ANTONY
UM LUGAR DE IMENSA ESPERANÇA
Depois de “Antony And The Johnsons”, o álbum de estreia, Antony regressa com “I Am A Bird Now”, disco que conta com as participações especiais de Lou Reed, Devendra Banhart, Rufus Wainwright e do seu ídolo de adolescência, Boy George. Em entrevista, Antony fala-nos dos primeiros tempos em Nova Iorque, da ascensão no mundo na música, da importância dos seus “padrinhos” musicais e da sua visão peculiar do mundo. Antony vai regressar a Portugal em breve, com os seus Johnsons, para três concertos: a 29 de Maio actua na Casa da Música, no Porto, a 30 na Casa das Artes, em Famalicão e a 31 na Aula Magna em Lisboa.
Geralmente a sorte sorria a quem a procura de forma afincada. Quando nos anos 90 Antony se mudou para Nova Iorque – a cidade das oportunidades na assim chamada terra das oportunidades – arriscava-se a que o seu talento fosse encontrado mais tarde ou mais cedo. Estudou teatro na Universidade de Nova Iorque mas acabou por desistir e procurar outros poisos. Deu espectáculos em clubes nocturnos e em bares, conheceu e trabalhou com muita e variada gente e juntou os Johnsons para, perto do final dos anos 90, gravar o álbum de estreia um disco que se debate com a sua própria excentricidade, com a sua posição sexual e até com Hitler no seu coração. “Antony And The Johnsons” acaba por revelar também as suas influências musicais e não só. David Tibet e a sua editora Durtro pegaram no disco de estreia para o reeditar, Lou Reed convidou Antony a emprestar a sua voz em “The Raven” e na consequente digressão de promoção ao disco e o mundo foi-se preparando, pouco a pouco, mas de forma visível, para o acolher na história da música. Devendra Banhart reparou em Antony e colocou a brilhante “The Lake”, a sua rendição do poema de Edgar Allen Poe, num documento fundamental da música que agora se celebra – a compilação “The Golden Apples Of The Sun”. Seguiu-se o EP “The Lake” e agora o segundo disco de Antony e dos seus Johnsons, “I am A Bird Now”, editado pela Secretly Canadian.
Foi para Nova Iorque na procura de uma comunidade onde se pudesse sentir integrado. Presumo que a tenha encontrado... Pode contar-nos um pouco dessa história?
[risos] Não sei por onde começar. Por onde é que queres que comece? Acho que sempre soube que queria ir para Nova Iorque. Há uma concentração de artistas, sabes… uma espécie de bastião de pessoais liberais e de mente aberta na América.
Como é que conheceu os Johnsons? Qual é a sua relação com eles?
Os meus músicos, bem… Comecei por conhecer pessoas nos clubes nocturnos, em afterhours. Nesses dias trabalhei com muita gente, trabalhei com vários artistas diferentes. Comecei a apresentar a minha música, as minhas canções. Adoro juntar pessoas, juntar grupos de pessoas para fazer coisas. Mas só no final dos anos 90 é que decidi começar a trabalhar realmente com outros músicos. Até essa altura estava a trabalhar na minha música. Gravava canções com teclados. Depois, em 1999, juntei uma banda. Conheci-os através da comunidade musical aqui em Nova Iorque. Sabes, conheces uma pessoa depois conheces outras pessoas. Há muitos músicos aqui em Nova Iorque, acabas por conhecer toda a gente. Acabas por conhecer as pessoas com quem te identificas, encontras as pessoas com quem queres partilhar uma experiência. Há um rapaz, o seu nome é Maxim Moston, é um violinista da Rússia. Ele escreveu muitos dos arranjos neste novo disco. Escreveu os arranjos para “Man Is The Bay”, “What Can I Do?” e para outras canções. É um grande músico. Começou a fazer arranjos para mim mas agora está a trabalhar com muitos outros artistas como o Rufus Wainwright. Outra pessoa do meu grupo que sempre admirei bastante – senti-me um privilegiado quando ela começou a trabalhar comigo há cinco anos trás –, é a Julia Kent. Originalmente, começou por fazer parte de uma banda chamada Rasputina, um trio de violoncelos. Começaram há dez anos e são muito populares no círculo artístico. A Júlia foi um dos membros originais do grupo. Sempre pensei: quem me dera que ela trabalhasse comigo; ela é tão bonita. E assim foi, tive sorte. Aos outros músicos acabei por os conhecer por outras fontes.
