A.R.E. WEAPONS
GANGS DE NOVA IORQUE
A música dos A.R.E. Weapons não é para ser definida. É para ser sentida. Para ser absorvida da mesma maneira que nos embrenhamos no rebuliço da cidade. “A.R.E. Weapons”, o álbum de estreia agora editado, é um manifesto de intenções, uma arma apontada ao nosso cérebro. Há muito que o som das ruas não era compreendido tão bem por uma banda. Brian “Brain” McPeck explica tudo.
Como descrever uma banda que a cada momento desafia todas as convenções? Como explicar uma banda que transpira o som das ruas de Nova Iorque? Descobertos por Jarvis Cocker, vocalista dos Pulp, durante uma visita à Big Apple, foi em Inglaterra que alcançaram algum reconhecimento, quando Jarvis mostrou a demo a Geoff Travis, patrão da Rough Trade, e o convenceu a assinar a banda. Com singles como “New York Muscle” e, principalmente, “Street Gang”, geraram algum hype na imprensa britânica, a expensas de uma imagem rude e de uma música corrosiva mas apelativa à dança. “Street Gang” chegou mesmo a ser “single of the week” do New Musical Express, e “Saigon” (outro tema desse single) tornou-se presença obrigatória em festas de electroclash. Formados por Brian “Brain” McPeck e Matt McAuley, e acompanhados pelo músico/manager Paul Sevigny, os A.R.E. Weapons são uma força criativa irreverente, de difícil definição. Evoluindo de uma fórmula próxima de uns Suicide ou Cabaret Voltaire (primeira geração), cruzam ritmos de hip hop com riffs rock e teclados electro. Pregam a mensagem das ruas. Não ligam aos palavrões que dizem e fazem-nos sorrir. Não são daquelas bandas de que se gosta “mais ou menos”. De “A.R.E. Weapons” ou se gosta ou detesta. Mas, nesse caso, corre-se o risco de se passar ao lado de um dos mais excitantes discos de 2003. Na Nova Iorque capital do novo rock e do electroclash, os A.R.E. Weapons fazem papel de anticristo disposto a ocupar a nossa vida por tempo indeterminado. Concebido durante 2002, num qualquer apartamento de Manhattan, “A.R.E. Weapons” é uma caixinha de surpresas. De “Don’t Be Scared”, que tem um dos mais hilariantes refrões de sempre - "dude that's cool/It's fucking awesome" - ao épico “Hey World”, passando por “Changes” - uma máquina de guerra em acção, disparando ritmos em várias direcções - ou “A.R.E.”, um tema de punk digital no seu melhor, que se cola a uma das pérolas do álbum: “Fuck You Pay Me” onde Brian repete exaustivamente, no refão, “Fuck you pay me/Give me my money”. “Street Gang” e “New York Muscle”, os dois singles de 2001, também fazem parte do disco. O primeiro numa versão um pouco menos suja que na versão original e o segundo como tema escondido, alguns minutos depois de “Hey World”, são, juntamente com “Black Mercedes”, a única ligação ao passado dos A.R.E. Weapons. Os temas novos descolam das influências iniciais, gerando uma paleta recheada de estilos, com um forte sentido de canção. “A.R.E. Weapons” revela-se um disco ecléctico, fresco e extremamente actual.
Como gostaria que as pessoas vissem o vosso disco de estreia?
Como um manifesto de intenções. Que nos levassem a sério e não apenas como algo fútil de que daqui a uns tempos já ninguém se lembra. É o nosso primeiro disco, por isso é uma amostra daquilo que somos.
Acha que ele ressoa com a vibração de Nova Iorque?
Isso é verdadeiro e vejo isso como um elogio. Estamos a tentar fazer música que tenha a ver com o que acontece hoje, e hoje estamos em Nova Iorque. Podíamos fazer música que tivesse a ver com os anos 70 ou 80, mas não temos qualquer intenção de o fazer. Nova Iorque é a fonte da nossa força. Somos três dos maiores fãs de Nova Iorque e adoramos viver aqui.
Pode dizer-se que são a banda sonora das ruas de Nova Iorque?
