Entrevistas
BARRY ADAMSON
Mister Coolness
Elegância, charme, música para nos deleitar à tardinha. É assim "King of Nothing Hill" o novo álbum de Barry Adamson, que poderemos ouvir ao vivo no dia 24 de Setembro, em Lisboa. A carreira de Adamson é longa, muito longa mesmo. Desde 1977, altura em que entrou para os Magazine até ao presente, passando pelos Buzzcocks e pelos Bad Seeds, foram mais de 20 anos dedicados à música e à composição. Pedimos a Barry Adamson que comentasse as várias bandas por onde passou e nos desse a sua visão dos seus álbuns a solo.

MAGAZINE

O meu primeiro baixo foi-me oferecido por um amigo. Só tinha duas cordas e tive que ir comprar um jogo de cordas novo. Eu não sabia tocar mas pensava que ia para uma banda punk, onde só estariam à espera que eu “bum bum bum”, por isso não me preocupei. Como, apesar de não ter experiência nenhuma, eu tinha o sentido do ritmo, fui aceite. Ma não levei muito tempo até começar a explorar as potencialidades do baixo. A exploração é uma das coisas minhas coisas preferidas na música. Comecei a prestar atenção não só ao punk mas também ao rock e ao funk.

Os Magazine acabaram por se auto-consumir. Fizemos vários álbuns e chegamos a um ponto em que tudo era apenas uma repetição. Fazíamos um álbum e uma digressão, um álbum e uma digressão. Não nos tornávamos maiores nem menores. O grupo tinha uma identidade que ficou abalada com a saída do guitarrista. Nessa altura o Howard (Devoto) achou que era o momento de por um fim aos Magazine e cada um de nós foi a sua vida.

BUZZCOCKS/PETE SHELLEY

Ajudei is Buzzcocks durante algum tempo, numa altura em que estavam sem baixista. Fiz uma digressão com eles na mesma altura em que os Magazine estavam a começar. Antes de me ter juntado aos Buzzcocks, tinha-os visto ao vivo. Fiquei siderado com as canções deles. Uma mistura incrível de punk e classe. Fazer parte de tal banda foi fantástico. Tocar as canções deles obrigava-me a ser muito rápido o que em fazia ficar com dores e por vezes acabar o concerto com os dedos a sangrar. Sempre achei o trabalho a solo do Pete muito curioso. Uma espécie de “electrónica acústica”. Eu atravessei uma fase em que tocava com quem me contratasse e foi assim que acabei a tocar nos discos do Pete.

VISAGE

Com os Visage foi o mesmo que com o Pete. Conhecia as pessoas, um dos membros dos Visage tinha estado nos Magazine, e estava sem nada para fazer. Tornei-me um pouco um músico de sessões. Ser, de certo modo, um músico de sessões ajudou-me imenso. Aprendi como coordenar um grupo de músicos, como fazer trabalho de produção. Como comunicar as minhas ideias a terceiros. Numa dessas sessões conheci a pessoa que tem vindo a tocar órgão e teclados nos meus discos.

BAD SEESDS

Nos Bad Seeds deixei de ser um músico contratado. Durante uma digressão dos Magazine pela Austrália conheci uma pessoa que estava ligada ao Nick [Cave]. Mais tarde os Birthday Party tocaram em Londres e fui ver o concerto. Fiquei cativado pela raiva e pela paixão com que se entregavam em palco. Acabei por os perseguir um bocado porque queria fazer parte da banda entrei para os Bad Seeds.

A SOLO

Eu sempre fui obcecado por filmes e por bandas sonoras. Sempre quis escrever uma banda sonora. Andava a sentir-me muito desconfortável comigo mesmo e precisava de descobrir alguma coisa que me ajudasse a ultrapassar esse desconforto. Costumo dizer que era como uma comichão que tinha que coçar. Lembro-me de ter havido uma grande fosso entre estar nos Bad Seeds, o meu regresso a Manchester, a Moss Side, onde comecei a escrever o que se viria a tornar “Moss Side Story”. Também me apercebi que, ao escrever esse disco, estava a iniciar uma carreira a solo.

