Entrevistas
THE ANGELS OF LIGHT
HÉRCULES DA ALMA
Os Angels of Light são o projecto mais notável do presente de Michael Gira, antigo líder dos Swans. Do caos monolítico de horror sónico que começou nos anos oitenta na "no wave" novaiorquina, chega-se agora à simplicidade acústica proposta por um criador imparável que continua a procurar ir mais fundo nos abismos da alma.

Michael Gira, proeminente figura dos míticos Swans é um "cromo difícil". Criador prolífero e compulsivo, faz música há cerca de 20 anos para evitar "ficar atrofiado". Com os Swans estabeleceu um trabalho imenso e profundo que remexeu nos lugares mais recônditos da alma humana e que ainda está por ser avaliado convenientemente. Depois dessa fase, que diz estar feliz por ter acabado, multiplicou o seu trabalho por vários outros projectos, dos quais os Angels of Light serão o mais notável. Não só porque permitem continuar a ouvir essa poderosa voz das entranhas que é Gira, mas sobretudo porque de alguma forma prosseguem o trabalho titânico dos Swans.

De todos os seus interesses pós-Swans, os Angels Of Light são aquele que, em termos emocionais mais se lhes assemelha. Vê este novo projecto como uma espécie de continuação dos Swans?
Não faço distinções. Limito-me a continuar a trabalhar e uma ideia acaba por levar a outra. Mas quis que os Angels se concentrassem mais na canção. Achei melhor deixar as ideias sónicas e de bandas sonoras para os Body Lovers. Nos Angels é importante que eu consiga tocar tudo sózinho, só com uma guitarra acústica, pois é essa a essência do projecto.

Musicalmente, os Angels Of Light são mais restritos e existe uma grande enfâse na voz e nas palavras, semelhante ao espírito dos blues, da country e da música folk mais antiga. Este trabalho insere-se na tradição dessas músicas?
Bem, a maior parte das vezes não sei o que estou a fazer. Seria pomposo da minha parte alinhar-me com uma qualquer tradição. Descobri que tenho a capacidade, no meu modo desajeitado, de fazer surgir algo com uma guitarra acústica e a minha voz, que é simples, básico e inteiramente dependente do que toco no momento. Depois de tantos anos a trabalhar em estúdios caros, e, de vez em quando, a deixar-me levar pelas possibilidades da tecnologia, só quero criar algo irredutível e aceitar os riscos a isso inerentes.

O interesse pela diversidade e por experimentar coisas diferentes parece continuar a existir no seu trabalho. Uma vez que desenvolveu os Body Lovers/Haters, que se dedicam à criação de inóspitas texturas atmosféricas, traçou parâmetros para a música dos Angels Of Light?
Por ora perdi um pouco o interesse pelo lado sónico das coisas. Talvez, num dado ponto, volte a usar esse tipo de abordagem.

Essa opção representa um desafio ou inibe as gravações?
De facto inibe. Mas de um modo bom. Vejo as limitações como uma coisa boa.

Há uma selecção de músicos diferentes nos vários álbuns dos Angels Of Light. Como se materializam essas colaborações? Quer dizer, contacta pessoas cujo trabalho vem admirando ao longo dos anos, as pessoas contactam-no pela mesma razão, ou a escolha é baseada na amizade (que por sí só significa respeito e ideias semelhantes)? A habilidade musical é importante para si?
Só trabalho com pessoas de quem gosto. Tive experiências muito más durante a carreira dos Swans, devido ao meus desespero em fazer o grupo continuar. Trabalhei com pessoas que já sabia terem motivos muito pouco puros. Isso deixou-me permanentemente com arrepios. Agora só trabalho com amigos que, claro, têm que ser bons músicos, ainda que não estritamente no sentido técnico.

Obviamente, os Angels Of Light são o seu navio. Permite aos colaboradores liberdade para usarem as suas próprias ideias no projecto?
Sim. Os arranjos do último álbum, "How I Loved You", foram totalmente feitos em colaboração, sujeita à minha aprovação final. Neste novo disco as coisas limitaram-se a fluir naturalmente, quase sem nenhuma necessidade de intervenção da minha parte. Excepto, talvez no que à dinâmica, à duração das partes das peças e à construção de secções diz respeito.

Também estabeleceu a Young God Records para o seu próprio trabalho. Vai continuar a ser exclusivamente assim (exceptuando as possíveis bandas sonoras que venha a comissariar - coisa que está bem clara no seu site)?
A Young God Records já deixou de ser apenas para os meus projectos. Editamos música de outras pessoas e pensamos continuar a fazê-lo. Inicialmente, a razão do nascimento da editora foi uma questão de sobrevivência, pois tinhamos passado anos a trabalhar e não viamos nenhuns resultados financeiros.

Teve realmente algumas ofertas para escrever bandas sonoras?
Sim, mas nada em concreto.

Quem mais admira nesse campo da realização e da composição de bandas sonoras?
O Morricone é, obviamente, excelente. Admiro Bernard Hermann. Também gosto das peças dos Popol Vuh para os filmes de Herzog e achei fantástico o uso que Kubrick fez da música de Ligeti no "2001 Odisseia no Espaço" e no "Shining". Penso que também usou Ligeti no "Eyes Wide Shut". Infelizmente, na maioria dos casos, hoje em dia os filmes das grandes companhias ou têm música da treta ou apresentam uma colecção inteira de canções pop que, em geral, pertencem à mesma companhia que lança o filme.

