Entrevistas
BIZARRA LOCOMOTIVA
NO DOMÍNIO DA TÉCNICA
O homem para além da máquina. A bestialidade do comportamento humano. A ascensão da técnica e a queda de anjos. O encerramento de um ciclo. Questões levantadas a Rui Sidónio (a voz dos Bizarra Locomotiva) num final de tarde a propósito do novo capítulo, “Homem Máquina”.

No princípio, o planeta estava dominado por figuras mitológicas e grotescas. Editado há meia década, o “Bestiário” documenta essa fase da evolução da humanidade. Agora, os espécimes recuperam, em definitivo, o seu carácter vivo e pulsante. Mas começam a ouvir-se as engrenagens do progresso. A electrónica e os impulsos tecnológicos encontram-se no último apeadeiro da Locomotiva.

“Homem Máquina” é um disco que volta a explorar o trabalho conceptual iniciado em 1998. Em que difere do “Bestiário”?
Este álbum, pode dizer-se, é uma continuação do “Bestiário”. Eles estão interligados pela besta-mor que nós reconhecíamos no “Bestiário” e que não é necessariamente o homem. Nós fazíamos analogias com bestas e referíamo-nos aos animais como tal quando eles não têm qualquer chance de se comportarem doutra forma. Mas nós, que temos alternativas, revelamos sempre essas facetas que vêm da mitologia, onde se falava de animais ou seres o mais temerários possível para descrever situações humanas ou facetas da humanidade. No “Homem Máquina”, é uma coisa mais actual – a tentativa do homem imputar culpas na máquina e ilibar-se, quando foi ele a criar a máquina. A máquina é totalmente inocente, não tem vontades.

Cinco anos é um longo período entre duas edições. A que se deveu o intervalo?
Sim, é bastante longo. Eu sou o único elemento exclusivamente dos Bizarra, os outros membros têm outros projectos. As coisas no nosso mercado, para a nossa música, não são muito fáceis. Também não é que fosse difícil editar o disco naquela altura, mas nós estávamos um bocado insatisfeitos com o meio e decidimos fazer uma interrupção e colocar mesmo um ponto final. Mas entretanto já tínhamos começado, já tínhamos quatro ou cinco músicas do “Homem Máquina” e, então, pegámos nelas porque achámos que valia a pena. E depois, quando o Armando [Teixeira, maquinaria e voz] saiu dos Da Weasel, ficou com mais tempo e decidimos voltar a pegar na Bizarra Locomotiva.

No binómio Homem/Máquina, qual das partes domina e qual é dominada?
Quem poderia dominar sempre seria o homem, mas nesse tipo de relações de dependência (é quase como numa relação amorosa), já não conseguem viver um sem o outro. O homem já não consegue viver sem as máquinas nem elas sem ele, o seu criador. E isto reflecte o próprio nome do disco. Os seres humanos, os animais são máquinas. A máquina humaniza-se e o homem maquiniza-se. É uma simbiose, sem chegar aos cyborgs e deixando a questão em aberto.

O novo álbum aponta novas direcções de estilo não muito exploradas pelos Bizarra. A electrónica tornou-se um dialecto vosso, ao lado do industrial?
Nós não prometemos sonoridades. Não podemos fidelizar as pessoas e dizer que o próximo disco vai ser um disco rock ou electrónico. Não fazemos a mínima ideia, nem sequer queremos ter esse tipo de compromissos. Os Bizarra a única coisa que vão ter em comum é a alma das pessoas que os fazem. Os instrumentos electrónicos foram-se impondo com a evolução da banda e foi também uma questão de ter ou não ter dinheiro. Quanto mais material temos, mais material o Armando quer utilizar e mais amplo é o campo musical que podemos atingir. E a electrónica alarga bastante o campo de trabalho.

A tua voz sofreu uma pequena alteração, tornou-se mais sussurrada.
Foi um processo natural. O que aconteceu neste disco é que a música mudou, o campo musical ficou também um bocado mais vasto e eu fiz as adaptações necessárias, porque já achava que estar a cantar sempre da mesma forma não se encaixava nestas novas criações instrumentais. Não houve preocupação nenhuma em tentar suavizar. Podemos também considerar a questão como uma evolução tecnológica.

As letras são negras mas falam de anjos, da separação de amantes e de culpa. É possível falar de sentimentos através de máquinas?
Sim, a nossa música lida com sentimentos. É a tal questão do Homem Máquina e não da Máquina Homem. Não é mecanizar completamente. É colocar traços humanos nas máquinas e maquinais no homem. Não deixamos de ter sentimentos, até as próprias máquinas mais recentes mostram uma tendência humana para lidar com algumas situações. A separação de amantes poderá ser a separação do homem e da sua máquina. O amor não é só a questão sexual, é muito mais vasto que isso.

O disco foi concebido como um trabalho circular, em que a última faixa retoma os versos do tema de abertura. O que significa isto?
É intencional, é um pouco como encerrar um ciclo. É claro que ele encerra-se a si próprio, não chega a haver uma ligação com o “Bestiário”. Mas é para dar essa ideia, que é só o ciclo destas referências do homem e da máquina. Porque não podemos passar os próximos discos à volta deste tema.

Num apontamento à imprensa sobre o último trabalho, diz-se que este poderia ser a banda sonora do “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. Concordas?
Eu adorei o livro. Mas não fui eu que disse isso e agora vou ter que defender. Concordo absolutamente. Isto é uma nova abordagem para os Bizarra. Mesmo ao nível da música portuguesa, os Bizarra, por muito peculiares que sejam, ainda podem ser considerados uma banda pop/rock, ainda estão dentro dos limites. Não são uma coisa tão experimental ao ponto de sair desses limites. Mas nós já temos dez anos e a nossa sonoridade continua a ser de vanguarda. Aquilo que nós queremos é abrir os olhos às pessoas para o “admirável mundo novo” da tecnologia.

Como é gravar um disco com os Bizarra?
O Armando é o grande compositor. Posso dizer como era gravar os primeiros discos dos Bizarra: o Armando compunha as músicas todas e apresentava-nos o material e, até hoje, ainda não me apresentou uma música de que eu não gostasse. Mas não deixa de ser um processo de banda. Ele apresentava-nos as músicas e depois trabalhávamos sobre elas e eu escrevia uma letra ou ele já tinha uma letra pensada. Eu só não participo na parte instrumental, o Miguel [Fonseca, guitarras] já faz mais alguma coisa, mas 90% das músicas continuam a pertencer ao Armando. A sonoridade dos Bizarra – à excepção da voz, que acaba por ser também um instrumento – deve-se ao Armando.

Como pensam colocar no palco o novo disco?
Já fizemos alguns ensaios e temos alguns fatos. Na promoção do “Bestiário”, eu entrava debaixo de um casulo, entrávamos envoltos num plástico. E a besta ia saindo do casulo e cada vez tinha uma forma menos bestial e mais humana e, no final, era o homem. Para este, nós temos uns fatos de corpo inteiro que representam um homem-máquina. O tema ‘H.M.’, que encerra o disco, vai ser a introdução dos concertos todos e fazemos a ligação com a faixa de abertura. Podemos dizer que o disco defende a máquina e a actuação defende o homem. A nossa actuação é completamente orgânica.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 14)