MOSS SIDE STORY

Moss Side é uma área, bastante dura Manchester, com um elevado índice de criminalidade. Uma zona de tráfico de drogas e onde há muitos homicídios. Eu nasci nessa zona que, que quando eu era miúdo, era muito calma. Ia-se de casa em casa. as portas estavam abertas, entrava-se cumprimentava-se quem lá estava. O bairro mudou muito. Em “Moss Side Story” faço uma ligação entre a minha vida com essa paisagem, de quando era criança e podia entrar em qualquer casa e o facto de a minha vida, durante o período nos Bad Seeds, se ter tornado muito má, muito destrutiva. Deixei-me apanhar pela minha própria escuridão e autodestruição. Tal como aquela parte da cidade tinha-me tornado muito feio. Quis libertar-me desses pensamentos. Foi um pouco como um filme no qual eu estava na soleira da porta, e depois começava a andar pela rua fora . Este faz parte da cultura musical em que me reconheço.. Ainda que me mova num género distinto do hip-hop e do da electrónica, disse a mim mesmo, “sou um músico moderno” e seria interessante utilizar algum equipamento electrónico. Estão sempre a dizer-me isso que “Moss Side Story” é um antecessor do trip-hop. Mas aquilo que considero trip-hop não soa muito parecido com o que fiz em “Moss Side Story”. Nunca me considerei o “avô” do hip-hop. No entanto, consigo perceber uma certa desorientação, muito "film noir", no trip-hop, que, de certo modo poderá ser a ligação ao meu som.

SOUL MURDER

A nomeação do disco para o Mercury Prize foi estranha. Senti-me esquisito. O que fazia um disco tão denso e negro no meio de todos aqueles discos pop? De repente, aquilo que eu vinha a criar, no meu canto, tornou-se tremendamente falado. E Levou-me até às montras das lojas de discos. A His Master’s Voice de Oxford Street, em Londres, tinha um póster gigante com a minha cara. Foi uma sensação óptima. E depois as pessoas diziam “conhece aquele tipo”... Lembro-me da capa do disco em grande nas montras das lojas de discos, nas ruas principais e Londres. E das pessoas a comentarem: “ei, eu conheço aquele tipo”. Acho que o disco vendeu um mais por causa da nomeação mas o importante foi o meu nome ter começado a aparecer noutros círculos.

THE NEGRO INSIDE ME

Eu vivo numa parte de Londres, onde a maioria das pessoas com que em relaciono são brancas. Não frequentei uma escola de negros nem vivi numa comunidade negra, e se falarmos ao telefone irá falar comigo como se eu fosse uma pessoa branca. Mas, depois, quando nos encontrarmos dirá "olá, como vai, não imaginava que..." . O que eu quis foi mergulhar no universo da "blackexplotation, fazer uma banda sonora negra. Até Aí eu não tinha feito nenhuma disco, nenhuma banda sonora com uma perspectiva realmente negra. O que tinha andado era a "brincar ao homem branco", a fazer de John Barry. Achei que se metesse a questão da raça tudo mudaria de figura. Até porque os filmes de blackexplotation abordam questões muito específicas, são muito especiais e tem temáticas muito reduzidas: crime e sexo. E eu quis meter alma, a minha alma, nesse contexto. Ainda que, na realidade eu sou uma mistura de cores, a minha mãe é branca e o meu pai é negro. Queria dizer a mim próprio para não perder esse lado que faz parte da minha identidade, que na altura pensava que estava a perder. Sê o novo John Barry, não tenhas cor, limita-te a dar essa música que podemos substituir como uma mesa de café, era o que eu pensava. Então tive que me identificar com essa luta interior. É sobre esse confronto interior que o disco se debruça.

OEDIPUS SCHMOEDIPUS

Essa foi a minha primeira experiência a escrever para outras pessoas. O disco foi escrito como uma homenagem à minha mão e quis transportar para as pessoas o espirito de um teenager, que ele vivia e o corte de uma relação muito próxima com a mãe para se envolver com todas as mulheres que via. Há um circulo de vida e algum arrependimento nesse rapaz. A minha mãe tinha morrido uns anos antes por isso quis-lhe prestar uma homenagem. Os meus três primeiros álbuns (“Moss Side Story”, “Soul Murder” e “The Negro Inside Me”) foram dedicados aos meu pai e à minha irmã. Foram um presente de despedida. Foi a minha maneira que encontrei de lhes dizer adeus.