À parte a sensação de controlo que dá, está a gostar dos outros aspectos ligados à gestão da sua editora? Esses grupos que editou são grupos que não tinham contrato discográfico e que achou interessantes relevar?
Limitei-me a seguir os meus instintos e a responder à musica de modo visceral. Não tenho nenhuma preferência. Apenas quero que a música que editamos tenha urgência, originalidade e seja independente de qualquer género específico. Em relação à editora trato de tudo sózinho, excepto da contabilidade (os meus olhos tornam-se imediatamente opacos ao pousarem em facturas), por isso tenho muito trabalho. O site também consome muito tempo, mas, normalmente, é tempo bem gasto.

Regressando aos Angels Of Light, não parece tocar muito fora dos Estados Unidos. Porquê?
De momento é uma situação financeiramente impossível.

Nesse campo, ou noutro qualquer, sente a falta dos Swans?
De todo! Estou muito feliz por esse período da minha vida ter acabado.

Com todas as reedições, deve haver bastante interesse à volta dos Swans. Acha que as pessoas estão a descobrir os discos deles a partir do que está a fazer presentemente?
Funciona de ambos os modos. Como as coisas estão sinto-me com bastante sorte por ainda ter uma carreira.

A internet também deve ser uma grande ajuda. No entanto, tendo em conta a quantidade de música disponível e a torrente de lixo existente, considera ser mais difícil furar?
Para mim é apenas um modo de chegar às pessoas que estão interessadas na música que editamos. A parte tecnológica não me interessa muito.

Como tem corrido o site da Young God Records? Da última vez que lá fui parecia existir uma série de gente esquisita no quadro de mensagens...
O site tem crescido muito para além das nossas espectativas. Ted Mason, o responsável pelo site, é uma dessas pessoas que, de tempos a tempos, aparecem na minha vida e me salvam o traseiro. Como já tinha dito, é muito trabalho, mas não me incomoda. Gosto de estar em contacto com as pessoas que apreciam a música e muitas vezes descubro que são muito inteligentes e têm muito para dar.

E quanto a essa estória de estar disposto a vender um dos seus dedos por 250 mil dólares, há cerca de um ano, através da internet? Perece um gesto muito desesperado. Não teria sido mais fácil fazer um tema "radio-friendly", se está tão desperado por dinheiro? E parece-me que se pode fazer isso sem comprometer a integridade como fez o Bill Drummond dos KLF...
Bem, acho que a ideia de vender o meu dedo era brincadeira. Ainda que, se alguém tivesse feito uma proposta, tinha quase de certeza aceite. Afinal, quem é que precisa do dedo mindinho da mão direita? Quanto a fazer uma canção "radio friendly", lamentavelmente isso vai ter que ficar para uma próxima encarnação.

É um artista muito prolífero. Como conseguiu manter-se motivado ao longo de todo este tempo e em que medida essa motivação tem mudado?
Não tenho problemas com a motivação. Todos os aspectos da minha vida são engrenados à volta do objectivo final: fazer música. E assim tem sido ao longo dos últimos vinte anos. E se não a faço começo rapidamente a sentir-me atrofiado e tenho ataques de pânico. Não sei, talvez tenha uma ética de trabalho americana e calvinista.

Quando escreve, o que surge primeiro: as palavras ou a música?
Actualmente, começo pela música. Sento-me com a guitarra e começo a tocar, a perder tempo, até encontrar alguma coisa. Depois luto para encontrar palavras. Coisa que se está a tornar cada vez mais difícil. Aparentemente, quando as palavras aparecem, são como que injectadas dentro da minha cabeça por uma fonte externa. Se tento demasiado não acontece nada. Claro que, após tantos anos a escrever canções há sempre o problema da repetição. E, vezes demais, dou conta de estar consciênte do público, o que é uma coisa má.

Continua a ir a tantos concertos como quando se começou a interessar por música? E a comprar discos?
Continuo a comprar música. Basicamente coisas antigas. Nos últimos tempos, uma das minhas coisas favoritas é a caixa com as gravações completas da Carter Family. Recentemente, o concerto em que me diverti mais foi num festival de bluegrass que contava com as presenças, entre outros, de Doc Watson Del McCorey e em que eu era o único fã que berrava. Também vi os Neurosis num festival que eles próprios organizam e, apesar da diferença de estilos musicais, reagi da mesma maneira. Acho que reajo a actuações cruas e intensas. É por isso que considero a musica electrónica tão terrível e vazia. Os únicos que vi, ao vivo, capazes de ir mais além foram os Suicide (nos velhos tempos), os Panasonic e os Throbbing Gristle. Claro que nunca vi os Kraftwerk, mas disseram-me que eles eram fantásticos...

Quando se começou a interessar por música?
Julgo que pelos oito anos a ouvir os Righteous Brothers.

É uma pessoa muito ocupada. O que faz para relaxar? Não o imagino a abrir latas de cerveja e a ver os Simpsons...
Também abro latas de cerveja. De resto leio, vejo filmes, tento, quando tenho tempo, viajar o mais possível. Costumava dizer: "só estou feliz quando me vou embora", mas já não é bem assim...

Acredita que vai estar sempre ligado à música ou às vezes sente-se tentado a fugir de tudo e a tornar-se mecânico ou outra coisa do género?
É possível que, a dado ponto, decida apenas escrever e parar de fazer música. Não creio que alguma vez consiga trabalhar para outra pessoa. A ideia de ter outra pessoa a controlar o meu tempo não é de todo aceitável.

Richo - Exclusivo Adverse Effect/Mondo Bizarre - Edição: Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 9)