David Tibet lançou as suas primeiras gravações na sua editora, a Durtro. Lou Reed convidou-o para fazer parte da sua banda para a digressão americana e europeia de promoção a “The Raven”. Presumo que ambos tenham sido importantes no seu desenvolvimento como artista…
Eles foram muito importantes na minha recepção como artista, na recepção do mundo a mim. O David recebeu-me a mim e ao meu primeiro disco numa altura em que não se ouvia falar de mim e o seu apoio significou muito para mim. Se isso não tivesse acontecido, as pessoas ou não teriam ouvido falar de mim ou não iriam achar que fosse apropriado, percebes o que eu digo? E ao mesmo nível, está o Lou Reed. Foram ambos muito importantes. Foi como se as pessoas obtivessem permissão para examinar o meu trabalho.
Assinou pela Secretly Canadian em 2004 e eles editaram o seu segundo disco há pouco tempo. Como é que tudo aconteceu?
A Secretly Canadian já queria editar o meu trabalho há dois anos. A primeira vez que ouvi falar deles pensava: uma cidade pequena em Indiana, e eles são exactamente o estilo oposto do meu… A minha cena é urbana. E aqui estamos nós, de repente, e eles são mesmo muito entusiastas. Pareciam exactamente algo do qual eu nunca quereria fazer parte mas, é engraçado, fui começando a receber diferentes propostas mas iam e vinham porque, na verdade, não queria nenhuma delas. (risos) Acabava por voltar sempre à Secretly Canadian. Mas pensava: afinal o que é isto? E o que descobri deles é que são completamente honestos. Confio neles. Foi essa a diferença entre eles e todas as outras propostas. Confio absolutamente neles. São apaixonados. Acabaram por fazer uma oferta suficientemente boa e eu choquei-me a mim mesmo quando a aceitei. Estou mesmo muito contente, contente com a relação com eles.
“Im A Bird Now” é muito mais intimista que o seu disco de estreia. O que é que mudou desde o primeiro álbum?
Foi uma escolha estética que eu fiz. Em primeiro lugar, passaram-se alguns anos desde o meu primeiro disco. Depois, trabalhar com outros músicos de uma forma como nunca tinha feito antes, fazer muitos espectáculos. Tudo isso deu-me o sentido daquilo que queria fazer, o sentido do tipo de música que queria fazer… a relação com os outros músicos, os arranjos. O meu primeiro disco também saiu da minha cabeça, totalmente hipotético. Juntei alguns músicos que não conhecia e disse-lhes: “tu tocas esta parte, tu tocas esta parte…”. Este disco é muito mais o reflexo de trabalhar através e com outros músicos. Aprendi também a perceber melhor aquilo que realmente queria, a maneira como queria afectar as pessoas. O meu primeiro disco era mais qualquer coisa que se podia ver, que se podia mostrar e desenrolar num palco perante todos. Este disco é mais um disco para entrar na vida das pessoas, nos seus quartos e um disco que as pessoas possam ouvir com toda a calma; algo com o qual as pessoas possam mais facilmente desenvolver uma relação humana.
O que é que significa o título do disco? Significa liberdade?
Para mim o disco é sobre transformação. Sim, sobre transformação.
“I Am A Bird Now” conta com as participações de dois dos seus heróis pessoais, Lou Reed e Boy George, e também de Devendra Banhart e de Rufus Wainwright. Estas colaborações serviram como inspiração para este disco? Presumo que se sinta satisfeito por tê-los no seu disco, como se fossem uma espécie de protecção…
Acho que é um elemento nisso tudo que ajudou a fortificar-me. O disco é estranho e, de certa forma, muito pessoal. Mas o que é engraçado é que foi preciso uma aldeia cheia de gente para o tornar possível. Houve muitas fases na gravação do disco. A certa altura, senti a vontade de abrir as canções e trazer, convidar, abrir a porta a mais pessoas. Foi óptimo. Criou, de repente, uma outra espécie de dimensão de significado. Criou um novo contexto para as canções.
Assume que Boy George é um ícone importante na sua vida. Como é que foi gravar “You Are My Sister” ao seu lado?
