ANDREW BIRD
POSSUÍDO PELA MELODIA
O norte-americano Andrew Bird actua ao vivo em Portugal nos próximos dias 06 de Setembro (Lux, Lisboa) e 09 de Setembro (Casa das Artes de Famalicão). Há um ano, este seria um nome desconhecido de boa parte daqueles que estarão numa das cidades a aplaudi-lo. O que aconteceu a este nativo de Chicago para passar do quase anonimato a objecto de culto em poucos meses? Simples: aconteceu-lhe “The Mysterious Production Of Eggs”, um dos álbuns pop mais fervilhantes da temporada, capaz de pôr em sentido fãs de Beck, Jeff Bucley ou Rufus Wainwright, sem esquecer todos os que sempre acharam que àquele triunvirato falta “qualquer coisa”. Inteligência, imaginação, arrebatamento são virtudes que emanam de canções como “A Nervous Tic Motion From The Head To The Left”, “Fake Palyndromes” ou “Skin Is, My”. Apesar da novidade do fenómeno, porém, Andrew Bird está mais perto da veterania do que da estreia. “The Mysterious Production Of Eggs” é já o quinto álbum a solo, e para trás ficaram biscates ao serviço dos Squirrel Nut Zippers, uma banda-sonora para um filme de Tim Robbins e um emprego como professor de música. A Mondo Bizarre revê em 20 perguntas o percurso artístico deste escritor de canções, violinista, assobiador e domador de ideias, que diz sentir-se «possuído pela melodia», mesmo enquanto dorme.
Está prestes a tocar em Portugal pela primeira vez. Está ansioso? Alguma vez visitou o país?
Sim, é a primeira vez que vou a Portugal, e a acreditar no que todos me dizem, posso dizer que estou muito ansioso por visitar-vos!
Vai trazer uma banda consigo ou irá apresentar-se sozinho em palco? Acha complicado transpor a riqueza das canções sem outros músicos a secundá-lo?
Vou tocar sozinho, que é como costumo fazer. Poderá parecer complicado conciliar tudo aquilo que faço em palco (fazer loops de violino ao vivo e manipular os loops enquanto toco guitarra, canto e assobio), mas é uma performance muito intuitiva e, ao estar sozinho, posso perder-me por completo nas canções. Nos grandes festivais ao ar livre, prefiro tocar com um baterista. Os concertos “a solo” são mais íntimos e estranhos. Faço imensos sons.
Como têm corrido os concertos de promoção a “The Mysterious Production Of Eggs” até agora?
Os espectáculos têm sido muito bons. Tenho tido o triplo de pessoas a assistir e consegui tocar para públicos novos, em sítios como Florença [Itália] e La Palma [Espanha].
Qual terá sido a coisa mais estranha que alguém lhe gritou, durante um concerto?
“Freebird”?
Tem conquistado bastantes fãs em países como França, onde revistas como a “Les Inrockuptibles” o consideraram «um génio», e até em Portugal, onde o disco tem tido boas críticas. Tem-no surpreendido, este entusiasmo por parte dos media e do público?
Foi quando desisti de ter sucesso que ele começou a acontecer. Nunca imaginei aparecer nos media mainstream de França, por exemplo. Mas não tenho tempo para reflectir ou surpreender-me [com o fenómeno]. Há nove anos que dou concertos e faço discos. Limito-me a encarar as coisas concerto a concerto.
Quando estava a gravar “The Mysterious Production Of Eggs”, que é já o seu quinto álbum a solo, apercebeu-se de que este era o disco que o ia tornar mais famoso? Considera-o um disco especial? Ou estará apenas a ser melhor promovido?
É uma boa pergunta. Será que o disco está a safar-se bem porque é bom (o que é sempre um conceito estranho) ou por causa da promoção? Quem me dera saber. Eu achei que o “The Swimming Hour”, de 2001, era um disco bom e apelativo, e acabou por ser o que teve menos sucesso, facto que gostaria de atribuir à falta de promoção. Com o “The Mysterious Production Of Eggs”, estava tão concentrado a fazer o disco que nem dei por mim a pensar se iria ter sucesso.
Quão importante foi para si trabalhar com David Boucher [colaborador de Randy Newman, entre outros]?
O David foi o engenheiro de som na minha terceira tentativa de fazer o disco. Nessa altura já estava bastante desesperado. É um rapaz novo e muito talentoso. Tem um temperamento diferente dos anteriores, leva um estilo de vida mais rock’n’roll. O mais importante, porém, foi eu ter aprendido com as duas tentativas falhadas e já saber o que tinha de fazer, à terceira.
Colocou também muito esforço no trabalho gráfico do booklet e no design do seu site oficial. Preocupa-o o aspecto visual da sua obra, a imagem que transmite do seu universo musical?
Sempre gostei dessas coisas, quase como se fosse um hobby. Às vezes, é um alívio tão grande colaborar com artistas [gráficos] em vez de com músicos! Chicago tem muitos artistas ligados à impressão e aos posters, em que a ênfase recai sobre a arte visual mais funcional, orientada para o texto. [O designer] Jay Ryan e eu somos bons amigos, juntávamo-nos e brincávamos sobre as canções, enquanto ele desenhava. Temos um sentido de humor parecido. Encaro a arte como uma forma de estabelecer ligações entre temas que estão escondidos nas canções, coisas das quais nem eu, de forma consciente, me apercebo.
Já falámos sobre o sucesso crítico e de culto que “The Mysterious Production Of Eggs” tem tido na Europa. Como é que o disco tem sido recebido nos EUA?
