criar música que é uma síntese muito pessoal de diversas tradições musicais. Agora acompanhado pela violinista Heather Trost, A Hawk and a Hacksaw vão tocar no Porto, dia 10 de Junho, e em Lisboa no dia 11 de Junho. Jeremy Barnes respondeu a perguntas feitas pela Mondo Bizarre onde confessa parentesco com os ciganos da Roménia, embora faça questão de deixar claro que fazer música é algo muito pessoal. É provavelmente essa atitude que faz de A Hawk And A Hacksaw um dos projectos mais originais e únicos do panorama musical actual.
As faixas do primeiro álbum têm muitos sons de diferentes origens. O que encontra no barulho das galinhas e noutros ruídos? São uma inspiração ou apenas algo que está lá para ser usado?
A vida animal e o som da vida animal são uma grande inspiração para mim. Eu comecei a perceber, depois de manipular som durante alguns anos, e tentando fazer algo novo e interessante, que todos os sons de que gosto já existiam, nos insectos aos meus pés, nos pássaros bebés no jardim, no estômago do gato enquanto dorme, e por aí fora. Em vez de explorar a manipulação de som, eu comecei a explorar os sons à minha volta. O objectivo do primeiro álbum foi combinar as duas coisas, e desenhar paralelos entre eles, assim como criar sons que pareçam naturais, e procurar sons que pareçam electrónicos.
Li que queria contar uma história no primeiro álbum, mas que, afinal, também acredita as imagens e a história estão do lado do ouvinte. Faz álbuns conceptuais que não eram para ser conceptuais, mesmo que o sejam? Acredita que a inexistência de palavras oferece histórias múltiplas?
Eu não creio que as histórias tenham que ser limitadas a uma linguagem. Penso que podem ser contadas na música, embora de uma maneira mais vaga. Quando escrevo uma canção, que não tem palavras, normalmente tem um significado muito pessoal para mim. Mas o ouvinte provavelmente vai perceber um outro significado, e se calhar até dar asas à imaginação. Eu não quero limitar a minha música à língua inglesa, que considero não ser muito musical ou interessante. Uso-a, mas apenas quando é absolutamente necessário.
É baterista nos Neutral Milk Hotel. Porque mudou o método de criar música fora do grupo e como é que a faz? É tudo feito com samples ou toca instrumentos?
Eu cresci como um baterista e apenas me dediquei a isso. Mas nos Neutral Milk Hotel comecei a pensar em canções e arranjos, composições e melodias, não sei bem porquê. Acabei por sentir que ser apenas baterista não estava a ser satisfatório. Os únicos samples nos discos são animais selvagens, insectos e som gravado. Todos os instrumentos que ouve são humanos reais a tocar instrumentos reais.
Tem viajado muito e vivido em diferentes sítios como Praga ou Novo México. Isso é uma parte essencial para si para criar música? E é uma forma de fugir dos sons anglo-saxónicos mais convencionais?
O interesse pela música apareceu antes de viajar, mas viajar realmente ajuda-me a fazer música.
Gosta de festas? Sendo um nómada ultimamente, quão importante é a música cigana e a sua cultura para si?
Eu não sou romanês (nota: povo cigano que vive na Roménia, também conhecido por povo romani), apesar do meu pai ser. Considero-me um músico. A cultura romani é uma inspiração para mim, mesmo muito, mas eu procuro as minhas próprias formas de expressão. Eu não desejo simplesmente emular outras culturas, apesar de achar que muitas vezes são muito mais interessantes que a minha. Mas é um aspecto interessante da música e do que está a acontecer – há músicos romaneses que estão profundamente interessados na cultura americana, e há pessoas como eu que são o oposto. É o escapismo parte da música? E pode-se escapar, ou será que nos tornaremos naquilo que desejamos ser? E se conseguirmos, será que nos arrependemos? Pessoalmente não consigo imaginar que poderia alguma vez conseguir transformar-me naquilo que quero.
A folk aparece em muitas partes do seu trabalho, desde a America do Norte até à Europa de Leste. Chega a gravar uma versão de “Portlandtown”, uma canção que eu ligo à Joan Baez porque é a versão que melhor conheço. Está também a tentar contar uma história misturando diferentes tradições musicais?
Há conexões que podem ser feitas com muitas tradições musicais. Imigrantes checos e alemães inspiraram a música mexicana mariachi, que eu cresci a ouvir no Novo México. E quando ouço música de metais dos Balcãs, soa-me a uma nova e electrificante forma de mariachi, mas eu ouvi a filha antes da mãe, e fui mais afectado pela mãe. Agora, quando as pessoas criticam A Hawk And A Hacksaw, ouvem música mariachi, e eu não a ouço de todo e não a posso listar como uma influência no álbum. A versão de “Portlandtwon” de que mais gosto é de um disco das Pennywhistlers, que lançaram álbuns na Nonesuch nos anos 60. Eram predominantemente um coro de mulheres da Europa de Leste, que também tocavam ocasionalmente baladas folk americanas.
Boa música é boa música, seja lá qual for o sítio donde veio. Eu não me quero limitar a uma área. Eu toquei numa festa sérvia recentemente, e um dos convidados adorou o acordeão, mas apenas queria ouvir canções sérvias, e ficou desapontado por eu não conhecer nenhuma. Ele recusou ver a valia de qualquer canção que não fosse sérvia. Eu considero esse tipo de pensamento um pouco assustador.
Há algumas palavras de George Bush no seu último álbum. Está a tentar passar uma mensagem politica também? E como é que isso se liga ao primeiro álbum? Tenta contar histórias diferentes nos dois álbuns?
Os dois álbuns são muito diferentes. E há mensagens políticas no novo álbum Acho que tive de as fazer tendo em conta o clima político em que os americanos vivem. Sinto que devo dizer que discordo totalmente do meu país actualmente. Essa necessidade encontrou forma de se expressar no álbum, mas acho que ficou suficientemente subtil para se aprofundar ou...
Como são os seus concertos? Toca instrumentos ao vivo ou usa samples?
Ao vivo toco bateria e acordeão ao mesmo tempo. Na tradição de uma one man band, que é um sonho meu, parecia-me ser o objectivo final. Mas eu tenho uma vantagem em relação a outras one man bands pois toco com a Heather Trost, que é uma violinista maravilhosa. Ela adiciona muito aos concertos ao vivo e também no segundo álbum. Ela é o novo membro da banda.
César A Laia
(Mondo Bizarre - Junho 2005)
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