Entrevistas
AVAIL
RETRATOS A VERMELHO E PRETO
Realizada antes das transformações no cenário político das últimas semanas e das manifestações de 15 de Fevereiro, a conversa com Tim Barry, o vocalista dos Avail, revela uma banda preocupada com a situação interna (e externa) dos Estados Unidos.

Se Iggy Pop conseguiu ter uma carreira pós-Stooges, se Wayne Kramer tem editado com regularidade, se Scott Morgan reencarnou nos Hydromatics, se os Kiss e os Question Mark and The Mysterians voltaram, outras bandas, como os Gories de Mick Collins, apareceram, deram que falar e desapareceram. O futuro é agora. E tal como no passado, a cidade fervilha com novas bandas a emergirem e outras a confirmarem as expectativas nelas depositadas nos últimos anos. Um dos polos de concentração de muitas dessas bandas é o estúdio Ghetto Recorders.

“Estamos prestes a invadir o Iraque e ninguém liga nenhuma”, diz. “Toda a gente pensa que o George Bush é doido varrido mas ninguém se chega à frente e diz que temos que nos mobilizar e fazer alguma coisa porque isto é de loucos. Ninguém se preocupa. A maioria das pessoas prefere olhar para o traseiro da Britney Spears, ou para a televisão, do que ouvir música que desfie as normas.”

Se houve alguma altura durante a existência da sua banda, os Avail, em que sentiu o ferrão da indiferença da política dominante foi esta. Por entre o egoísmo económico, o pós 11 de Setembro, utilizado -- entre outras coisas que turvam a política americana -- pelo falcões guerreiros como versão pronta a usar do patriotismo, ele e os restantes Avail (Joe banks, o guitarrista; Gwomper, o baixista; Ed Trask, o baterista, e Beau-Beau, o roadie), continuaram o seu serviço de soldados. Estão habituados a lidar com as desilusões da arena política. Estão até acostumados a lidar com a apatia da população em geral: a banda editou sete álbuns – sendo o mais recente “Front Porch Stories” – desde que emergiu na cena de D.C. até à sua mudança para Richmond, Virginia, onde atingiu o seu melhor. Os Avail tiveram o privilégio de se tornar notados e de despertar o interesse de algumas editoras importantes (mas a Lookout! E a Fat Wreck Chords foram as únicas que os impressionaram) o que lhes permitiu serem reconhecidos como parte da actual elite punk politizada.

“Front Porch Stories” é o ponto alto da carreira da banda. Um fogoso trabalho de punk rock socialmente consciente, construído a partir do hardcore e do punk da Costa Este e fundindo-o com um toque melódicos sons harmónicos, que faz com que o disco se distancie o bastante da old school para ser equilibrado. Se nunca ouviram os Avail – coisa surpreende dada a quantidade de álbuns e digressões que já fizeram -, pensem nos PMSing, nos Dillinger Four ou nos Ann Beretta melodicamente mais competentes. Com um explosivo dogma político temperado com um toque de humanidade, para temperar as coisas, tudo serve aos Avail como assunto para as suas canções (a diluída ideologia política dos que os rodeiam, “Monuments”, ou os problemas daqueles que nada têm, “The Falls”). Ao contrário da maioria dos seus pares socialmente conscientes, Barry não canta sobre temas mas sobre o modo como os ditos afectam as pessoas normais.

Os Avail não tem recebido a atenção que merecem. Nada que não se estivesse à espera num mundo onde proliferam as “Canções de Tanga”; os hinos electrónicos de festa; nü-metal de raiva formatada e o hip-hop sem alma, e onde a escrita de canções com conteúdo foi empurrada para as margens. Que diabos, até o último álbum de Bruce Springsteen, com uma E Street Band de novo reunida, não logrou prender a atenção da maioria das pessoas. Uma banda exponencialmente mais barulhenta e ideologicamente mais perigosa? Estão a brincar se pensam que isso que isso faz mais do que uma pequena mossa fora do underground.

Não, não é isso que deixa Barry amargurado. A isso está habituado e o mais certo é já ter ultrapassado esse problema. O que para Barry é mesmo assustador – e para milhares de indivíduos que pensam do mesmo modo -, é o quão afastada a nação se encontra de modos de pensar politicamente conscientes. Na sequência do 11 de Setembro, não se ser seguidor da linha de pensamento dura da administração Bush, é visto não como um direito salvaguardado pela Constituição – uma das bases da cultura americana e um dos grandes feitos do país -, mas como o equivalente a alta traição. Isso, como Barry bem sabe, assustou muitos activistas, forçando-os ao silêncio.