Há oito anos que ando em digressão pelos EUA. Nem sempre foi fácil, mas agora parece que as coisas começam a funcionar, por fim. Tínhamos praticamente desistido de alcançar qualquer tipo de sucesso na rádio ou no mainstream, mas desde o ano passado cada vez mais estações têm corrido riscos ao passarem músicas mais aventureiras e independentes.
Com todos os concertos e acções de promoção, ainda encontra tempo para outros projectos, como foram em tempos a colaboração com os Squirrel Nut Zippers ou a banda-sonora do filme “The Cradle Will Rock” (1999)?
Bem, os Squirrel Nut Zippers separaram-se há alguns anos. Acho que, para mim, a forma de expressão mais pura e mais excitante é mesmo tocar ao vivo. Gostava de trabalhar mais vezes em trilhas sonoras… mas nem por isso prefiro o estúdio, sem luz nem ar naturais…
Como é que funcionam colectivos como o Bowl Of Fire (designação que acompanha o nome de Andrew Bird em algumas circunstâncias)? São sempre os mesmos músicos? Contribuem para a composição das canções?
Bowl Of Fire era apenas um nome que servia para qualquer banda que me acompanhasse. Os participantes mais importantes foram o meu baterista Kevin O’Donnell (tocamos juntos há 12 anos) e Nora O’Connor, que canta comigo de vez em quando. De qualquer forma, já não uso esse nome há alguns anos.
Ainda lecciona música na Old School Of Folk Music?
Não, deixei de leccionar há vários anos.
“The Mysterious Production Of Eggs” é um dos seus trabalhos mais pop. Os seus fãs mais antigos ficaram desapontados com a avalanche de canções acessíveis e refrões viciantes que se encontra neste disco? E como músico, tem saudades de fazer trabalhos mais complexos?
Os meus dois primeiros discos, “Thrills” (1998) e “Oh! The Grandeurs” (1999), eram claramente inspirados nas décadas de 1920 e 1930. Por isso, quando lancei o “The Swimming Hour”, em 2001, com garage rock, soul e “pop”, algumas pessoas levaram o seu tempo a habituar-se. Hoje em dia, o meu público já espera ser surpreendido pelo que eu faço.
Li uma rubrica no site pitchforkmedia em que referia muitos discos jazz e de música clássica. Esses são os tipos de música que mais o influenciaram, que ouviu na sua juventude?
Sim, cresci a tocar e a ouvir música clássica, mas tinha um espírito inquieto e improvisava muito. Dei uma olhadela rápida à música de todo o mundo entre os 18 e os 26 anos, altura em que devorei tudo desde música indiana a cigana, irlandesa, do Delta [do Mississippi]… Mas continuo a ter aqueles discos favoritos que ainda me excitam, os tais que mencionei na pitchforkmedia.
As suas canções têm muitas vidas, assim por dizer, e frequentemente seguem por caminhos inesperados. Como é que lhe surgem as ideias para as canções? Tem uma ideia principal e depois acrescenta-lhe os pormenores, ou surge-lhe tudo de uma vez só?
Não tenho medo de voltar a escrever as músicas. Muitas destas músicas foram reescritas 30 vezes. As ideias divagam, juntam-se a outras ideias e voltam a separar-se, muitas vezes de forma subconsciente e arbitrária. Nunca anoto as coisas. Limito-me a esperar que as ideias regressem, enquanto lavo a louça. Essa é a prova de que elas serão capazes de afectar o ouvinte, também. Sinto-me possuído pelas melodias, mesmo enquanto durmo.
O que prefere que lhe chamem? Um escritor de canções, violinista, cantor, assobiador ou maestro?
Maestro não, de certeza. No topo da lista ponho a escrita de canções.
As suas letras são bastante elaboradas, por vezes mesmo surreais. Lê muita coisa ou tem uma imaginação realmente fértil?
Leio bastante, mas tenho o cuidado de deixar espaço para as minhas próprias ideias, lírica e musicalmente. Outra coisa importante é mantermo-nos aberto a coisas que não façam sentido. O impulso de criar ordem e obter respostas correctas é o inimigo de uma boa letra.
Este ano deu alguns concertos na Europa com Ani diFranco, cuja editora, Righteous Babe, lançou “The Mysterious Production Of Eggs”. Identifica-se com a atitude independente dela?
Sim, identifico-me.
É comparado frequentemente a artistas como Rufus Wainwright, Beck, Calexico, Ed Harcourt e até a músicos mais novos, que andam nesta vida há menos tempo que o Andrew Bird. Como é que encara essas comparações?
A comparação com o Jeff Buckley lisonjeia-me, as outras causam-me reacções diversas.
Quando escrevi a crítica a “The Mysterious Production Of Eggs” chamei-lhe “IAM – Intelligent Americana Music”. Dada a sonoridade e a complexidade das canções, concordaria?
Penso que muitos escritores de canções têm padrões de qualidade muito baixos no que toca ao seu meio de expressão, e acabam por estar sempre a repetir os mesmos clichés estafados. Então e se alimentássemos em redor das canções as mesmas expectativas que alimentamos quando queremos ler um romance bem escrito, quer a nível de estrutura quer de alma? Não estou aqui para elevar este meio de expressão ou granjear-lhe “inteligência”, até porque isso pode matá-lo. [A canção] é uma coisa delicada, nunca sabemos o que vai resultar – até pode ser uma coisa muito básica e, segundo os critérios de alguns, bastante estúpida. Por isso é que eu adoro o modo de expressão que é a canção: porque as fórmulas não te garantem nada.
Lia Pereira
(Mondo Bizarre - Agosto 2005)
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