Entrevistas
ALAN FORBES
O ESTRANHO MUNDO DE...
Apesar de não ser um novato nas andanças dos posters de concertos, só agora é que o seu trabalho começou a receber alguma notoriedade. O traço impar e uma imaginação fértil fazem de Alan Forbes um artista a seguir com a máxima atenção.

A ideia que se tem, deste lado do Atlantico, é que desde algum tempo tem estado a trabalhar na sombra e agora finalmente tudo parece acontecer ao mesmo tempo.
Eu penso que trabalhar na sombra de outros artistas fez com que tivesse tempo de aperfeiçoar a minha técnica. Para mim tem sido uma das melhores ferramentas de aprendizagem. Quando vê por aí tantos trabalhos com qualidade, tem-se vontade de fazer o mesmo. Para mim isso tem sido um grande incêntivo. Acredito que quanto mais me empenho num projecto, melhores resultados vou alcançar. Há muitas coisas a acontecerem-me porque eu acho que as pessoas olham realmente para os meus trabalhos e sabem a quantidade de tempo que é necessária para os executar. Não quero que me interpretem mal, também me agrada o facto de saber que posso viver da minha arte, que é aquilo que eu sempre quis.

Chegou a estudar arte?
Nunca tive uma aula de arte. Sempre li aquilo que precisava de saber. Os nossos semelhantes são igualmente uma boa ferramenta que se tem à mão.

O que influencia o seu desenho?
Velhas revistas do "Mad", brinquedos, posters de filmes. São tão vastas que é difícil apontar quais são as mais importantes. Hoje posso estar a ler sobre os primórdios da banda desenhada e olhar para arte de propaganda. Amanhã vejo algo diferente e é isso que me tem influênciado até hoje.

Durante algum tempo os seus posters eram impressos e vendidos pela Artrock, mas agora tem o seu próprio atelier de serigrafia. Foi um passo importante na sua carreia poder imprimir e vender os seus trabalhos?
Quando comecei a fazer posters a Artrock deu-me uma grande ajuda na impressão e venda dos mesmos. Fazer parte de um negócio é um compromisso para as 24 horas do dia. É muito difícil equilibrar o tempo, especialmente quando o que me interessa é apenas desenhar. Hoje em dia já não faço parte da San Francisco Art Lab, os meus posters são impressos por dois amigos meus da Firehouse e distribuidos pela Artrock. Para mim é óptimo já que posso finalmente concentrar-me exclusivamente no desenho. Admito que não gosto muito da gestão de uma empresa. Os problemas do dia a dia começam a interferir no entusiasmo de desenhar e pintar.

No número anterior Frank Kozik, mencionou o seu nome como sendo um dos artistas mais interessantes do momento. Qual é a sua visão do trabalho dele?
É bom saber que o Kozik gosta do meu trabalho, já que tenho um grande respeito por ele. Estamos a falar de uma pessoa que, básicamente, re-inventou o conceito da poster art. Penso que o trabalho dele é excelente. Conseguiu levar o seu ponto de vista a tantos níveis, que tem sido bom observá-lo de fora. Ele realmentre merece todo o sucesso que conseguiu. O Kozik teve que comer o pão que o diabo amassou tal como eu ou outros artistas da mesma área. Se não fosse ele a abrir novamente a porta para este tipo de arte, talvez hoje não estivéssemos a fazer esta entrevista.

Actualmente quais são, para si, os desenhadores de posters mais interessantes?
Fácilmente direi o Frank Kozik a par do Ron e do Chuck da Firehouse. Estes últimos, são uma grande equipa. As suas ideias são intermináveis. O muito tempo que passo com eles é uma grande influência para mim.

