Entrevistas
BERNARDO DEVLIN
IMPLOSÕES CRIATIVAS
Bernardo Devlin foi co-fundador dos lendários Osso Exótico, projecto experimental que marcou os anos 90 em Portugal. Depois disso, desbravou um caminho artístico muito próprio, desde a colaboração com grupo de teatro berlinense até à composição de bandas sonoras para filmes de animação. Devlin é, pois, músico de múltiplas e heterodoxas visões formalistas, a última das quais, concretizada no brilhante “Circa 1999”.

A sua actividade musical começou a ter verdadeiramente relevo e visibilidade a partir da fundação do projecto Osso Exótico, em 1989, talvez o mais importante e ousado projecto português de música experimental. Como recorda esses tempos dos Osso Exótico?
A minha memória remete-me para uma tempo em que nada estava definido em termos criativos. Provavelmente, eu teria avançado na direcção do trabalho que hoje em dia desenvolvo embora não soubesse como lá chegar. Para além disso, e de acordo com a política interna do grupo, pelo menos naquela altura, ninguém podia estabelecer arranjos para ninguém. Uma vez que o meu papel era fundamentalmente o de cantor e letrista, estive confinado a trabalhar sobre estruturas previamente orientadas pelos outros, apesar de ser activo no que respeitava a um delineamento conceptual e estético a um nível mais geral. No seu todo era uma espécie de tubo de ensaio onde cada um punha o seu elemento. Tudo estava numa fase de predefinição quer dum ponto de vista colectivo quer individual. Falo por mim, mas a partir do momento em que as coisas se foram definindo no que a maior parte dos membros queria que o Osso Exótico fosse deixou de fazer sentido para mim lá estar. Em 1994, demos um concerto em Berlim que foi o meu último. Aparte disso continuo em contacto com eles.

Entretanto, em 1991, parte para Berlim, onde começa a compor bandas sonoras para uma companhia teatral dessa cidade alemã. Qual foi o ímpeto que o levou a deixar Lisboa rumo a essa nova experiência artística?
Essa experiência foi mais importante a um nível pessoal do que artístico. Quanto à composição de bandas sonoras, apesar de ter gostado de trabalhar em alguns dos projectos, tudo isso se deveu acima de tudo a uma necessidade de sobrevivência. Gostei de trabalhar com um encenador chamado Thomas Borgmeyer com quem infelizmente perdi o contacto.

Por certo que o contacto com a cena artística e musical de Berlim durante o tempo da sua estada lhe despertou novas sensibilidades e produziu novas experiências.
Não tive grande contacto com a cena artística berlinense. Tive a oportunidade de assistir a concertos improváveis de La Monte Young, de Bob Ruttman e dos Swans. Conheci alguns membros dum grupo chamado 13th Tribe, o qual não sei se ainda existe. Gostava muito deles, mas também perdi o contacto. Para além disso cantei num grupo de rock improvisado. Ensaiámos muito mas a coisa não se susteve, não havia disciplina. Também não chegou a ter nome.

Após os dois álbuns a solo “World Freehold” (1994) e “Albedo” (1997), inicia uma colaboração profícua (e artisticamente bem distinta) com o José Miguel Ribeiro, autor do filme português de animação mais premiado de sempre – “A Suspeita”. A composição da banda sonora para este filme e para a subsequente série “As Coisas Lá de Casa” corresponderam a um período de especial desafio criativo para a tua carreira?
Sinto-me realmente satisfeito com os projectos do José Miguel em que estive envolvido. Tive liberdade criativa e tudo decorreu duma forma extremamente natural, em ambos os projectos. Tenho o maior gozo nessa actividade e espero que seja mútuo.

