Entrevistas
ANIMAL COLLECTIVE
OU NEVE, TANTO FAZ
No último mês do ano mais frutífero da história dos Animal Collective, Dave Portner (Avey Tare) fala-nos do concerto da banda em Portugal, do Inverno em Nova Iorque e do tempo que passou.

O percurso dos Animal Collective desde a sua primeira formação em 2000, com o nome de Avey Tare & Panda Bear (Noah Lennox), é como uma interferência infinita numa televisão por sintonizar: tão complexa, livre e aleatória quanto a música que assinam. “Here Comes The Indian” é o seu mais recente álbum de originais e até agora o único em que participam os quatro membros, que em acréscimo de pseudónimos aos anteriores são, respectivamente, Geologist e Deaken. Além do EP “Campfire Songs”, também correspondente a este ano e a anteceder a reedição dos dois primeiros discos “Spirit They're Gone, Spirit They've Vanished” e “Danse Matanee”, a banda soma ainda duas digressões com os Black Dice, um álbum ao vivo, “Hollingagain”, um split de Avey Tare com Sir David Grubbs e o lançamento de um álbum a solo de Panda Bear. O novo trabalho já está gravado, sob advertência de se tratar de algo verdadeiramente diferente, como aliás têm feito até agora. Considerações à parte, Avey Tare rectifica.

Há algum grande propósito atrás da vossa música e na forma como organizam o vosso som, conceptualmente?
Há um propósito individual atrás de cada um de nós. Eu sempre adorei música e o meu background tem a ver com manipulação de som. Procuro encontrar novos sons e ruídos para os misturar de forma a transformá-los em canções, estruturas estranhas, melodias... As minhas duas grandes influências foram provavelmente os Pavement e a banda sonora do “Texas Chainsaw Massacre”. Em relação a conceitos, nós não somos uma banda conceptual, mas acho que o facto de tocarmos juntos fez-nos adquirir um som próprio e atrás dele há um conceito espontâneo. O Noah ou eu podemos escrever as melodias, mas não impomos nada nem dirigimos ninguém. O nosso som vem de um trabalho conjunto e “colectivo” a todos os níveis... É uma questão empática. Procurámos evitar a rotina, bem como tocar as mesmas músicas muitas vezes e acho que acima de tudo fomos capazes de cativar as pessoas por oferecermos algo verdadeiramente diferente, tanto nos discos como ao vivo. Nós entregamo-nos completamente ao público, não vendemos um produto. Quem nos ouve reconhece isso e se há algum propósito partilhado por todos nós é este.

Este ano os Animal Collective surgiram com dois álbuns completamente diferentes, o EP “Campfire Songs” e o “Here Comes The Indian”. O que é que os destingue?
Inicialmente o “Campfire Songs” nem era para ser um álbum dos Animal Collective, por não se tratar de um disco do Avey Tare, do Panda Bear nem de nenhum dos dois. É um disco especial. A ideia surgiu há quatro anos. Nós queríamos fazer um disco acústico, doce, que fosse sugestivo e confortável como as chamas de uma lareira na sala de uma casa. Queríamos fazer um disco folk que fosse distinto dos outros discos acústicos que estávamos a preparar. Demorou um bocado para encontrarmos o som que exprimisse realmente o sentimento que gostávamos de passar às pessoas. Acho que o facto de termos simplificado as composições e de o termos gravado ao vivo e no exterior foi fundamental. Recorremos ao mundo exterior como uma fonte de som e um pano de fundo. O resultado foi uma longa peça feita de texturas e fragmentos de coisas. Quanto ao “Here Comes The Indian”... é o primeiro disco dos Animal Collective em que participam todos. É também o nosso trabalho mais solto, onde cada músico toca alternadamente num espaço com limitações mínimas e onde cada estrutura é levada ao seu extremo mais abstracto. As letras foram escritas durante um tempo muito escuro e confuso para todos nós... provavelmente é daí que vêm todo o caos. Comecei por escrever as melodias para três canções espasmódicas... todo o resto veio de tocarmos ao vivo.

