Entrevistas
ARCADE FIRE
UM CORTEJO DE LUXO
Têm transformado ouvintes incautos, críticos, radialistas e plateias mais ou menos cépticas em devotos rendidos, desde que o seu nome se começou a fazer ouvir nos finais de 2004. “Funeral”, o primeiro álbum dos Arcade Fire (projecto de um texano emigrado e de uma franco-canadiana), é marcado pela tragédia familiar de ambos e revela toda a grandiosidade existente na música da banda. É com tudo isto como pano de fundo que falamos com Win Butler, o vocalista dos Arcade Fire.

O casal Win Butler e Régine Chassagne, Richard Parry, Tim Kingsbury e Will Butler (irmão de Win) possuem, entre si, vários talentos. O de tocarem diversos instrumentos é um deles. O de terem criado uma beleza tremenda a partir da tristeza que viveram com várias mortes nas suas famílias é outro. “Funeral”, lançado pouco depois de os Arcade Fire terem assinado contracto com a independente Merge Records, é um disco de uma ambição e força estarrecedoras. Uma música que transcende categorizações de “indie” para viver em ascensão permanente, em luta cerrada contra os elementos. Um álbum atravessado por um romantismo que a tudo resiste. De cada vez que roda, o cume parece mais alto, sem nunca deixar de ser alcançável. Tentemos, pois, parar um pouco e observar o cenário em volta.

O vosso disco contém muitas referências à família. Não necessariamente à vossa, mas num sentido mais amplo de relações familiares. Isso foi importante após as várias mortes de familiares vossos? Ajudou a complementar um sentimento mais pessoal?
Acho que esse tema das relações familiares serviu mais para chamar a atenção para certos tópicos do álbum que não estão directamente relacionados com ele. Por exemplo, fomos ao funeral do meu avô e tivemos a ideia de chamar “Funeral” ao disco. E foi então que nos apercebemos do tema comum às canções, em vez de funcionar ao contrário.

“Funeral” fez com que passassem a ser vistos como uma coqueluche da cena indie. Isto causa-vos algum tipo de desconforto?
Não, não me sinto assim tão ligado aquilo que as pessoas dizem sobre nós. O impacto que realmente vemos é quando tocamos ao vivo, no número de pessoas que vêm aos concertos. Não fizemos, definitivamente, este álbum com qualquer noção preconcebida de como as pessoas funcionam e como iriam reagir a ele. É bom que as pessoas gostem do álbum, mas não tem assim tanto impacto nas nossas vidas diárias.

Têm tido exposição em vários media mais mainstream, como a KROQ [rádio rock californiana de grande audiência], ou a Billboard. Sentem-se confiantes ou receosos acerca disso? Acham que o vosso caso pode comparar-se ao dos Franz Ferdinand em 2004?
Não quero comprometer aquilo que fazemos de forma a chegar a uma audiência mais vasta. Acho que temos canções pop. Acho que não é tão acessível como muita música, mas acho que é melodicamente acessível. Não tenho medo de ser ouvido por muita gente e quero que muita gente ouça o nosso álbum. Os Franz Ferdinand têm muito dinheiro por trás deles. Nos EUA estão numa major. São uma banda independente no estilo, e acho que ninguém acreditaria se se dissesse que haveriam de chegar aonde estão hoje.

Em relação ao DVD que planeiam lançar, é algo que já vem de trás? Ou os elogios às actuações ao vivo ajudaram a acelerar o processo?
Não temos ainda uma data para o lançamento. Temos todo este material para o qual olhámos e andamos à procura de uma maneira de o montar. Isto para que quem não possa vir aos concertos tenha forma de os ver. Mas não temos qualquer pressa em o editar.

A sua relação com a Régine surgiu antes ou depois de começarem a cantar juntos? Sentiram que algo mudou depois?
Começámos a tocar juntos na mesma altura em que começámos a namorar. Foi praticamente tudo de uma vez. Senti que a Regine tinha uma aproximação muito pessoal e única em relação à música, e tivemos desde logo essa ligação.

Nas vossas canções parece existir uma passagem da redenção para uma fase de escapismo. Como se, a dada altura, as canções atingissem velocidade de fuga. Usam este isolamento para limpar o vosso espírito das coisas que falam nelas?
Não sei se as analisaria dessa forma. Por exemplo, uma música como “Crown Of Love”, que tem um final diferente do resto da canção, há uma letra nela que fala em não ter mais palavras. E a canção ainda tinha tanta força nessa altura que fez tanto sentido aquele crescendo instrumental como [qualquer] outro. É mais guiado pelas canções do que por qualquer decisão consciente.

Consideram uma vantagem ter multi-instrumentistas na banda pelas possibilidades que oferece? Foi algo que planearam desde o início?
Sim, uma das razões porque gosto de tocar com as pessoas com quem o faço é porque são muito versáteis. Como deixamos as canções decidirem o seu caminho, é importante termos diferentes texturas, diferentes escolhas em termos de som.

Em relação à canção “Haiti”, foi difícil para a Régine recuperar as memórias desses tempos?
A Régine nunca viveu no Haiti. Os pais dela deixaram o país nos anos 60, por isso foi mais uma questão de retirar inspiração de histórias que os pais lhe contaram acerca desses tempos.

Outro tema que se repete no álbum é o tema das falhas de energia, como em “Une Annee Sans Lumiere” ou “Neighbourhood #3 (The Power Out)”. Isso é algo que usam como metáfora para situações extremas, em que nada há a fazer senão esperar?
Acho que sim. Sinto como que as pessoas agissem de forma diferente de cada vez que algo exterior a elas afecta as suas vidas. Em Montreal houve uma grande falha de energia, e estava-se a meio do Inverno. De repente não importava se vivias numa casa grande ou pequena. Congelavas de frio, precisavas dos vizinhos, de arranjar comida. São coisas de fora a afectar a vida do dia-a-dia.

Também se notam várias referências à temperatura ao frio e ao calor. Consideram “Funeral” um disco frio, ou um disco para aquecer no meio do frio? Ou um pouco de ambas as coisas?
Não sei. Acho que onde vives a maior parte do tempo define as imagens que têm um maior impacto emocional sobre ti. As canções começam de um certo ponto, e tento criar um mundo que o complementa e permite-me falar das coisas de uma forma diferente.

Sabia que a sua voz é comparada, num site da Internet, ao som da guitarra do Johnny Greenwood (Radiohead)? Acha esta comparação lisonjeadora?
Duvido que quisessem dizer que eu tenho uma voz de virtuoso. Talvez tenha algo a ver com ele parecer algo fora de controlo às vezes, não sei. O que as pessoas dizem sobre a nossa música não tem impacto sobre o que fazemos. É interessante ver o que dizem, mas não me faz pensar “Ah, então vou fazer as coisas assim!”.

Os relatos dos vossos concertos apontam para um lado muito teatral e performativo: encenar lutas, usar diferentes objectos e partes do palco para percussão, trepar ao cenário, continuar a tocar enquanto saem, etc. De onde vos vem esta postura?
Não é tão teatral como no sentido em que sentimos que estamos num palco e há gente a ver-nos, e queremos tornar as coisas interessantes, fazer coisas diferentes. A guitarra é um objecto de arte, e se pensar nela dessa maneira pode-se fazer coisas diferentes com ela. São maneiras diferentes de nos divertirmos em palco.

Já pensaram sobre que temas vão abordar nas canções do próximo álbum?
Estamos só a pensar em canções. Acho que ainda vamos precisar de algum tempo antes de avançarmos, mas estou sempre a pensar em diferentes aproximações.

Nuno Proença
(Mondo Bizarre # 22)