BAD RELIGION
UM PROCESSO NATURAL
Os Bad Religion regressam com um novo álbum, “The Process of Belief”, que não foge à linha traçada pelo grupo nos seus trabalhos anteriores. Como bónus extra; “The Process of Belief” traz Brett Gurewitz de volta às fileiras dos Bad Religion. Greg Graffin faz o ponto da situação e disserta sobre uma das grandes paixões do grupo: a História Natural.
Os Bad Religion começaram nos anos 80 e conseguiram sobreviver até agora. Diria que essa “durabilidade” do grupo se deve a serem uma espécie de família?
De facto, sermos como uma família é a razão que nos faz continuar juntos. Conhecemo-nos à metade das nossas vidas. A outra razão é porque a música punk continua a ser diversa e há cada vez mais pessoas que ouviram falar do punk que se tornou uma cena musical muito maior do que era e os Bad Religion parecem ter tido um papel preponderante nisso.
Brett Gurewitz está de volta. Até que ponto o seu regresso foi importante para a criação de “The Process Of Belief”?
Ele esteve afastado durante vários anos por problemas pessoais mas estou muito contente por ele estar de volta. Produzi o “The Process of Belief” a meias com o Brett, por isso, sem ele o disco não existiria. E eu já estava farto de escrever canções e produzir discos sózinho. (risos)
Álbum após álbum o som dos Bad Religion permanence quase inalterado. É deliberadamente que mantêm a vossa música rápida, directa e alta em vez de optarem por caminhos mais aventurosos?
Não sei. Julgo que, de certo modo, sempre fomos uma banda muito caracteristica. Não meço o sucesso pelas outras bandas e acho preferível fazer aquilo em que se é bom, mesmo que não seja muito diferente do que se fez antes.
Dentro dessa “igualdade” musical em que é que os Bad Religion mudaram?
O nosso modo de escrever canções tornou-se mais elaborado. As estruturas das musicas são mais intrincadas e o meu modo de cantar melhorou bastante. Consigo novas harmonias vocais e cada vez melhores arranjos nos coros.
Depois de terem estado na Sony Music regressaram à Epitaph. Acha que uma editora independente ainda faz a diferença?
Faz uma grande diferença. É-lhes muito mais fácil conhecer o mercado e saber como fazer uma banda vingar nesse mercado. Sentimo-nos bastante chegados à Epitaph pois, afinal, fundamos a editora para lançar o nosso primeiro álbum. (risos)
Os Bad Religion lidam com assuntos como sexismo, racismo, homofobia… Tudo coisas que parecem terem sido colocadas de fora da agenda da maioria dos grupos.
Sim. A maioria das bandas, e das pessoas em geral, parece ter colocado de lado todos os assuntos incómodos. Gostava de pensar que podemos ajudar as pessoas a olhar para lá do imediatismo e a concentrarem-se em problemas sérios.
O novo disco chama-se “The Process Of Belief”, o que dá a ideia de ter que se ir construindo aquilo em que se acredita, que tem que se ir lutando por isso. Ainda tem os mesmos valores de quando era mais novo?
Julgo que parte do processo de acreditar nas coisas faz parte da nossa biologia, da nossa quimica essencial. Não, aquilo em que acredito foi mudando com o tempo. Essencialmente acredito que a humanidade pode traçar o seu futuro. Não acredito no determinismo simples e fatalista pois creio que as pessoas podem ter um efeito decisivo no resultado final.
E acha que estamos a chegar a algum lado?
Acho. Por pior que estejam as coisas prefiro viver agora do que na Idade Média e vejo isso como resultado do progresso.
O mundo da música gira à volta do dinheiro. Até que ponto o dinheiro pode subir à cabeça de uma pessoa e mudar o seu modo de ser? E a música pode mudar algo?