Há sempre imensa Natureza na vossa música... como uma pequena selva no centro do mundo. Às vezes é como imaginar a desintegração de um elefante a circular no metro em hora de ponta, outras é como fragilidade de uma árvore milenar a crescer à beira de um arranha-céus...
Não podia concordar mais consigo. Todos nós crescemos num meio ambiente focado na Natureza. Eu cresci numa zona florestal muito densa de Maryland onde passava a maior parte do tempo a brincar no meio das árvores e na terra. Quando fui para o secundário a minha maior inspiração extra-musical era basicamente a paisagem à minha volta, por isso decidi fazer música que contivesse em si uma imagem de Natureza. Por outro lado, vivo em Nova Iorque há seis anos. Nova Iorque é uma cidade fugaz. Não há muito tempo para pensar e está-se constantemente com pessoas a falar de coisas... ou apenas a ouvir o movimento das pessoas a circularem. O espaço onde ensaiamos é uma desordem completa. Há sempre outras vinte bandas a tocar no mesmo edifício que nós, em simultâneo, e acho que grande parte desse ruído é acrescido ao caos dos nossos discos. Se nós estivéssemos a fazer música noutro sítio seria tudo muito diferente. O que podemos aproveitar de Nova Iorque não é realmente a paisagem, mas sim a interacção.

Vocês estiveram há algumas semanas atrás no Festival Número. Pelo que percebi as opiniões sobre o vosso concerto foram muito diferentes. Algumas pessoas adoraram, outras detestaram, no entanto, e numa espécie de bloqueio emotivo, ninguém pareceu conseguir explicar realmente nada do que por lá se passou...
As reacções aos nossos concertos são sempre muito drásticas: as pessoas adoram, odeiam e na maior parte das vezes não apanham nada do que se está a passar. A cena é que tem de haver preparação e abertura para se ouvir alguma coisa para além de canções com princípio meio e fim, tocadas umas atrás dos outros... nós não distinguimos nada quando damos concertos, misturamos tudo em palco de forma mais ou menos improvisada. Os nossos espectáculos são sobre energia e entusiasmo. Acreditamos que o ruído é uma forma de liberdade e achamos que podemos fazer o que quisermos enquanto for divertido e produtivo para nós e para o público. Os nossos concertos correm como sonhos... ainda que isto soe um bocado lamechas, acho que é o único termo de comparação possível. Quando nos lembramos dos sonhos nunca sabemos bem e com clareza o que aconteceu... nem porquê. É uma espécie de embriaguez e é assim que eu imagino que seja assistir a um concerto nosso. Claro que algumas partes fazem sentido, mas as emoções mudam muito rápido e como resultado algumas pessoas têm dificuldade em se integrarem e nos acompanharem. Um amigo meu de Portugal disse-me que ouviu comentar “estes gajos nem sabem tocar”. É uma reacção típica que eu acho completamente ridícula nós dias que correm, se considerarmos a história da música... E sim, nós sabemos tocar, alguns de nós muito bem até, e se não soubéssemos? O que é que isso interessa? Alguma da melhor música feita hoje em dia acontece só porque um puto tem o desejo puro de se exprimir em som, e isso não passa por saber ou não tocar um instrumento. Eu quando conheço um instrumento muito bem ponho-o de parte porque acho que o que o torna interessante é a aquela fase inicial em que podemos descobrir as potencialidades dele. Tudo que tocámos ao vivo é considerado como algo que faz sentido no contexto em que estamos, e porque acreditámos que pode despertar algo nas pessoas. Quanto ao Festival, a única coisa má foi o facto de, e falo pessoalmente, não ter sentido nenhuma ligação com nenhum dos outros artistas que lá tocaram... o que é uma pena. É bom podermos conhecer músicos que façam coisas realmente novas e que tenham um bom ponto de vista sobre o futuro da música e sobre o seu papel, mas toda a gente me pareceu distante e acho que os músicos que nos viram tocar provavelmente sentiram-se ofendidos por nós e pelo tipo de espectáculo que damos. Na mesma medida, eu também me senti ofendido por grande parte deles. Ainda assim achei Luomo fantástico, mas isso é só porque gosto imenso de techno e house. No geral posso dizer que gostei essencialmente do público e da oportunidade que tive em falar com as pessoas que se dirigiram a mim interessadas no nosso repertório.