Foi espantoso. Uma daquelas experiências que mudam uma vida. A minha história com o Boy George começou quando eu tinha 11 anos. O seu impacto em mim e na direcção que eu tomei pessoalmente foi imenso. Afectou-me em criança. Estar lá, vinte anos mais tarde, regressar a esse estado de memória e dar por mim a olhar para o verdadeiro George, no estúdio, comigo a cantar uma canção que eu escrevi sobre a minha família e sobre as minhas relações mais íntimas, traz um novo significado, entendes? Foi muito intenso. Ele foi incrível no estúdio naquele dia. Estava toda a gente a chorar, foi de loucos. Foi muito, muito poderoso. Foi como um eclipse solar, um daqueles grandes mistérios naturais.
A imagem na capa de “I Am A Bird Now” é uma fotografia de Peter Hujar. O que é que o faz admirar o seu trabalho?
Na verdade, o Peter Hujar tem sido o meu artista favorito desde o dia em que vi aquela foto, a primeira imagem dele de que tive conhecimento. Fiquei deslumbrado. É uma imagem muito icónica, incorpora tudo aquilo que eu amo. É uma fotografia muito misteriosa. É uma foto muito paradoxal. Debate-se com a morte e a vida, com a moral e também com a transformação. As suas fotos lidam bastante com a transformação.
Amor, esperança, morte, perda, liberdade. Parece sempre pegar nos pontos mais extremos possíveis da vida. É uma pessoa dramática?
Não penso nisso dessa forma. Apenas escrevo sobre aquilo que estou a sentir sem pensar em coisas dramáticas. Sinto-me com sorte, sinto-me com sorte por me terem dado a possibilidade de poder criar esta relação com o mundo.
Como é que foi para si ver a canção “The Lake” incluída em “The Golden Apples Of The Sun”? Como é que vê Devendra Banhart e o seu trabalho?
Acho que o Devendra Banhart é um dos maiores artistas americanos da actualidade. Tem um talento imenso, é um visionário, totalmente honesto. Ele foi uma grande ajuda para mim. Apareceu na minha vida numa altura em que me sentia muito em baixo, arrastou-me e disse-me “Eu adoro-te”. É muito especial.
Apareceu a cantar em dois filmes: “Animal Factory” e “Wild Side”. Como é que aconteceu? Tem uma atração especial pelo cinema, pelo seu glamour e imaginário?
Fui abordado pelos realizadores porque eles tinham uma ideia, eles conheciam o meu trabalho e queriam vê-lo incluído no trabalho deles. Gostei bastante de ambas as experiências. Ambas as situações são muito peculiares. Em “Animal Factoryc” tive de cantar para um grupo de prisioneiros. Prisioneiros reais – tinham guardas e tudo –, e estavam a trabalhar, a ganhar 1 dólar e meio por dia. [risos]. E eles estavam ali parados enquanto eu cantava. Foi tão poderoso. A experiência foi fantástica. O dia das filmagens é uma coisa que nunca vou esquecer. Em “Wild Side”, fui convidado para cantar num café em Paris e contrataram umas raparigas e criaram uma espécie de audiência. Foi uma oportunidade óptima. Porque, na verdade, estava mais interessado em cantar com as raparigas do que propriamente em cantar no filme. Foi a mesma coisa do que cantar com os prisioneiros. A experiência de actuar ao vivo torna, para mim, o filme mais valioso. Deu-me muito prazer.
Algumas das suas canções são bastante teatrais. Supondo que a experiência ao vivo é muito importante para si. Qual é a sensação de cantar para uma plateia e partilhar a sua própria experiência?
Cantar é quase a minha razão de viver, a minha maior paixão. Uma das melhores coisas que me aconteceu foi a oportunidade de cantar.
Esteve recentemente na Sydney Opera House com Nick Cave, Beth Orton, e Rufus e Martha Wainwright. Como é que foi?
Foi óptimo. Todos os artistas eram encantadores. Muito divertido, foi uma loucura. Havia um piano bar no hotel e ficamos todos por lá, às voltas, completamente bêbedos a cantar canções. Foi muito divertido.
Texto: André Tiago Gomes - Foto: Leonel Sousa
(Mondo Bizarre # 22)
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