Entrevistas
APRIL MARCH
UMA AMERICANA EM PARIS
"Chrominance Decoder" foi uma das grandes surpresas de 1999. O álbum, gravado em 1995, só conheceu edição mundial o ano passado, fazendo com que uma obra que na altura estava à frente do seu tempo soe agora demasiado referênciada. Ainda assim, April March (ou melhor Elinor Blake) destaca-se dos demais revivalistas da chanson française e juntamente com o produtor Bertrand Burgalat, fala à Mondo Bizarre sobre a cruzada que empreederam até agora.

Este novo disco foi editado a uma escala maior do que os anteriores. Como tem sido as reacções? Por certo que conquistaram um público maior.
Elinor Blake - As reacções têm sido muito boas. Provávelmente, porque os meus discos anteriores eram muito retro e o "Chrominance Decoder" é mais complexo, é uma mistura entre o retro e o moderno.

Uma ponte entre o lo-fi e o hi-tech?
E.B. - Sem dúvida.

Como é que o Bertrand Burgalat aparece neste disco?
E.B. - Pagaram-me muito dinheiro para trabalhar com ele. (risos) Eu enviei-lhe um dos meus discos e acho que ele ficou um pouco confuso por eu cantar em francês. Ele quis conhecer-me e acabámos por concordar em trabalhar juntos. Nós damo-nos muito bem.

A maior parte dos temas são escritos pelo Betrand. Pode-se dizer que o "C. Decoder" é um disco de produtor?
Bertrand Burgalat - Não. Não é um disco feito por mim usando a voz da Elinor como cantora. Foi mais o tentar perceber a sua personalidade, porque partilhamos interesses sobre certas coisas. Apesar de ter composto a música ela deu sempre a sua opinião sobre isto ou aquilo. Ela escreveu as letras em inglês e eu e o Pascal Mounet escrevemos as que estão em francês.
E.B. - É como se eu fosse um filtro. (risos)
B.B. - Basicamente o disco foi feito em conjunto.

Na Europa será mais fácil serem aceites do que noutros pontos do globo? Têm estado a promover o disco na Europa pela primeira vez. Como veêm a diferença de aceitação de um e de outro lado do Atlantico?
E.B. - Nem por isso. A única grande diferença que eu vejo é que na Europa as pessoas entendem mais aquilo que eu digo. A maior parte das letras são engraçadas, e por exemplo nos temas "Mickey et Chantal" e "Mon Petit Ami", que são um pouco provocadoras, os franceses riem-se. Os americanos têm o mesmo entusiasmo, as pessoas dançam, sentem o mesmo, mas não entendem quando falo de usar preservativos e ouvir musica rock. Se percebessem, decerto que também riam como os franceses.

Na sua discografia podem encontrar-se alguns discos em colaboração com bandas como os The Makers ou Los Cinco. Até que ponto acha estas colaborações proveitosas?
E.B. - A colaboração com os Makers foi importante para mim porque aprendi que, apesar de ter feito algo bastante diferente da minha personalidade, o importante é experimentar. Com os Los Cinco é como com o Bertrand, nós entendemo-nos bem. Eu adoro os discos dos Los Cinco porque são próximos daquilo que eu faço. No disco com os Makers é como se eu tivesse posto uma máscara. Eu gosto de experimentar tudo, excepto se for algo realmente oposto áquilo que eu faço.

Uma boa parte dos seus discos foram editados pela Sympathy For The Record Industry, pertença do carismático Long Gone John. Ele é tão estranho como parece nas fotografias?
E.B. - De maneira nenhuma! É o homem mais simpático que conheço. Eu chamo-lhe tio. É curioso porque quando vemos fotografias ou o conhecemos, esperamos que ele tome drogas, beba, etc. Mas não faz nada disso. É um workaholic e quase não dorme. Ele adora a minha música e sempre que faz uma compilação inclui sempre um tema meu.

O novo disco por seu lado foi "apadrinhado" pelos Dust Brothers. Como vê a inclusão das remisturas deles no final do disco?
E.B. - Eu gosto de remisturas e vi a importância deles as fazerem, já que é bom para passar na rádio. Aliás, essas remisturas soam até um pouco conservadoras. Não são assim tão diferentes dos originais.

O disco foi gravado em 1995. Porque demorou tanto tempo a ser editado?
B.B. - Foi muito complicado porque tivémos problemas em licenciálo. Havia algumas companhias que o queriam editar localmente, como a Siesta em Espanha, mas entretanto os Dust Brothers ouviram o disco e preferiram uma edição global. Todo esse processo foi bastante demorado. A única excepção foi o Japão onde o disco foi editado em 96.

E acabaram por apanhar o comboio do revivalismo do easy listening, da chanson française e do retro.
B.B. - Na altura a única coisa que havia eram os Combustible Edison. É por isso que ás vezes este atraso nos deixa chateados. Em 1995 estávamos à frente e agora estamos atrasados... É por isso que não o conseguiamos licenciar, as pessoas não entendiam o álbum. Foi muito antes do Beck, e outros, entrarem nesse campo. A Tricadel, que é a nossa editora, estava já a ficar um pouco aborrecida com a situação. E o mais engraçado é que fizémos este disco de uma maneira isolada, e apesar de estarmos muito orgulhosos do que fizémos já não é aquilo que fazemos hoje.

O que podemos esperar então de um próximo disco da April March?
E.B. - A nível geral ainda é prematuro estar a falar sobre os novos temas, mas só posso dizer que será diferente do "C. Decoder". Continua a ser April March, mas as coisas tendem a evoluir.

Ao vivo optam por dar uma vida própria aos temas, diferente do que ouvimos no disco.
B.B. - Com a excepção da voz, a maior parte dos temas que tocamos ao vivo não são recriações do que fazemos em estúdio, pois em placo somos uma banda rock. Em estúdio é possivel recriar uma série de ambientes e trabalhar com uma série de instrumentos que na sua maioria não vamos levar para um palco. Não se justificava levar um vibrafone em digressão por causa de um tema...

É verdade que nos Estado Unidos a chançon française está a ter um surto revivalista?
E.B. - Sm, desde que os americanos descobriram o Serge Gainsbourg, não querem outra coisa.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 2)