Como se envolveu no mundo da música? O logotipo dos Black Crowes foi mesmo o seu primeiro trabalho para a industria musical?
Eu consegui a tarefa de desenhar o logotipo dos Black Crowes enquanto estava a desenhar a capa de um disco dos Four Horsemen, para a Def American, que pertencia ao Rick Rubin. A namorada de um amigo meu, que trabalhava lá como recepcionista, pediu-me para desenhar dois corvos para uma banda que tinham acabado de assinar e foi o que fiz. Eu tinha 18 ou 19 anos e para mim era tudo muito novo. É engraçado olhar para esses corvos agora, já foram um grande empurrão para outros trabalhos comerciais. Tem sido divertido trabalhar com os Black Crowes desde essa altura. Eu tive muita sorte, já que nem toda a gente tem esse tipo de oportunidades.

Os seus posters são de alguma forma diferentes das suas capas de discos.
Eu diria que são muito diferentes das minhas capas de discos. Quando estou a trabalhar na capa de um disco estou a receber as ideias da banda e a tornálas realidade. É um trabalho interessante na maioria dos casos porque eu não me oponho ás ideias das bandas. Aliás, o disco é deles e não meu. Nos posters tenho muito mais liberdade porque as ideias são exclusivamente minhas. Nos posters faço o que me apetece e as bandas acabam sempre por gostar do resultado. É um trabalho bastante divertido onde posso ser suficientemente sarcástico, sem ter um departamento de arte atrás de mim a tentar que faça as coisas de outra maneira. É uma boa maneira de me exprimir, e ainda bem que tenho essa oportunidade.

O design do site oficial do Ozzy Osbourne é todo feito por si. Como é que as coisas se proporcionaram?
Eu trabalho no site do Ozzy à cerca de dois anos. Foi um amigo meu, chamado Jen Garber, que trabalha na Artistdirect, que me conseguiu esse trabalho. Eu fiquei muito entusiasmado com a notícia. Desde miúdo que o Ozzy e os Black Sabbath fazem parte das minhas bandas preferidas. Eles deixam-me desenhar aquilo que eu quero, o que para mim é óptimo. Sempre que via os trabalhos gráficos feitos para os dois projectos, tinha o desejo de poder fazer alguma coisa para eles. Acabei por concretizar a minha fantasia.

Por vezes os seus posters e quadros são muito "spooky". É fan de filmes de terror serie B?
Eu sou um grande fan de filmes de terror antigos. Não percebo como é que as pessoas se podem cansar desse tipo de peliculas. Esses filmes, e o "Planeta dos Macacos", nunca deixarão de influenciar aquilo que faço. Os filmes de terror mais recentes são interessantes, mas não têm o mesmo estilo que os antigos: "Fazer o máximo com o que tens". Os filmes de terror independentes ainda têm essa ideologia. É excelente serem capazes de te assustar com a ideia do que pode vir a acontecer.

Fale do seu trabalho com "found objects" (objectos encontrados). Li algures que começou por acaso.
Os "found objects" que eu pinto não começaram por acaso. Foram alimentados pelo sarcasmo e algumas experiências pessoais. Há 8 ou 9 anos que os pinto e exponho. Comecei por pintar uma velha garrafa de Aunt Jemima, que dei ao Coop em troca de um dos seus posters. O Long Gone John, da Sympathy For The Record Industry, e o The Pizz foram duas pessoas que me encorajaram a continuar com este tipo de pintura. Aliás o The Pizz ensinou-me bastante sobre pintura em geral, o que o torna numa personagem muito importante neste processo. Pintar esses "found objects", é, de longe, o que mais me interessa fazer. Não há muito mais liberdade neste mundo (pelo menos para mim) do que pintar o que quiser naquilo que eu quiser. A sensação de encontrar um objecto numa loja e fazer dele uma coisa minha é indescritível. O que é também excelente, é observar a reacção das pessoas, que os interpretam à sua maneira, e que não tem que ser forçosamente a minha. É como uma reacção em cadeia do que eu sinto quando os pintei. Pessoalmente não possuo nenhuma dessas peças. Só a minha mulher é que ainda guarda uma.

Tem realizado várias exposições pelos Estados Unidos. E o resto do mundo?
Ainda não tive a oportunidade de expôr fora da América, apesar de vender algumas obras para fora. As reacções ao meu trabalho na Europa têm sido boas e estou ansioso por um dia poder ir aí.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 2)