THE ANGELS OF LIGHT
Inimigos do aborrecimento
Após o término dos Swans o seu antigo líder, Michael Gira, emancipou-se para o mundo do underground. Nos últimos anos tem estado tudo menos inactivo e entre a caça de novos talentos, digressões e uma editora, erigiu os Angels Of Light que já vão no seu terceiro álbum. “Everything Is Good Here/Please Come Home” é uma gravação mais exigente e que de alguma forma lembra as últimas criações do projecto que o notabilizou.
Michael Gira apresenta “Everything Is Good Here/Please Come Home”, o novo álbum dos Angels Of Light, como “uma dádiva para os estupefactos, os rancorosos, os desiludidos, os escolhidos, os falhados e os insanos, os enlouquecidos e transviados, os que buscam a espiritualidade, os esfomeados, os entorpecidos, os passivos inveterados, os secretos e furiosos sobre-cumpridores, os banalmente normais, os consumidores bem prevenidos e os curiosos vagamente distraídos”. Quase todos os tipos de pessoas podem cair nestas inúmeras categorias que ele enuncia de forma vagamente irónica. No entanto sabemos secretamente que a sua música é só para alguns. Não muitos. Mas exigentes. Os tais a que Gira agradece nesta entrevista e que têm vindo a acompanhar a sua música desde os inícios dos anos oitenta. Quem o procura já sabe ao que vai: abismos emocionais, uma postura muito forte e interrogativa da alma humana, uma música como mantras que parecem surgir das entranhas e que exige toda a disponibilidade dos nossos sentidos. Com o novo álbum dos Angels Of Light, o seu projecto mais visível na actualidade, há de novo uma forte exigência, já que é bastante diferente dos dois anteriores assinados por este pseudónimo. Mais escuro e denso, mais orquestrado, por vezes mais furioso, é um disco que de certo modo lembra os últimos discos dos Swans, na maneira como cria ambiências a partir de canções e funde ressonâncias acústicas com construções de ruído. Michael Gira apresenta estas canções dizendo que partiram de desastres de vários tipos e que no fundo procura alegria e pureza na música. Ao mesmo tempo vai avisando que o melhor é não se acreditar em nada do que diz ou pensa.
Em tempos disse que os Angels Of Light seriam o projecto onde todas as canções poderiam ser interpretadas com voz e uma guitarra acústica. No entanto o novo álbum está muito longe dessa situação, é bastante mais orquestrado e complexo. Onde ficou o conceito inicial para este projecto?
Uma coisa que aprendi ao longo do tempo foi em não acreditar em nada do que digo ou penso! Começo sempre um projecto com intenções muito específicas, mas as circunstâncias mudam, e com elas as minhas ideias. Penso que é mais uma força mantermo-nos abertos às mudanças e à sorte e lidar com esses elementos à medida que eles acontecem, do que ficar fixo num só ponto de vista. É provavelmente por isso que ainda tenho uma carreira. De qualquer modo neste álbum, enquanto os arranjos iam tomando forma, cada elemento parecia pedir mais e deixei-me ir. Quando as canções foram gravadas, inicialmente não estava nada satisfeito. Soavam demasiado semelhantes às dos álbuns anteriores, portanto tornei a gravar uma boa parte e apaguei uma série de coisas. De qualquer modo estas canções soam bem apenas com uma guitarra e voz -foi como foram escritas. E penso que o próximo álbum será muito mais simples e esparso.
Quem/o que são os Angels Of Light neste momento?
Não tenho nem quero uma banda permanente, mas de momento estou a trabalhar ao vivo com o Christoph Hahn (lap stell guitar e guitarra eléctrica), Patrick Fondiller (baixo e bandolim) e Devendra Banhart (guitarra eléctrica).
Depois dos Swans parecia ter deixado o lado mais sónico/experimental da sua música para os projectos Body Lovers/Haters. Mas neste novo álbum dos Angels of Light parece misturar tudo de novo, o lado mais acústico e o mais experimental, as ambiências e as canções. O que nos leva de novo para o tipo de conceito sonoro dos Swans finais. É uma tentativa de recuperar esse ponto perdido?
Não estou definitivamente interessado em tentar fazer o que quer que seja que soe como os Swans. Mas a verdade é que sou a mesma pessoa, por isso não me admirava se alguns elementos ressurgissem. Limito-me a seguir a minha imaginação onde ela me levar.
Os títulos dos álbuns dos Angels Of Light sugerem um progressão – “New Mother”, “How I Loved You”, “Everything’s Good Here/Please Come Home” – há aqui alguma história? Quem conhecer um pouco do seu percurso pode pensar num propósito para estes títulos… Alguma ligação com a Jarboe (antiga companheira de Gira e ex-elemento dos Swans)?
Não há nenhuma ligação com a Jarboe. Os títulos surgem quando os álbuns são acabados. Como as canções neste disco parecem ter surgido de desastres de um ou outro género achei que era boa ideia sugerir uma espécie de boas vindas. Depois também há um par de canções de amor um bocado duras e uma espécie de canção de embalar…
“How I Loved You” era um álbum mais leve que este. Mais melancólico e talvez nostálgico. Agora parece haver uma nova raiva. Vê estas mudanças de humor como parte de um ciclo constante ou são o produto dos tempos que atravessamos?