“Oedipus Schmoedipus” despedi-me da minha mãe. Durante a gravação do a mãe do Billy McKenzie, morreu. A canção dele era muito ambígua, lidava com o relacionamento do rapaz com a mãe. O que tornou tudo ainda mais triste é que o Billy não aguentou ter que viver sem a mãe e suicidou-se. A canção do Jarvis (Cocker) é a que relata a fase “rapaz malandreco, que vive a noite”. A do Nick (Cave) é como tudo aquilo em que o Nick toca, profunda, séria.

AS ABOVE, SO BELOW

Nesta altura da minha carreira já estava totalmente à vontade com a ideia de não ter que desempenhar o papel do homem branco. Já tinha uma forte identidade como “homem de raça transviada”. Isso deixou-me livre para se quisesse, tanto me poder socorrer das orquestrações à John Barry como das ideias de Sly Stone, ou r a possibilidade de me servir do legado de Marvin Gaye. Cada vez mais me estava a tornar em Issac Barry (de Issac Haynes e John Barry). Juntei toda a herança da soul, do funk, e até algumas coisas do hip-hop. Este foi o primeiro dos meus discos a solo que levei para o palco. Queria subir a um palco com um ou dois teclados e tocar a minha música. Até aqui preferia que as pessoas ouvissem os discos e criassem as suas ideias visuais.

THE KING OF NOTHING HILL

Quando comecei “King of Nothing Hill” estava sentado num sofá, na minha nova casa e estava a sentir-me muito mal porque pela janela podia ver pessoas nas ruas a venderem drogas, a agredirem-se e eu não as podia ajudar, não as podia convidar a entrar. Comecei a ouvir todos esses sons desse outro lado. Desse do quotidiano tão diferente do meu. Quando me mudei, podia ver o vendedor de crack ali e o realizador de cinema acolá. No cimo de tudo isso estou eu. Usei esse nome como uma metáfora,. Mais uma vez tudo tem que ver com a experiência da separação, da identidade mista. No fundo existe sempre um ponto intermédio onde nos sentimos um pouco desligados. “King of Nothing Hill” tem, além dos meus colaboradores habituais, a participação do James Johnston, dos Gallon Drunk. Gosto muito da maneira como ele toca, do que ele ouve, gosto do seu visual da sua maneira de pensar e achei que seria interessante convida-lo. Eu próprio toquei muito mais coisas em “King of Nothing Hill” do que é habitual. Encarreguei-me das programações, do baixo, do piano, do cravo. A canção francesa é outra coisa que também é sempre apontada como sendo uma das minhas influências. Eu adoro essa imagem romântica que se tem da França. Vejo sempre um adolescente de 17 anos, que abandona Londres e vai para Paris. A cabeça do rapaz é confrontada com uma enorme explosão cultural. Eu abracei toda essa cultura, em particular o existencialismo transmitido pelos filmes da “nouvelle vague”. Mas quando me desloco a Paris, e vivi algum tempo nessa cidade, fico sempre com a sensação de que não pertenço aquela cidade. De que sou um homem invisível no meio da multidão. De que anda sou. E esse nada serve-me de exemplo, de matéria criativa.

Quanto aos arranjos, sempre foram uma coisa muito valorizada por mim. Se se ouvir os arranjos de Issac Haynes soam como uma celebração da própria música. Ele brinca com eles, torna-os parte fundamental das canções, faz com se notem separação dos instrumentos nas colunas. Isso foi uma coisa que me interessou muito e me levou a demorar bastante tempo em estúdio com este disco.

Claro que em relaciono com a palavra cinemático. Para mim representa a ideia da ilusão como entendimento do real. É o limite entre a realidade e a ilusão. Como a minha vida (a realidade) e o modo como vejo a minha vida (a ilusão). Essa percepção não está longe daquilo que os filmes nos transmitem. Tudo é cinemático.

Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 12)