Há quem diga que nunca estiveram tão alegres. O trompetista Mick Cook garante que os Belle & Sebastian sempre quiseram soar assim. E que os fãs da banda deviam ser menos miseráveis. Confissões num final de tarde de Outono, repescadas meio ano mais tarde, a propósito do aguardado concerto dia 17 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Para muitos fãs, os Belle & Sebastian nunca mais vão ser a banda de “If You’re Feeling Sinister”. Em representação da irmandade de Glasgow, Mick Cook passou um dia em Lisboa, no final de 2005, a falar com jornalistas portugueses e a confirmar essa teoria. Mas, para o trompetista e “cigano musical” dos Belle & Sebastian, o não-regresso ao passado é uma coisa boa. Afinal, “If You’re Feeling Sinister”, o álbum favorito de boa parte dos seguidores da banda, nunca satisfez plenamente os seus criadores. “The Life Pursuit”, o trabalho que sustenta o primeiro concerto do grupo em nome próprio, no nosso país, anda mais perto do sonho secreto dos Belle & Sebastian: pôr o povo a dançar, seja num concerto, seja num clube. O produtor Tony Hoffer ajudou e canções como “Funny Little Frog” ou “For The Price Of a Cup Of Tea” estão aí para mostrar a paixão soul de Stuart Murdoch e comparsas. Mick Cook, um apaixonado por bandas britânicas de metais dos anos 30, dá-lhe com a alma.
Os Belle & Sebastian encontram-se a promover o novo álbum, “The Life Pursuit”. Estão entusiasmados com o novo lançamento?
Claro, é sempre uma altura excitante. Ainda não sabemos quando é que isso vai acontecer, mas estamos ansiosos por tocar ao vivo e poder deixar de tocar o disco só para os nossos amigos e familiares!
“The Life Pursuit” é um disco animado, com alguns momentos próximos da euforia – concorda?
Musicalmente, o disco é definitivamente mexido, sem dúvida que é animado, mas como é habitual existem subtextos nas letras, que geralmente são sobre pessoas que não são muito felizes naquilo que fazem, ou que não se inserem bem [na sociedade] e andam à procura de uma forma de o conseguir.
É um disco onde se nota a influência da música soul…
Sim, nós sempre fomos grandes fãs de música soul, da Motown e desse tipo de som. Com este álbum, tentámos elevar a produção ao nível das nossas ideias. Antigamente, já tínhamos influência da soul, mas a produção não esteve à altura da ambição que tínhamos para as canções. Com este álbum, quisemos levantar o som da bateria e do baixo, e acho que conseguimos. Penso que, agora, as músicas se aguentam bem nas discotecas – não soam tão fraquinhas como no passado, como nos discos anteriores. Foi também por isso que escolhemos o Tony Hoffer para produtor, ele é especial e foi capaz de pôr o baixo e a bateria com um som sólido, para as pessoas poderem dançar ao som das nossas músicas na pista de dança. Oxalá [as músicas novas] passem nos clubes e as pessoas dancem. Não temos tocado muito ao vivo, mas nos concertos as pessoas costumam dançar e em disco as coisas não resultam da mesma forma. Desta vez quisemos corrigir esse desequilíbrio e fazer com que o disco soasse bem no sistema de som de uma discoteca.
No passado, os Belle & Sebastian foram remisturados pelos Avalanches. Pretendem fazer o mesmo com algumas músicas deste disco, ou elas já são suficientemente dançáveis?
O Chris [Geddes, teclista] é que costuma mais fazer sets de DJ e conhece o David Holmes, que diz ser fã da nossa banda. Acho que seria óptimo convencê-lo a fazer alguma coisa. Isso é do nosso interesse, sobretudo do Chris e o Richard [Colburn, bateria], que fazem muito DJing, E as canções neste disco até se prestam mais a isso [remisturas] do que no passado.
“The Life Pursuit” foi gravado em Los Angeles, nos EUA. Isso influenciou o resultado final?
Provavelmente, no aspecto da produção. A escrita foi toda feita em Glasgow; gravámos em Los Angeles por causa do produtor, os estúdios dele são lá e havia um estúdio em particular que ele achava perfeito para o nosso disco. Nesse sentido, acho que o produtor e o estúdio contribuíram bastante para o som do álbum, se gravássemos noutro sítio ia soar diferente.
Acha que a sonoridade mais alegre vai desapontar alguns fãs de longa data?
Acho, acho que provavelmente vai! Mas também acho que eles deviam aprender a ser menos miseráveis (risos). Não podemos passar a vida a fazer o mesmo disco. Penso que os discos limitam-se a reflectir a disposição dos compositores naquela altura, e este é o tipo de canção que o Stuart [Murdoch] tem criado recentemente… Ele nem sempre foi assim, mas é bom ver que está assim agora (…).
Recentemente vários fãs dos Belle & Sebastian comentavam, num fórum da Internet, ser inadmissível a banda nunca ter dado um concerto em nome próprio em Portugal…
E nós concordamos. Já é altura de darmos o nosso próprio espectáculo em Portugal. Vou cá estar uns dias e provavelmente aproveito para ver umas salas, para fazermos aqui qualquer coisa. [NR: O encontro está marcado para o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 17 de Julho.]
Actualmente, vivem em Glasgow?
Sim, toda a banda, aparte o baterista, vive em Glasgow. O nosso baterista vive numa vila piscatória na Costa Este da Escócia.
Apanham muitos concertos em Glasgow?
Sim, há imensa música ao vivo, temos muita sorte! Há pouco tempo fomos ver o Sufjan Stevens, foi um concerto formidável.