Abordando mais directamente o seu mais recente álbum de originais, “Circa 1999 – 9 Implosões”, importa referir, sem pejo, que é um dos trabalhos mais originais dos últimos tempos da música portuguesa. Crê que é o seu álbum mais ousado formalmente e que poderá marcar o panorama da música nacional?
O meu álbum anterior “Albedo” continha já as sementes do que desenvolvi em “Circa 1999”. Concordo que neste último tive um maior tempo de reflexão. Se vai ou não marcar o panorama da música nacional não faço a mínima ideia. Penso sempre em termos de projectos futuros a serem inteiramente financiados pela ExtremOcidente. Como tal, espero ainda este ano sair com dois álbuns: um, em formato de 5.1, chamado “Ágio” e um outro, duplo, chamado “Vol. 3: As 2 antenas do caracol”. Não sei como eles se irão desenvencilhar mas estou certo que tudo correrá pelo melhor.

“Circa 1999” tem nove canções, ou implosões, como as designa. Todas aparentam suster-se com base no formato de “canção”, mas numa abordagem estética manifestamente pouco ortodoxa: as músicas surgem constituídas quase como fragmentos melódicos dispersos, onde a tua voz acaba por unir o conjunto. Neste contexto, qual foi a metodologia de composição?
Silêncio e solidão.

O seu trabalho vocal é bastante marcante e singular, num misto de trovador pós-moderno e de “crooner” diletante. A parte vocal e os respectivos textos são anteriores ou posteriores ao processo criativo das composições instrumentais?
Não concordo com esses pontos de vista. Acima de tudo considero-me cantor, talvez “crooner”, mas não pós-moderno. Não procuro formatos preexistentes a nenhum nível nem qualquer tipo de apropriação. Também não me considero um diletante, uma vez que tudo parte dum sentimento de profissão de fé, como tal estou ciente daquilo que faço.

Tecnicamente, gosto de ter um sistema melódico e métrico predefinido mas os textos são a pedra angular na desenvoltura estrutural das canções e de todo o aspecto “cénico” que lhes está inato. Tudo parte deles e duma melodia vocal que está no cerne de tudo o resto. Quanto aos arranjos, gosto de os ter preparados antes de entrar em fase de gravação. O tempo de estúdio compreende decisões de última hora, mas quase tudo está decidido antes dessa etapa.

A colaboração de músicos como Miguel Cintra (percussão), Oliver Vogt (saxofone), Zé Ernesto (violino) ou o Quarteto de Cordas Opus 4, foi decisiva para o resultado musical final representado em “Circa 1999”?
Absolutamente, uma vez que participaram activamente no processo. Os arranjos de cordas foram feitos em parceria com o Vítor Rua. Passei-lhe a estrutura harmónica e ele conduziu o naipe trazendo um elemento textural que não existia. Nessa sessão pouco interferi. No caso do Zé Ernesto tirei partido duma gramática própria que ele tem vindo a desenvolver no seu percurso de improvisador. O violino e a viola tiveram um papel “térmico” normalmente atribuído à electrónica. Todos os músicos, duma forma ou de outra tiveram hipótese de se entregarem criativamente ao projecto. Tal como já disse, há sempre soluções de recurso e problemas a resolver. A esse nível entra a criatividade dos meus colaboradores.

“Circa 1999 é em termos gráficos e de design, muito cuidado e arrojado, contendo inclusive traduções dos textos em inglês e japonês.
Inicialmente previ um objecto mais simples mas foi-me praticamente exigido o desenvolvimento da ideia. Eu estou disponível para esse tipo de exigências desde que possa ter o controle artístico do todo. As traduções devem-se ao facto de a editora prever uma distribuição o mais abrangente possível do disco.

Para quem nunca teve contacto com a sua música em geral e com este “Circa 1999”, em particular, como caracterizaria o seu trabalho?
Ideal para quem usufrua de tempo. Tal como a leitura, a escuta requer disponibilidade e não estou de todo interessado em fazer cedências a todos aqueles que entendem a música como elemento decorativo para uma sala de estar confortável onde se recebem as agradáveis e corteses visitas de fim-de-semana. O conforto físico é, no entanto, ideal para o confronto, e usufruto, mediante uma música exigente ao nível de escuta. Os altifalantes devem estar bem afastados e a posição ideal é uma triangulação entre eles e o auditor para que a estrutura da coisa se torne sensível. O meu trabalho é perfeitamente acessível para quem a ele se disponibilizar. Certamente não será para todos. Também não é essa a ideia.


Victor Afonso
(Mondo Bizarre # 18)