Em relação às vossas letras... o que é que os Animal Collective tem a dizer?
As nossas letras são muito diferentes de álbum para álbum, mas isso também depende de quem as escreve. As letras do Noah costumam ser muito simples e eu tenho aprendido imenso com ele, porque as minhas letras costumavam ser o oposto... mais surreais e descritivas. As letras do nosso próximo trabalho são muito mais perceptíveis e importantes para cada composição. Normalmente escrevemos sobre os nossos dias e sobre o que está à nossa volta, com a excepção do “Hollingagain”, gravado ao vivo, onde as canções não se baseiam nas letras mas apenas em energia. Quase tudo o que temos a dizer no nosso disco novo tem a ver connosco a esforçarmo-nos para fazer sentido fora das nossas vidas. Tentámos agarrar no nosso ideal de pessoas que fazem aquilo que gostam porque gostam e não para ganhar dinheiro... Eu não tenho dinheiro neste momento e tenho feito um esforço grande para subsistir, mas isso não me faz abandonar o tipo de música que faço porque acredito realmente nela. Nova Iorque é feita de pessoas obcecadas consigo próprias. É uma cidade feita de cenários, cenas e falso glamour. Eu não suporto esse lado de Nova Iorque elitista. Aborrece-me. Acho que liricamente tentamos oferecer uma parte do que somos e da nossa relação com aquilo que nos rodeia. Coisas simples, como esperar numa fila para comprar bilhetes e observar as pessoas. Coisas simples e pequenas que por vezes se tornam exageradas quando passam para a nossa música, como se estivemos sob efeito de alucinogénios. Outras vezes permanecem normais.

Recentemente, e fruto da vossa relação com a editora Fat Cat, foram reeditados os vossos dois primeiros discos (“Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished” e “Danse Manatee”). Entretanto também está para sair um split assinado pelo Avey Tare com o David Grubbs. Como é lidam com o vosso primeiro álbum hoje em dia, e de que é que se trata este novo trabalho?
Hoje em dia não temos qualquer relação com o “Spirit...” porque éramos muito putos na altura. Hoje sinto-me bastante diferente do que era dantes e num lugar melhor do que aquele onde me encontrava na altura. Muitos temas vieram da raiva e do descontentamento que experimentei na escola... Eu detestava a minha vida e acho que só queria morrer. O álbum foi uma espécie de escapatória. Os meus pais tinham-se mudado do lugar onde eu cresci e eu estava a viver uma relação muito emocional e terrível. Acho que foi a forma que encontrei de materializar um “adeus” a todas as coisas importantes e simples da minha infância. Actualmente as letras não têm nada a ver com o que sinto... falam de coisas infantis e encerram alguns momentos especiais. Alguns desses momentos nasceram dos meus dias com o Noah, a trabalharmos muito para as composições ficarem perfeitas porque queríamos que o disco fosse mesmo sólido. Eu continuo a gostar dele, embora ache que se percebe perfeitamente o que eu andava a ouvir na altura. Quanto ao split, é talvez o nosso trabalho mais distante dessa época e está muito porreiro. Há um ano atrás fomos convidados pela Fat Cat para gravar mas estávamos num período transitório em que parámos de tocar porque o Noah andava em baixo. Eu tinha uma série de músicas prontas de que gostava e que fiz sozinho. Uma delas tinha sido gravada em Outubro do ano passado para uma instalação que a minha irmã fez na Parsons School Of Design. Os desenhos dela eram muito infantis e coloridos, e muitos deles tinham baleias. Então eu fiz uma peça muito longa, debaixo de água, em que o som parecia mover-se ao ritmo da ondulação, e as pessoas podiam sentir-se como se estivessem a nadar e a ver os desenhos dela ao mesmo tempo. As outras duas peças desse split tinham sido gravadas mais cedo e fiquei muito contente por poder usá-las no disco. Depois correu tudo bem porque toda a gente da banda me ajudou e de certa forma foi o trabalho com mais visibilidade que nos pediram para fazer...

O que é que vos inspira?
Muita, muita coisa... essencialmente as pessoas e os espaços por onde circulámos. Em termos de música, posso falar por mim: adoro techno, música africana, música psicadélica e algum noise cru e directo. Acho que os filmes de terror foram uma das minhas maiores influências e acho que a década de 70 na exploração do cinema de terror foi uma das épocas mais importantes e fantásticas para aquela que eu considero uma das mais belas formas de arte de sempre. Também leio bastante... autores escandinavos. De momento estou a ler um livro chamado “Independent People”, uma famosa novela islandesa.

Gosta de neve...?
Neve é linda... uma das coisas que menos gosto em Nova Iorque é o facto de não poder apreciar realmente a neve, a menos que esteja nos parques ou em lugares altos. Um dos meus livros favoritos chama-se “Silent Snow Secret Snow” e é do Conrad Aiken. É sobre um puto que descende lentamente à loucura e no seu imaginário há sempre uma tempestade de neve a invadir-lhe os pensamentos. A neve também é importante para a nossa música, por ser muito diferente dependendo das circunstâncias em que a encontras. A neve pode ser muito agradável e confortável, mas também pode ser brutal e perigosa. Se a associarmos a um estado de insanidade, acho que muita da nossa música é como neve...

Joana de Deus
(Mondo Bizarre # 17)