ARCHER PREWITT
O Artista Completo
Archer Prewitt é ilustrador, especialista em impressão e faz banda-desenhada, tendo criado o aclamado Sof' Boy. Mas Archer Prewitt é também um excelente músico, com passado nos míticos Coctails e presença nos inigualáveis The Sea and Cake, para não falar do seu trabalho a solo, onde já conta com 3 álbuns e um EP. Nasceu em Louisville, mas mudou-se para Chicago, de onde respondeu a uma série de perguntas sobre música, banda-desenhada, e o inevitável futuro de alguém a quem já apelidaram de homem da Renascença, não fosse ele de facto um artista completo.
Começando com uma pergunta difícil, porque é que a sua música nos faz ficar apaixonados? Será que é porque o amor é um tema recorrente nas suas letras?
Fico contente por saber que a minha música provoca tais sentimentos. É bom ter e dar amor, porque o amor é uma força motriz.
"Three" vem na mesma linha dos seus discos anteriores, nesse cruzamento entre melancolia e felicidade, mas os sons parecem cada vez mais grandiosos.
As músicas dizem-me aquilo que querem que eu faça delas. Se elas desejam ser maiores que a própria vida, o meu trabalho é concretizar os sons necessários na minha mente. Mas algumas canções são muito íntimas. Não sou apologista de que se adorne tudo com sons perfeitos só para atingir esse objectivo. Tem de haver uma razão para se optar pelo grandioso.
O que eu queria dizer é que apesar da essência das suas músicas parecer simples, há um sentimento de trabalho árduo por trás, com muitas orquestrações e secções de sopros.
O meu objectivo é que a música seja convidativa, mas que vá revelando os detalhes à medida que as audições se vão repetindo. Eu trabalho no sentido de uma complexidade subtil. Mesmo assim, neste disco há menos orquestrações e mais trabalho de banda. Optei por utilizar menos cordas e sopros, e sugerir a presença deles através de outros mecanismos.
Considera-se um "songwriter", na linha de alguns clássicos como Nick Drake e Tim Buckley?
Sou apreciador da música de Drake e de Buckley, mas não envolvo os meus gostos pessoais na escrita. Aí sou só eu e a minha guitarra. Só depois, quando a canção se desenvolve, é que o processo de filtragem começa. E aí eu sinto algumas possíveis referências. Mas confesso que à medida que o tempo passa me considero cada vez mais um "songwriter". Na linha de quem cabe aos outros definir.
Em "Three", podemos encontrar influências tão díspares como Beatles, Bee Gees, Steely Dan, e até Love e Jefferson Airplane, sem falar do folk britânico que paira sobre todo o disco, Pode-se dizer que existe na sua música uma nostalgia dos anos 60 e 70, reintrepretada para o Séc. XXI?
Eu acredito que muita da energia criativa é canalizada para atingir um ideal formado na adolescência. Quando era novo ouvi inúmeros discos e muitas vezes perdi-me neles. A nostalgia tem uma conotação de anseio por algo que se perdeu. O que eu tento fazer é utilizar os sentimentos provocados por esses discos, tanto os mais antigos, como os contemporâneos.
Como é que transpõe "Three" para o palco? Utiliza tantos músicos como aqueles que participam no disco?
Em palco somos só quatro: o Mark Greenberg no baixo, o Chris Manfrin na bateria, o Max Crawford nas teclas e trompete e eu na guitarra e vozes.
Qual é o tipo de músicos com quem prefere trabalhar? E qual é o seu processo criativo?
Costumo trabalhar com a banda para extrair ideias. E estou sempre interessado em trabalhar com pessoas novas durante o "overdubbing". Neste disco, praticamente não fazia ideia de quais eram as aproximações que as guitarras iriam ter. Deixei-me guiar pelas recomendações da banda e só dei algumas orientações quando gravámos. Gosto deste tipo de espontaneidade. Prefiro trabalhar o básico somente com a banda. Isto é, trago canções finalizadas para os ensaios e depois tento encontrar a melhor direcção e definir os pormenores com a banda. Por vezes tenho de lutar por aquilo que pretendo, o que não me deixa muito à vontade, mas quando tem de ser...