Pelo menos é o som da nossa rua... (risos) Nova Iorque tem cerca de oito milhões de pessoas e as pessoas ouvem muitos tipos de música. Mas na minha cabeça as pessoas ouvem hip hop, dub, rock com uma atitude punk. Acima de tudo é um reflexo do que se ouve nas ruas.
A Rough Trade parece não ter ficado muito satisfeita com o resultado final do disco....
Essa é uma história que nos deixou um pouco desapontados. Nós ainda somos uns novatos no que toca à indústria musical, mas sabíamos que as coisas têm um plano definido: compõe-se, grava-se e vai-se para a estrada. É uma situação realista. Quando gravámos o álbum, enviámos o master para a Rough Trade e não tivemos nenhum retorno da parte deles. Mais tarde, descobrirmos que eles não gostaram do produto final. Não é que isso nos tenha afectado o ego, afinal não passa de um tipo que tem uma editora, mas se pensarmos que se trata da Rough Trade...
Acha que não gostaram do álbum porque estavam à espera de um disco mais electrónico que vos colasse à cena electroclash?
Não tanto ao electroclash, mas antes aos Suicide e aos Cabaret Voltaire. Eu gosto da demo que fizemos. Tem o seu charme e estou orgulhoso dela. Fizemos o disco que devíamos fazer para uma editora como a Rough Trade e no fim dizem-nos que o disco é demasiado punk. Eles que se lixem... Este é um disco de que toda a gente está a gostar e eles não estão com interesse em editá-lo porque tem temas, como “Fuck You Pay Me”, de que eles não gostam. Acho que eles não nos percebem, pois esses são os temas de que as pessoas gostam. Os ingleses têm uma determinada ideia dos americanos e quando algumas coisas entram em conflito nós é que arcamos com as consequências. Durante todo o processo, eles queriam que nos comprometessemos com uma série de coisas porque não gostavam de nada. Agora que o disco saiu e as pessoas estão a gostar, vão ter de engolir tudo o que disseram. Por exemplo, eles não queriam que o “Hey World” entrasse no disco e agora vão editar o tema em single. (risos) Quando a nossa empresa de relações públicas está a fazer mais pela banda do que própria editora, algo não está bem.
Quando assinaram pela Rough Trade, recusaram a edição comercial da vossa demo. No entanto, acabaram por editar dois singles com a maioria dos temas dessa mesma demo...
Se cometemos algum erro, foi o facto de termos editado esses singles tão cedo, porque depois houve este espaço de tempo tão grande até à edição do álbum. Mas eles estavam tão entusiasmados com o “Street Gang” que o quiseram editar em single, e como precisavam de temas para o completar usaram coisas da demo. Nós não tínhamos mais nada, por isso não tivemos alternativa. Por um lado, não nos chateámos, porque achávamos que eles sabiam o que faziam, mas depois deste tempo todo percebemos que não.
Passaram o ano de 2003 a compor o álbum. Como é o vosso processo criativo?
Eu tenho um quarto pequeno onde eu e o Matt trabalhamos. Não temos muito material, apenas uns teclados e uma caixa de ritmos. Nem sequer temos um computador, por isso passámos a maior parte do tempo a criar ritmos. Temos uns quantos blocos de notas cheios de ideias, e a nossa função foi tentar juntar várias peças como se fosse um puzzle, de maneira a que nos soasse bem. Acima de tudo, queríamos que os temas tivessem feeling, que soassem reais. O disco é uma combinação de uma série de rascunhos. Não tínhamos propriamente um prazo específico para cumprir, por isso pudemos experimentar. Pela nossa parte, preferíamos escrever metade do disco, gravar e depois escrever a outra metade. Dessa maneira as coisas tornam-se mais reais. Infelizmente, não foi possível, porque tivemos que gravar em Inglaterra. Durante um ano podemos ter umas quarenta mil ideias, mas oito mil são estúpidas. Por isso ainda sobra muito material. Como diria Stravinsky, é “um 1 por cento de inspiração e 99 por cento de transpiração." Às vezes há um refrão que me surge na cabeça e trabalhamos a partir daí. É um “work in progress”. Eu e o Matt já nos conhecemos desde miúdos e fazemos bandas juntos há mais de 10 anos, por isso temos facilidade em trabalhar um com o outro. Se as coisas nos agradam aos dois, seguimos em frente, caso contrário, esquecemos tudo.