Não concordo totalmente que este álbum tenha mais raiva. É bastante diverso. Para mim a música é divertida e o meu objectivo final é providenciar amor.
A sua arte reage ao lado mais mundano e social da vida? Às vezes parece bastante centrada em si mesmo…
Escrevo acerca do que me interessa a dado momento. E na realidade muitas das canções não são inspiradas em assuntos necessariamente pessoais, embora esteja a responder pessoalmente ao assunto em questão. “All Souls Rising”, por exemplo, foi escrita após ter lido um livro acerca das revoltas de escravos no Haiti no final do século XVIII. “Kosinski” aconteceu depois de ter lido a biografia do escritor Jerszy Kosinki. “Both Nations” e “What Will Come” foram escritas com a tempestade mediática após o 11 de Setembro - espero que não sejam retóricas nem moralistas de algum modo. Uso experiências pessoais às vezes mas não me deixo prender por elas. São apenas material em bruto para fazer alguma coisa acontecer musicalmente e em termos de escrita.
A parte realmente boa desta insistência é que a sua música soa sempre única, reconhecível e personalizada. É uma maneira conceptual de fazer as coisas ou uma maneira de se auto-preservar?
Simplesmente tento manter-me interessado naquilo que faço. O aborrecimento é o inimigo.
O que sente quando elementos reconhecíveis da sua música aparecem no trabalho de outras pessoas como por exemplo nos Neurosis ou Tool. Sente-se roubado?
Não. É lisonjeiro.
Recentemente lançou um álbum do Devendra Bahnart na sua editora, A Young God Records, e ele inclusivamente toca consigo. O que viu nele e como o descobriu?
A minha amiga Siobhan Duffy tocou bateria com os Flux Information Services e o Devendra abriu para eles em Los Angeles. Ao ouvir a sua voz não queria acreditar o quão única era. Trouxe-me um CD-R e fiquei estupefacto. Penso que ele é um talento musical completamente único. Uma personalidade muito especial. Devendra está destinado a grandes acontecimentos. Ele tem apenas 21 anos e uma vida mágica à sua frente.
Que outros artistas pensa editar proximamente?
Estamos a gravar um novo álbum dele para editar em breve e também um novo dos Angels Of Light. O próximo artista a editar será o Scanner, um músico de electrónica experimental britânica.
Desde o início que a sua música tem escavado fundo nas profundezas da alma humana. Nos seus recantos mais difíceis e sombrios. Pensa que este é o lado mais interessante da Humanidade? Já alguma vez pensou em fazer um disco acerca do lado mais feliz e às vezes mais estúpido da nossa terrível espécie?
Já escrevi canções acerca de todos os tipos de assuntos, incluindo canções bastante positivas, por isso não concordo muito com esse ponto de partida…
No texto de apresentação deste álbum descreve-o como sendo tanto para pessoas intensas e insanas quanto pessoas da mais trivial banalidade. Como pensa que estas duas maneiras opostas de ver o mundo podem ligar-se à sua maneira muito única de fazer música? Poderá ser uma espécie de ligação sadomasoquista entre o artista e os seus ouvintes?
De certeza que não tenho um tipo de relação sadomasoquista com a minha audiência. Amo-os e estou grato que eles encontrem algo de valioso na minha música.
Com a sua editora e a oportunidade mais directa que tem de contactar as pessoas através do seu “website” deve ter uma melhor perspectiva do tipo de pessoas que se relacionam com a sua música. Seria possível descrever os seus fãs?
Vêm de todos os lados, do mais jovem ao mais velho, como eu. A maioria parece ser inteligente e interessada na música por ela própria. E parecem encontrar um sentido nessa música, o que me agrada bastante.
Um dos colaboradores notáveis deste novo álbum é o Kid Congo Powers que tocou com os Bad Seeds ou os Gun Club. Um velho resistente, um pouco como o Michael Gira. Como vê a sua geração de músicos, pessoas com fortes pontos de vista como os Sonic Youth, Nick Cave ou Henry Rollins. Ou nem sequer considera existir essa geração?
O Kid Congo é um velho amigo meu. Tocou guitarra numa única canção –“Rose of Los Angeles”. Acho que não sinto nenhuma ligação com uma suposta geração.
Disse também em tempos que não comprava discos, que preferia um bom espectáculo ao vivo. Mas no novo álbum aparecem fotos de pilhas de CD’s (e livros). Mudou de opinião acerca destes objectos de consumo. Ou há quem lhe dê muitos CD’s nos últimos tempos?
A música que oiço chega-me de uma forma aleatória, geralmente através de amigos. Os últimos que consegui foram um CD dos Popol Vuh que nunca tinha ouvido e que um fã me ofereceu num concerto e uma caixa do James Brown. Não há realmente um estilo que me interesse mais do que outro. Procuro sempre pureza e alegria na música. Não tenho nenhum interesse em saber o que é popular no momento, e se calhar é razoável dizer-se que não gosto muito da música contemporânea.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 15)
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