Recuando no tempo, nos Coctails havia um certo revivalismo da pop mais kitsch, mas com uma impetuosidade que só existe no jazz, o que também se sente, de certo modo, nos The Sea and Cake. A pop faz parte do Archer Prewitt?
Sim. Nos primeiros e mais humorísticos dias dos Coctails procurámos escrever temas reverenciais dentro dos nossos próprios limites. O que nos dava muito gozo. Mais tarde, passámos a preocupar-nos mais com a música e menos com os espectáculos.
Nos Coctails, o Archer parecia ser o testa-de-ferro, mas nos The Sea and Cake fica mais na sombra. Digo isto porque se compararmos o seu trabalho a solo com o trabalho do Sam Prekop, há mais sonoridades dele nos The Sea and Cake do que suas.
De facto eu gosto da posição de segundo guitarrista, mas nos The Sea and Cake o nosso objectivo é constituir um ensemble sem grandes solos. Nos Coctails não havia nenhum testa-de-ferro, e esse era o lado positivo da banda. Uma democracia, com a saudável competitividade e camaradagem que surgem por inerência.
Como é que funcionam os The Sea and Cake?
O Sam escreve o esqueleto das canções e nós juntamos a carne, mas a banda é maioritariamente o veículo dele. Ocasionalmente escrevo uma canção ou outra, que tento sempre integrar com as restantes. Muitas das melodias que "nós os outros" escrevemos são pensadas para a linha vocal do Sam, pelo que a coisa se torna num esforço colectivo.
Já ouvi alguns temas de "One Bedroom" e a música parece-me mais dançável do que nos discos anteriores, e menos centrada na trindade guitarra/baixo/bateria.
Dançar é óptimo, especialmente quando se pode fazer nos nossos próprios termos. Neste disco, omitimos partes de algumas músicas que se afastavam da direcção geral assumida. Por vezes, isso significou sacrificar uma guitarra em favor de um sintetizador. O que significa que às vezes é bom ter as coisas pensadas previamente.
Como é que se sente por ter feito parte da tourné do 10º aniversário da Thrill Jockey? Pode dar-me as suas impressões da tourné?
As pessoas e as bandas fizeram do evento uma alegria. Trabalhámos muito e dormimos pouco, mas passou-se muito bem. Quanto a impressões, ainda está tudo muito nublado... O dia de folga em Roma foi simpático. Tivemos tempo para duas belas refeições e eu e o Sam aproveitámos para ver todas as galerias e museus que pudemos.
Tive o prazer de vos ver tocar no concerto de Lisboa e pareceu-me que a banda teve um falso começo, apesar de ter acabado em apoteose. Sentiram isso no palco?
Sinceramente não me lembro. Mas temos falsos começos muitas vezes. Somos um grupo um bocado taciturno.
Sendo um músico de Chicago, já ouviu falar do conceito pós-rock, muitas vezes utilizado para caracterizar a cena musical de Chicago? Qual é a sua opinião?
Sim, já ouvi falar. Na minha opinião, a ideia de uma amálgama musical que se desvia do rock já existiu no início dos anos 70 com a música prog e psicadélica. Isso também era pós-rock. Concordo que os The Sea and Cake tentam levar ao limite as fronteiras do pop/rock, pelo que a catalogação pós-rock não me incomoda. Mas também não me diz nada.
Qual é a ligação entre a sua música e a sua banda desenhada? Posso dizer que essa ligação está na cultura pop que informa todo o seu trabalho?
De alguma forma, ambos podem colmatar a necessidade que eu tenho de investigar aquilo que era tão excitante e inatingível na minha juventude. E gosto de aprender sempre mais sobre formas de me expressar através de diferentes meios. Dá-me prazer processar e refinar material em bruto. Tendencialmente, a música é o meio que mais me surpreende. Cada vez percebo menos de onde é que ela vem. É imediata e misteriosa ao mesmo tempo.