Apesar de estarem orgulhosos da demo, só incluíram dois temas no “A.R.E. Weapons” e mais um escondido...
A ideia de incluir o “New York Muscle” como tema escondido partiu da Rough Trade. Nós tocamos esse tema há tanto tempo que já estou farto de o ouvir e nem o queria ver no disco. Foi mais uma concessão que fizemos... Outra foi o facto da versão do “Street Gang” que aparece no disco não ser a versão que queríamos. Nós temos uma gravação muito melhor, que a Rough Trade não quis usar. Quando ouço o disco tal como está, penso que vale 8,5 em 10. Mas se tivéssemos feito as coisas à nossa maneira valeria 9,5 em 10. É o mesmo que viver e aprender. Apesar de fazermos música há muito tempo, este é o nosso primeiro disco a sério. Ainda por cima numa independente que não deveria ter esse tipo de preconceitos. No fundo são todos iguais. Não é um tipo de fato que nos diz que “não ouve nenhum single”, mas vai dar tudo ao mesmo.
Também não incluíram o “Saigon Disco” que era um dos temas que se estava a tornar mais popular...
Nós gravámos uma versão fantástica desse tema, mas neste caso preferimos concentrar-nos nos temas novos. Alguns desses temas já tinham um ano, outros mais e no caso do “Saigon Disco” era um tema que se desviava bastante do que estávamos a fazer. Para nós próprios não somos uma banda nova, mas para o público em geral somos. E, apesar de achar que essas pessoas poderiam gostar de ouvir temas como “New York Muscle” ou o “Saigon Disco”, porque para elas esses temas são novos, essa ideia já nos era desconfortável, porque faz parte do passado e nós queremos continuar em frente. Daí a razão de não os querermos no álbum. Queremos editar um disco novo na próxima Primavera, não queremos estar dois anos à espera. Por nós até fazíamos como o Jay-Z, que edita um disco cada dez meses. (risos)
Disse que já trabalhou em várias bandas com o Matt desde há muitos anos. Até que ponto essas bandas contribuíram para o som que fazem hoje em dia?
Nós fizemos de tudo. Começámos a tocar juntos quando tínhamos doze anos. Era uma banda punk chamada Men Without Lens. Depois passámos pelo no wave, pelo rock'n'roll, pelas duas coisas juntas, e chegámos a ter uma banda de free jazz durante dois anos. Comprei a minha primeira caixa de ritmos quando tinha 18 anos e já na altura gostava de experimentar. A música sempre foi um ponto de união em tudo o que fizemos. Ambos sabemos tocar todos os instrumentos, o que facilita quando chegamos ao ponto em que queremos concentrar num projecto tudo aquilo que era importante para nós, que fizesse sentido. Por exemplo, quando queremos misturar um determinado som de guitarra utilizado pelos Stooges com caixas de ritmos e fazer um tema de hip hop. Percebemos que se formos honestos conseguimos dar vida às nossas ideias. Não estamos a tentar ser uma “white hip hop band”, nem queremos ser os Bad Brains.
Mas visualmente estão mais próximos do hip hop do que de outra corrente...
Essa é apenas a nossa maneira de vestir... Aliás, a Rough Trade queria explorar a nossa parte visual de uma forma que não nos agradou. Queriam que nos vestíssemos como nos anos 80, tendo como modelo o filme “Warriors”, e nós não estávamos interessados. Esse filme é bom, mas é um filme de culto pateta...
Quando se lê as críticas de “A.R.E. Weapons”, facilmente se nota que é um disco de reacções extremas. Ou se adora ou se odeia. Não existe meio-termo.