Com a banda? Em Portugal vimo-lo a solo…
Eu até gostava de tê-lo visto assim, porque não tive essa oportunidade. Na verdade, da primeira vez que ele foi a Glasgow, eu ainda não o conhecia… mas ouvi dizer que levava um banjo e um mapa, não é? Mas com a banda, é deveras inatingível. Eleva o nível de todas as cenas que já vi ao vivo.
No vosso site promovem a interacção com os fãs. Acham importante, esse contacto com os vossos admiradores?
Eles controlam-nos a nós e nós a eles (risos). Há uma espécie de camaradagem jovial. Se alguém nos faz uma pergunta da treta, provavelmente dizemos-lhe que é uma pergunta da treta (risos). Por acaso gostámos muito de responder às “Q&As” quando estávamos em estúdio, porque acabávamos por ter bastante tempo para isso. Então, pegávamos nos laptops e fazíamos as Q&As, aquilo entretinha-nos. O nosso baterista nunca tinha feito aquilo e agora viciou-se, até já tem o seu próprio público. Mesmo nós gostamos de ir ver o que é que ele escreveu, porque dá sempre respostas engraçadas. Já tem o seu clube de fãs.
Em resposta a uma rapariga que dizia que ia ter o melhor aniversário de sempre, vendo um concerto vosso, respondiam que ela devia arranjar uma vida…
(Risos) Às vezes somos mauzinhos. Não, isso é mesmo cruel (risos).
No site dos Belle & Sebastian aparece descrito como um «cigano musical», que já experimentou praticamente todos os tipos de música… qual o género de música que lhe dá mais prazer escutar, hoje em dia?
Neste momento tenho ouvido muito as bandas britânicas de metais dos anos 30 e 40. É música de music halls, uma loucura. Muito melódica e as letras são muito optimistas, [mas a música] é melancólica e faz-nos sentir saudades de um tempo que não chegámos a conhecer, transporta-nos para outro lugar. É muito boa música, pronto (risos). Eram as bandas de dança da altura. As bandas de swing eram uma versão disso mesmo, mas apareceram um pouco mais tarde… estas estavam entre o jazz e o swing. Era a música popular da altura.
E consegue arranjar com facilidade esses discos?
Por acaso há uma editora que faz compilações em CD dessa música! Acho que se estão a dedicar a isso e vão fazer lançamentos de A a Z, e parece que ainda só vão na letra E, por isso ainda há muita coisa [por descobrir]. E é espectacular, porque ainda por cima os CDs só custam 5 libras cada, são mesmo muito baratos e nunca saem da minha aparelhagem, é óptimo (risos).
Recentemente tocaram na íntegra o vosso álbum “If You’re Feeling Sinister” (1996) num evento chamado “Don’t Look Back In Anger”, em Londres. Como foi essa experiência?
Foi muito bom, na verdade. Gostámos muito de participar, porque apesar de muita gente considerar esse o seu álbum favorito, nós não ficámos especialmente satisfeitos com o som do disco, e desde então as canções têm mudado muito, porque as tocamos ao vivo e elas acabam por ficar mais mexidas. Por isso, uma das principais razões para termos dado esse concerto foi podermos gravá-lo e lançá-lo, como forma de mostrar como [o disco] mudou. Agora temos um disco ao vivo. Pareceu-nos uma boa ideia, e o público nesse dia estava tão participativo e animado, especialmente para público londrino… Nós vamos muito a Londres e geralmente recebemos aplausos discretos, mas nesse dia toda a gente estava tão entusiasmada – acho que isso se percebe no disco, estavam mesmo muito animados… Por isso, acho que deu um bom disco ao vivo.
Há alguma banda que adorasse ver tocar um disco na íntegra, nesse evento?
Os Led Zeppelin a tocar o “Led Zeppelin II”. Ou os Beatles a tocar o “Abbey Road” ou assim, era espectacular.
Os Belle & Sebastian têm bandas como os Brakes e os 1990s a abrir os seus concertos. São fãs dessas bandas?
Os Brakes não sei nada sobre eles, foi o nosso manager que nos recomendou. Os 1990s são a [nova banda do John McKeown], um tipo que era o principal compositor de uma banda chamada Yummy Fur, uma banda muitíssimo influente de Glasgow que nunca foi devidamente reconhecida. O Alex Kapranos tocou com eles algum tempo e o Paul Thomson, baterista dos Franz Ferdinand, também esteve com eles alguns anos. Nunca vi os 1990s mas se forem de alguma forma parecidos com os Yummy Fur, vai ser muito, muito fixe.
Há outras bandas novas que gostasse de recomendar?
Há uma banda que tocou connosco recentemente, chamada Flying Matchstick Men, são muito bons! Fazem coisas fixes. Diria que os 1990s também devem ser ouvidos… e há uma banda chamada Multiplies, que faz música electrónica, instrumental (…). Acho que há muita coisa boa a sair de Glasgow e da Escócia, actualmente. Ah, há outra banda que ouvi e cujo disco quero comprar. São assim psicadélicos e o vocalista parece um bocado o tipo dos Verve, o Richard Ashcroft. Vale a pena vê-los.
A impressão que temos do Reino Unido, à distância, é de que há bandas a aparecer todos os dias…
Não estão muito longe da verdade! Há tanta gente que vai para Glasgow formar bandas, que realmente há sempre qualquer coisa a acontecer a toda a hora. Há pequenos clubes para as bandas tocarem…
Lia Pereira
(Mondo Bizarre - Julho 2006)