Boa pergunta. Não sei até que ponto o dinheiro pode afectar ou mudar o que se pensa. Mas provoca mudanças nas pessoas. Quanto à música já não tenho tanta certeza. Não sei se realmente pode mudar alguma coisa. Dúvido que a música, ao contrário do dinheiro, tenha um papel verdadeiramente importante nas mudanças politicas.
A indústria musical mudou os Bad Religion?
Não. A industria ainda não infectou a nossa banda. Sempre tivemos a banda porque gostamos de música e porque não queriamos ter um emprego das 9 às 5. (risos) E mantemo-nos contentes com a nossa música.
Juntamente com os restantes membros dos Bad Religion está empenhado na atribuição de fundos de pesquisa a estudantes...
Os fundos de pesquisa foram iniciados, uma vez que somos a “má religião”, para incentivar o estudo de uma boa religião, ou seja o estudo do naturalismo e da história natural. Começaram a ser atribuidos há três anos e já conseguimos dar três distinções a três estudantes universitários que assim poderam continuar os seus estudos ligados à natureza. Estamos a promover aquilo de que sempre falamos ao promovermos outros.
De onde veio o interesse pelas ciências naturais?
Provalvelmente nasceu porque eu não tinha nenhuma religião quando era novo e as ciências naturais responderam às minhas grandes perguntas sobre a vida.
Que outras coisas podemos encontrar os Bad Religion a patriconar?
Neste momento mais nada. Mas os estudos sobre a natureza são uma das coisas que mais prezamos.
No vosso site há umá série de textos, “Fast Food”, “Napster”, “Punk Manifesto”, “Punk Synopsis”, “Responsible Voting”, “Websurditie” escritos por si. Pode fazer um breve comentário a cada um deles?
“Fast Food”: A comida rápida actualmente faz parte da nossa biologia e da nossa história natural. A maior parte das pessoas encontrou uma maneira rápida e nutritiva - ainda que seja dúvidoso quão nutriviva - de conseguir comida. Julgo que é um assunto que merece ser comentado pois há uma coisa com que somos obsecados: eficiência. A idade do computador é a da eficiência. Mas a eficiência não dita exactamente a qualidade de vida pois há coisas que necessitam de tempo. Mas não temos tempo a perder; “Napster”: Seria extremamente útil se o Napster fornecesse uma lista com as canções mais escolhidas, de preferência por regiões, pois assim sabiamos o que as pessoas deste ou daquele lugar queriam ouvir. A única coisa que me desagrada no Napster é eles não darem nada de volta aos artistas. Mas essa partilha não tem que ser dinheiro, pode ser apenas informações como as que referi; “Punk Manifesto”: Foi uma tentativa minha, que sou alguém que pensa muito, que é muito introspectivo, de perguntar o que era o punk pois é algo com que convivi durante metade da minha vida. Tentei ter encontrar alguns parâmetros, saber o que querem as pessoas dizer quando dizem “punk” mas ainda não encontrei a resposta. Mas vou continuar a tentar. (risos); “Punk Synopsis”: É um pouco a estória dos tempos de adolescente. Do que era ser punk naquela altura. Na época não tinha nada que ver com moda mas era antes uma coisa que me fazia sentir que pertencia a um todo e que me permitia ser eu mesmo. A minha maneira de ver/ser punk continua a ser a mesma pois eu continuo igual a quando era jovem.; “Responsible voting”: Considero importante as pessoas pessoas votarem. Se querem ter uma mudança e ser responsáveis devem votar. Infelizmente as pessoas tendem a não aprender nada, a não se darem ao trabalho de pensarem sobre elas próprias e aquilo que querem tornando tudo muito aborrecido. O que nos vai levar a uma sociedade de gente mal informada; “Websurdities”: Foi uma secção que comecei para falar sobre as limitações da World Wide Web. A World Wide Web é um sítio divertido e onde se consegue muita informação mas não sei até que ponto pode ser usada para se protestar. Não é um local onde se pode protestar em pessoa.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 10)
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