Pensando em "Three", como é que conjuga o facto de ser o responsável por todo o processo, da escrita à produção, de tocar e cantar a desenhar a capa do disco? Gosta de ter tudo sob o seu controle?
Em certos aspectos, sim. É um processo muito pessoal que não entrego a qualquer pessoa. Gosto muito de colaborar musicalmente, mas tenho uma estética pessoal que me serve como guia para direccionar a música que faço. Visualmente, tenho de acompanhar o projecto do princípio ao fim. Tentei colaborar no design do folheto do CD e agora é-me algo difícil olhar para ele. Foi feito de forma apressada e não de acordo com os meus padrões. Mas já não vou cair no mesmo erro. Por outro lado, não me importava de deixar o design nas mãos de alguém cujo trabalho eu admire e respeite. E provavelmente deveria fazê-lo, nem que fosse só para misturar as coisas um bocado.
Em 1985, o Archer formou-se em impressão. Porquê?
Gravitei para este processo de criação de imagem por causa do processo e da surpresa provocada pelo resultado final. E porque gosto da ideia de arte múltipla e não tão elitista. Já fiz todo o tipo de trabalhos em impressão, mas especialmente gravuras a água-forte, xilogravuras e silkscreen.
Onde é que foi buscar a inspiração para a criação de uma figura fantasmagórica como o Sof' Boy?
O Sof' Boy começou por ser uma brincadeira, mas acabei por fazer duas mini bandas-desenhadas bastante simples que eu próprio imprimi. Sinceramente não consigo dizer de onde é que ele veio. Talvez de amigos, do meu antigo gato, dos comics do Harvey Kurtzman, de mim próprio... Quem sabe? A maioria dos desenhos que faço são desenhados directamente no papel, sem grande preparação, e gosto particularmente de os fazer nas viagens durante as tournés. Quanto mais acidentada for a estrada melhor me saem os desenhos.
Li algures que todos os anos faz os seus próprios cartões de Natal, a maioria com ratos e coelhos...
De facto já fiz alguns cartões de natal bastante estranhos. Mas maioritariamente faço calendários do Sof' Boy para dar ou vender. Gosto fazer coisas manualmente para dar à família e amigos.
Quais são os seus ídolos do passado e quais são os autores que mais prazer lhe dão actualmente?
Do passado admiro os japoneses Tagawa e Siguero, para além de Herriman, Crumb, Musial, Kurtzman, Schulz, Kubert, Wolverton, Booth, Graham Wilson, Gross, etc. Os artistas que mais me agradam hoje em dia são Chris Ware, Clowes, Dame Darcy, Doucet, Seth, Dreschler, Burns, J. Bradley Johnson, Tomine, Trujillo, Doug Allen, Matt, Columbia, etc.
Se não me engano, em 2003 vai fazer 40 anos. Quais são os seus sentimentos sobre envelhecer?
Só espero envelhecer com sabedoria e apetite. Sinceramente agrada-me a ideia de envelhecer e não gostava de voltar atrás. Não me sinto velho e nem sequer me preocupo muito com isso.
Quando era mais novo, o que é que sentiu quando os seus ídolos musicais passaram a barreira dos 40? Que era o fim deles ou apenas mais um marco não tão importante quanto isso?
Nunca pensei muito na idade deles, mas sim na música. Claro que hoje eu consigo perceber como é que a indústria e o vedetismo podem arruinar uma pessoa e torná-la cínica. Há uma certa tragédia que pode emergir com a vulnerabilidade criativa.
Após o seu recente disco a solo e o novo The Sea and Cake em Janeiro, quais são os seus planos para 2003?
Antes de mais nada, acabar o Sof' Boy 3. E como sempre quis combinar música e arte com animação, quem sabe se num futuro próximo não enverede por aí. Sinto-me algo frustrado por ter de embarcar na tourné que se avizinha com o novo disco dos The Sea and Cake, apesar de saber que vai ser divertido. Mas mais do que qualquer outra coisa, o que eu quero agora é gravar um novo disco. Tenho muitas canções prontas a entrar no forno e sei que é desta que vou acertar em cheio!
Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 13)
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