ALEXANDER HACKE
REALIZADOR DE ROAD RECORDS
Ajudou a formar, há vinte e cinco anos, os Einstürzende Neubauten, numa altura em que assinava pelo pseudónimo Alexander Von Borsig. Fez ainda parte dos Sprung Aus Den Wolken e dos Crime And The City Solution e tem trabalhado regularmente em bandas sonoras para filmes. Acaba de lançar o seu álbum a solo, o seu “Sanctuary”.
Alexander Hacke levou dois anos a gravar “Sanctuary”, álbum a solo que não é tão solo quanto isso. Munido de material de gravação portátil, com o qual ia recolhendo o contributo de diferentes músicos espalhados por diferentes cidades europeias e norte-americanas, foi fazendo aquilo a que o próprio gosta de chamar “road record”, por analogia com os “road movies”. “Sanctuary” congrega em si uma galeria de contribuições de gente como J.G. Thirwell (o senhor Foetus), Caspar Brötzmann, Andrew Chuddy (velho camarada nos Neubauten), David Yow (Jesus Lizard) ou até mesmo a super-estrela italiana Gianna Nannini, entre muitos outros nomes. Perante tamanha mistura de influências, é natural que o resultado seja pouco homogéneo, mas “Sanctuary” é, boa parte das vezes, sinónimo de rock pesado, do qual Hacke sempre se confessou fã. Não é por isso estranho que o disco saia com selo da Kool Arrow, a editora metaleira de Billy Gould (Faith No More e Brujeria). “Sanctuary” tem edição marcada para 17 de Maio e Alexander Hacke estará em Lisboa, no CCB, no próximo dia 12 de Abril. Ambos os assuntos foram motivo da conversa que a seguir reproduzimos.
Em 25 anos de Einstürzende Neubauten (EN), esta é a primeira vez que se aventura num álbum a solo. Porquê só nesta altura?
Este não é, na verdade, o meu primeiro álbum a solo. Em 93, lancei uma compilação de bandas sonoras para filmes escritas por mim. Mas, claro, este é o meu primeiro disco de música não encomendada desde há muito tempo. Enquanto adolescente, tive várias cassetes e um 12” sob o nome Alexander Von Borsig. O 12” “Hiroshima” chegou mesmo a ser “single of the week” no NME.
Chamou ao álbum “Sanctuary”. Fica-se com a ideia de que este possa ser o seu refúgio, o seu próprio santuário, à parte da agenda dos EN, o local onde pode fazer aquilo que não é permitido nos EN.
Certamente que há música que eu apenas posso tocar com os EN e, simultaneamente, música que eu não poderia fazer no contexto EN. Ambos os géneros são importantes. Mas os EN não sobreviveriam até hoje se os seus elementos não fizessem projectos paralelos ao longo dos anos. O nome “Sanctuary” deve-se mais ao conceito de “road-record” que o disco tem. Tal como um realizador, quando faz um “road-movie”, eu não tinha nada escrito antes de começar a viagem. O guião foi-se materializando à medida que esta foi prosseguindo. Pelo facto de ter ido a todos estes lugares para a produção do disco, criei um novo lugar que não existia antes. Um santuário é um lugar de conforto e segurança e as canções são como personagens que encontraram o lar na capa de um CD.
Disse, há pouco tempo, que os EN se tinham tornado investigadores sonoros, para lá de “entertainers”. Neste contexto, onde situa “Sanctuary”?
Uma das concepções iniciais, nos EN, era a de alargar a utilização do termo “música” até um ponto em que tudo fosse efectivamente música. Daí que a música não exista mais. Nós investigámos o som e a utilidade de diversos materiais e explorámos diversas técnicas de escrita de canções e de produção de música em geral. “Sanctuary” foi também uma experiência. Primeiro, tenta provar que é possível produzir todo um disco sem entrar num estúdio à moda antiga. Segundo, debruçou-se também na influência que o meio ambiente exerce na escrita de canções de diferentes pessoas.
Tinha uma ideia clara acerca de quem iriam ser as pessoas com quem ia trabalhar ou foi encontrando as pessoas ao longo da “estrada”?
Eu tinha uma certa ideia dos sítios onde queria ir, mas, claro, algumas das colaborações surgiram espontaneamente, como aconteceu com aquela fantástica banda: Chicago Trailer Hitch.
A ficha técnica do disco dá conta de uma extensa lista de colaboradores. Até que ponto deixou que estas diferentes estéticas se traduzissem no resultado final? Noto, por exemplo, uma clara marca deixada pelo Jim G. Thirwell na faixa que dá o título ao disco.
Essa faixa é a que tem o maior número de contributos de todo o disco. Neste caso, a quantidade de inputs musicais contribui para um grande caos. Mas eu diria que as paisagens sonoras cinemáticas do Jim fazem de “Per Sempre Butterfly” uma experiência...
Não sendo a presença de Gianna Nannini, a super-estrela do rock italiano, tão surpreendente quanto possa parecer, já que o Alexander foi guitarrista da sua banda há cerca de dez anos, pode ainda deixar confusas algumas pessoas que não entenderão o que é que uma artista tão mainstream como ela faz neste disco. Voltando atrás no tempo, como é que um “noisemaker” dos EN se tornou guitarrista de Gianna Nannini?
A Gianna é um vulcão! Uma corrente de energia emana constantemente dela. Ela tem a presença única de uma grande artista, não importa aquilo que escolhamos para a categorizar, se é que isso é possível ou até mesmo necessário. Tem também um grande sentido de humor e aprecia particularmente comportamentos não convencionais, daí que rapidamente nos tenhamos tornado amigos quando nos conhecemos pela primeira vez.
Tem tido diversas encomendas ao longo da sua carreira. Em que projectos recentes tem trabalhado e o que se espera para o futuro próximo?
Neste momento, estamos na fase das misturas finais de um documentário musical acerca da música de Istambul, realizado por Fatih Akin, com quem eu já trabalhei no premiado “Gegen Die Wand/Head On”. Tenho utilizado o mesmo tipo de tecnologia [que usei para o disco] para gravar muitas e diferentes bandas e artistas a solo que fazem parte desta incrível cena musical, ao mesmo tempo que vou narrando o périplo e colaborando com alguns deles. Vai ser um grande filme e estou muito orgulhoso de poder anunciar que vai ser estreado em Cannes este ano. A propósito deste trabalho, fui apresentado a Baba Zula, um colectivo verdadeiramente insano que se gosta de chamar a si próprio por psycho-belly-dance-music. Eles tiveram o Mad Professor a produzir-lhes o último álbum e eu regressei recentemente da Turquia onde gravei o baixo no novo CD deles na Double Moon Records.
O seu álbum vai sair pela Kool Arrow. Como é que chegou até eles?
Eu sou um grande fã dos homens loucos do hardcore Brujeria e quando estava à procura deles na internet dei com a editora de Billy Gould. Comecei por ler a secção “About...” no site e fiquei impressionado com a filosofia da editora. Então descobri que já o conhecia dos Faith No More e decidi contactá-lo por causa de “Sanctuary”.
Que tipo de espectáculo apresentarão os EN nesta digressão dos vinte e cinco anos?
Tocaremos algum material do passado que nunca foi mostrado ao vivo, mais, obviamente, coisas novas e alguma improvisação. E, claro, a inevitável secção “Golden Greats”! (risos)
A gravação do espectáculo para venda ao público imediatamente após o mesmo faz parte dos planos desta digressão, como antes?
Sim. Sabe, o merchandising pode salvar-nos o cu, nestes dias, se entende o que eu quero dizer e está na disposição de perdoar o meu francês...
Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre Abril 2005)
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