APRIL MARCH
Coração Francês
Elinor Blake, a menina por detrás do nome April March, pode comparar-se a Dorian Gray. Os anos passam mas esta americana apaixonada pela cultura francesa permanece com as mesmas feições de adolescente. O álbum “Triggers” é o novo resultado da colaboração entre Elinor e o produtor e músico francês Bertrand Burgalat.
Longe vão os tempos dos discos garage, dos Pussywillows, das colaboração com os Makers e os Los Cincos e das versões de Serge Gainsbourg. Desde que começou a colaborar com Bertrand Burgalat, a música de Elinor Blake mudou. Tornou-se mais sofisticada sem nunca perder o fio condutor que liga April March à cultura francesa. Com um pé no passado e outro no presente, “Triggers” é um disco agradável, recheado de pequenas pérolas pop, que não sonham com mais nada senão entreter-nos e fazer-nos sorrir com as suas letras atrevidas. Do outro lado da linha, Lucien, um bebé de seis meses, reclama pela atenção da mãe, enquanto Elinor tenta responder ás nossas perguntas.
Há três anos quando estava a promover o “Chrominance Decoder” já estava a trabalhar neste disco. Os temas em que estavam a trabalhar na altura sobreviveram até hoje?
Provavelmente não, porque hoje em dia a nossa maneira de ver as coisas é diferente.
Está nos Estados Unidos e o Bertrand Burgalat está em França. Como é o vosso processo de composição e gravação?
Para metade deste disco escrevi primeiro as letras e depois o Bertrand compôs a música baseada nas letras. Para a outra metade ele compôs primeiro a música e eu depois escrevi as letras, com excepção de dois temas antigos para os quais não escrevi a letra. Normalmente juntamo-nos em Paris e escrevemos juntos. Ele fica no estúdio a compor enquanto eu vou para o exterior com um walkman escrever.
O disco anterior era uma ponte entre o lo-fi e o hi-fi. Este disco é mais electrónico. Foi uma opção estética ou simplesmente debateu-se problemas orçamentais?
É uma combinação de ambas as coisas, mas o orçamento teve um peso bastante importante. Fazemos as coisas com o dinheiro que temos, mas na maioria das vezes o facto de algo ser mais electrónico ou mais orgânico tem a ver com os temas em si e não com o facto de um tema poder ser melhor se tivéssemos usado uma banda.
Mas perdeu-se um pouco desse som mais garage que caracterizou os seus primeiros discos...
Eu vejo as coisas como uma progressão. Estou bastante contente com este disco. E de qualquer maneira acho que o meu modo de ver esse tipo de música já não é o mesmo de há uns anos. Eu não sou como o Billy Childish, que tem o objectivo de gravar sempre da mesma maneira. Eu gosto da estética do garage mas a dita é apropriada a um determinado momento. Quando escrevemos não pensamos se um determinado tema vai soar desta ou daquela forma. Ainda assim, o disco foi gravado num ambiente um pouco lo-fi e garage, já que as vozes foram captadas num estúdio que fica numa cave e a parte electrónica em casa do Bertrand. No fundo a ideia é a mesma. Só muda o tipo de equipamento e a estética. É o garage actual.
No álbum anterior tiveram os Dust Brothers a remisturarem alguns dos temas. Agrada-lhe ter alguém a brincar com os vossos temas?
Eu gosto de remisturas, e curiosamente, ainda não falámos sobre esse assunto em relação ao disco novo. Tenho que admitir que fiquei um pouco desapontada com as remisturas que foram feitas dos temas do “Chrominance Decoder” porque acho que havia parte que eram boas e outras que eram chatas. Eu prefiro as remisturas quando o resultado final é um tema completamente diferente. Por exemplo, eu gostava que o Dr. Dre remisturasse alguns dos nossos temas para ver como ficavam. Acho que é um excelente produtor.
O título do novo álbum parece querer dizer às pessoas reagirem a algo...