É claro que gostava que toda a gente adorasse o disco, mas se, de dez pessoas, sete gostarem e três odiarem, provavelmente só essas três pessoas é que têm problemas. (risos) Mas as más críticas são baseadas na percepção que as pessoas têm de nós: estes tipos são cool, estão na moda, dormem com modelos... Acho que essas pessoas estão chateadas connosco por aquilo que pensam que somos. Mas essa relação amor-ódio quer dizer que estamos a chegar ás pessoas, que provocamos alguma reacção. E toda a gente gosta de provocar reacções. Não somos excepção e isso só nos torna mais fortes.v
Já compararam os A.R.E. Weapons aos Suicide. Ao vivo eles são apenas dois. Como é no vosso caso?
Ao vivo somos três pessoas: eu, o Matt e o Paul (Sevigny). Sempre foi assim, e a acontecer algo diferente será a inclusão de mais pessoas. A ideia era ter cinco pessoas em palco, mas, para já, dividimos as coisas entre os três. O Paul toma conta da parte electrónica, o Matt toca guitarra e eu canto. Para nós é importante sermos uma banda de rock. E ao vivo não quero aparecer só com duas pessoas. Dois tipos armados em bons com um tipo atrás a mexer nos botões. Não queremos parecer os Suicide ou os Pet Shop Boys. Queremos ter um espectáculo enérgico.
O facto do Matt agora tocar guitarra é uma das grandes diferenças da demo para o álbum, já que anteriormente o baixo estava em evidência. Porquê essa mudança?
Isso tem a ver com a nossa evolução e com o tipo de som que procuramos. Antigamente tínhamos uma caixa de ritmos muito pobre, daí a necessidade de dar mais importância à linha de baixo. Hoje em dia temos um pouco mais de tecnologia, que substitui isso, e assim podemos concentrar-nos noutros aspectos da música.
Apesar de não terem sido incluídos no chamado boom do novo rock nova-iorquino, como vê este súbito interesse da imprensa britânica pelas bandas de Nova Iorque? Parece que há vinte anos não se passava nada...
Tudo não passa de uma invenção dos media. É bom que a imprensa goste de uma série de bandas de Nova Iorque, mas, para além do facto de algumas bandas se darem bem umas com as outras, não existe uma grande comunidade musical.
Curiosamente, uma boa parte dessas bandas nem sequer são originárias de Nova Iorque.
Exactamente. Aos olhos do mundo, Nova Iorque sempre foi um lugar sexy. É como um sonho. As pessoas acham que quem vive aqui é sempre mais cool que os outros...
Fala-se muito de Brooklyn. Também vivem nesse bairro?
Bolas, não! Nós vivemos em Manhattan. Em Brooklyn só vivem as pessoas que se mudaram para Nova Iorque porque não têm dinheiro para mais. Apesar de hoje estar na moda, continua a ser o mesmo buraco merdoso de sempre. E algumas pessoas que dizem que moram em Brooklyn só para estarem na moda estão a mentir. Eles vivem é em Manhattan.v
Mas se Manhattan é uma zona mais cara que Brooklyn, como é que conseguem aguentar-se a viver lá?
Porque vivemos num quarto do tamanho de uma casa de banho. É um estúdio com cerca de 6 metros por 12. Estamos com a renda em atraso há três meses. Passamos discos sempre que podemos e se conseguimos alguns bons concertos pagamos a renda para que a nossa senhoria não nos chateie.
Alguma vez colocaram a hipótese de serem remisturados ou de remisturarem os temas de outras bandas?
Eu estou mais a ver-me a remisturar do que a ser remisturado porque gosto da ideia de mexer na música dos outros. Gosto muito do Alec Empire, e seria interessante dar a volta aos temas dele. Conheci-o uma vez, em Nova Iorque, e, quando estávamos a falar de música, disse-me que gostava muito de hip hop. A princípio pensei que só se estava a armar, mas depois percebi que era a sério.
A capa do disco ostenta uma carantonha dando uma imagem um pouco distorcida do que se pode encontrar no disco. Quer explicar o conceito por detrás dessa imagem?
No filme “O Exorcista” existem algumas cenas subliminares que não se vêm a olho nu. Só as vemos se colocarmos o filme em pausa. Essas cenas são o que tornam o filme assustador. Há uma cena em particular em que aparece a cara de um esqueleto no escuro. Como não queríamos usar essa cena, fizemos a capa usando a cara do Matt coberta com maquilhagem.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 15)
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