“Se se for uma pessoa com consciência sabe isso perfeitamente. Se uma coisa nos parece errada coloca-se em questão”, diz. Ainda que o sotaque sulista se intrometa na sua fala, nem a sua pausada dicção consegue disfarçar a sua irritação. “[Depois do 11 de Setembro], estamos num período muito mau para se expressar a nossa opinião acerca de qualquer assunto. Temos que admitir isso! É assustador! Nós, em Richmond, estávamos muito envolvidos com o movimento anti-globalização. Era uma rede enorme, através do país, e tornara-se já uma rede mundial. Todos nos envolvemos. Mas, depois do 11 de Setembro, todos diziam:”Foda-se! Não podemos por isso em questão porque vamos parecer anti-americanos.”

Esse tipo de mentalidade foi tão favorável para fabricantes de bandeiras e de autocolantes patrióticos como para presidentes cujos taxas de aceitação anteriores ao 11 de Setembro estavam em queda livre. Mas para bandas activistas como os Avail, ou para quem quer que conteste a estratégia nacional, os tempos são duros. A não ser que se queiram arriscar a ser etiquetados de dissidentes, não refiram os ataques ao ambiente pelas petrolíferas, o corte de 97 por cento no financiamento do Departamento de Justiça contra as tabaqueiras, nem a despudorada remoção do tratado ABM 1972, que era um marco no controle de armas nucleares. Ah! E há ainda o questão premente do “Patriot Act”, que inflama as preocupações com o terrorismo de modo a permitir a restrição das liberdades civis.

Claro que a paranóia apática, em relação à política, dos últimos anos não é a única razão porque Barry e companhia se mantiveram firmemente enraizados no underground, enquanto outros grupos punk que cantam canções perenes para as meninas atingirão audiências maiores. O clima político actual ajuda, mas, por outro lado, a corrente apática vem sendo alimentada há anos. Quem é que quer saber de políticas económicas quando tem um novo Game Cube para jogar? Quem é que se querer aborrecer com as relações internacionais quando a Cristina Aguilera aparece nua na capa da Rolling Stone? Vá lá punks, admitam, não têm andado com grandes preocupações políticas, pois não?

Claro que as coisas não foram sempre assim. Na verdade, Barry lembra-se dos tempos em que o punk era um movimento social. Acreditem ou não, houve uma época em que as coisas não se reduziam à MTV, às líderes de claque e a ocasional referência politicamente empenhada. “Cresci nos subúrbios de Washington D.C., no final do anos 80 e nessa altura música e política andavam de mãos dadas”, refere. “Foi assim que me meti nas coisas. As bandas tocavam, havia literatura e cada concerto era a favor de alguma coisa. Mas suponho que agora seja igual. Há algumas pessoas que enveredam por essa direcção, que tentam mudar as coisas, a si próprias ou à sua cidade.”

Talvez ainda existam pessoas que têm um interesse activo na política, mas não têm o mesmo perfil na cena punk que tinham há 10 ou 15 anos atrás. Ainda que, nos últimos 12 anos, nada fizesse mais sentido do que música politicamente empenhada, pouco mais há na rádio, e, surpreendentemente, no underground punk, do que canções tipo “a minha namorada fantástica”.

“Acho que as canções de amor são muito fáceis porque qualquer pessoa se pode relacionar com elas. Esse tipo de bandas tomou a dianteira porque as pessoas são politicamente indolentes”, explica Barry. “Julgava que haveria mais pessoas a prestar atenção às mensagens das bandas. Mas temos que ser honestos: a maioria das bandas não presta. As pessoas não as querem ouvir. A maioria das bandas com um empenhamento político são pequenas o que faz com que poucas pessoas gostem delas. Digamos que o grindcore era única música politizada. Só ia chegar a um número reduzido de pessoas e apenas durante algum tempo porque as pessoas iam fartar-se. Talvez tenha muito que ver com as bandas não prestarem.”

Talvez Barry tenha razão. Tem havido muitas bandas punk desprovidas de intenções políticas, sem inteligência, talento ou visão. Também existe uma longa tradição de aceitação dessas bandas. Isso não significa que os Avail vão virar suas costas e deixar de carregar a bandeira de activistas punk (não admira que o logotipo da banda seja uma figura a carregar uma bandeira às costas). Barry e a sua banda tem voz. Têm uma audiência. Têm esperança.

Matt Schild

Exclusivo: Aversion.com/Mondo Bizarre

Tradução e adaptação: Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 14)