Isso tem mais a haver com a maneira como eu e o Bertrand trabalhamos. Eu reajo à música que ele escreve da mesma maneira que ele reage às letras que eu escrevo. É algo emocional. Da mesma maneira que espero que quando as pessoas ouvirem o CD isso as faça querer fazer algo emocionalmente criativo e produtivo.
À primeira vista, as letras de “Triggers” não são tão explícitas como nos discos anteriores. Achou que era altura de tornar as coisas mais subtis?
É engraçado, porque mais pessoas me perguntaram isso, mas eu não vejo as coisas dessa maneira. “Up Above” e “Le Code Rural” têm letras bastante marotas. Eu não deixei de fazer analogias sobre o sexo, mas talvez as pessoas não notem tanto. O “Le Code Rural” tem várias insinuações sexuais. Podem ser mais discretas, mas estão lá.
Também escreveu temas para cinema e televisão. Como vê as diferenças entre essa escrita e a dos temas para os seus discos?
Escrever para televisão é como cumprir uma missão. A solo é algo pessoal. É a minha oportunidade de apresentar as coisas à minha maneira.
Tem trabalhado com outros músicos para além do Bertrand?
Tentei trabalhar com uma banda de música tradicional chinesa que estava em Nova Iorque, mas isso não foi para a frente. Eles estavam com uma agenda bastante cheia...
Alguma vez pensou deixar o nome April March e começar a assinar os seus discos como Elinor Blake?
Se estivesse a começar agora talvez o fizesse, mas há dez anos quando comecei a editar discos senti a necessidade de usar outro nome para dar uma imagem ao meu trabalho. Hoje em dia já nem me sinto muito próxima do nome April March, mas como já o uso há tanto tempo e as pessoas conhecem-me dessa maneira, seria inconsciente se mudasse agora.
Nunca mais gravou versões dos seus artistas preferidos como fez no passado com Gainsbourg, etc. Cansou-se?
Não posso dizer que me tenha cansado, mas no passado fi-lo para aprender a escrever música. Pegava nos temas, tentava perceber como funcionavam se os tocasse à minha maneira e nessa altura grava-os. Tenho a consciência que ainda tenho muito para aprender, mas hoje em dia penso que pegar nos temas dos meus compositores preferidos e dar cabo deles não é a melhor solução. (risos)
Sabia da existência de uma banda chamada An April March?
Sim. Eles existem à mais tempo do que eu edito discos como April March, mas eu só descobri mais tarde. Para ser honesta já nem me lembro bem como soam. Ouvi alguns temas deles há muito tempo, mas a única coisa certa é que a música deles não se parece nada com a minha.
Sei que tem uma grande admiração pelos Rolling Stones. Quer falar sobre isso?
Os Rolling Stones são uns dos meus ídolos. Não pelo que fazem agora, mas pelo que fizeram no passado, especialmente nos anos sessenta. Actualmente admiro o facto de terem chegado tão longe a fazer o que lhes apetece. O Mick Jagger é um dos melhores letristas de sempre dentro da pop. Muitas das suas canções, como Canções como “Satisfaction”, “Sympathy For The Devil” ou “Mother’s Little Helper”, etc, são incrivelmente sofisticadas em termos de letras, mas vendo o que fazem hoje não imagino o que poderá ter acontecido... (risos)
Acha que o Mick Jagger é a estrela rock mais sexy do mundo?
Provavelmente. (risos) Ele tem uma imagem muito sexy. Para mim não existem muitos cantores que encaixem nessa definição. Talvez o David Bowie, mas ele é diferente. E também não penso que seja um escritor tão bom como Mick Jagger. Para dizer a verdade não conheço assim tanto do trabalho do Bowie como do Jagger para poder comparar, mas esta é a minha opinião... Por outro lado existe o Ray Davies, que sempre foi considerado um compositor e um intelectual. Mas as pessoas não vêm o Mick Jagger dessa maneira e ele sempre o foi.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 15)
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