Entrevistas
BLACK BOX RECORDER
SUBTILEZA DE APAIXONADOS
Luck Haines em dircurso directo sobre o artifício da celebridade, pop pedófila e o facto de todos os seus produtores de referência “transportarem armas”.

Numa altura em que a coisa mais perigosa da música pop é uma Christina Aguilera a provocar os miúdos com “Dirty” ou duas falsas estudantes lésbicas russas, o regresso dos Black Box Recorder torna-se um alívio. Poucos se terão esquecido da letra imortal de “Child Psychology” (“...Life is unfair, Kill yourself or get over it...”) que foi prontamente banida das emissões radiofónicas diurnas, ou ainda da ocasião em que tocaram “The Facts Of Life” no Top Of The Pops. Depois de um exílio forçado de dois anos, devido à sua anterior editora, os Black Box Recorder regressam mês com “Passionoia”, um álbum que vira a cena electroclash do avesso.

Qual é a sensação de estar de volta ao mundo da pop – onde a coisa mais perigosa que existe são duas falsas estudantes lésbicas russas.
Sempre estive no mundo da pop só que este álbum demorou algum tempo a ser lançado devido a problemas legais com a editora que, basicamente, entrou em bancarrota. Pelo meio, andei a fazer algumas coisas para a banda – sonora de um filme que produzi há dois anos, e, andei a exibi-lo em cinemas de todo o mundo numa “Stealth Tour” – é tudo música pop. Mas a música pop foi sempre assim. Algumas lésbicas russas hoje...Alguns pedófilos amanhã. Na verdade, é uma ilusão – não me parece que a música pop tenha sido alguma vez tão perigosa quanto isso.

Sendo eu alguém que ouviu os Auteurs, os seus álbuns a solo “The Oliver Twist Manifesto”e “Christie Marrie Double Entry” – “Passionoia” parece ser o seu lançamento mais abertamente comercial até à data. Concorda com isto?
Ao voltarmos atrás e ouvirmos o primeiro álbum reparamos que, embora seja um grande álbum é, surpreendentemente, lento. Raramente ultrapassa as 90 bpm (batidas por minuto) e então pensámos dar um último “abanão” à juventude e exorcizar essas músicas mais lentas. É muito difícil adivinhar a reacção das pessoas porque toda a cena musical parece ter-se voltado para as guitarras ao mesmo tempo que fizemos um álbum “electro”. Talvez o nosso “timing” seja sempre algo estranho mas, na verdade, nunca pensámos nisso. O último álbum dos Black Box Recorder era bastante comercial e nós nunca das nossas experiências e barragens sónicas...Isso nunca fez parte do nosso arsenal. Foi sempre uma coisa algo urbana.

Em “The Oliver Twist Manifesto”, havia elementos que contrariavam todo o estilo hip – hop Dr.Dre da altura. Estavam a tentar virar a cena electroclash do avesso com “Passionoia”?
Acho que, na verdade, tentámos sempre virar a musica pop do avesso. Muitas das canções surgiram nessa forma e reflectiam o género de instrumentos que dispúnhamos na altura, para além de ser tudo completamente artificial, obviamente, dado todas as canções terem sido escritas para a Sarah cantar. Simplesmente, pareceu apropriado que seguíssemos esse caminho e penso que essa seria a maneira como Bowie ou Eno abordariam o álbum no final dos anos 70 – estás simplesmente a usar a tecnologia de estúdio mais rudimentar para criar um álbum com o som mais contemporâneo possível. Ainda acho que Dr. Dre é o melhor produtor que anda por aí. Era isso que eu procurava para o “The Oliver Twist Manifesto” e preferes sempre o melhor quer se trate de Dr. Dre ou Phil Spector…Mas, se calhar, é melhor não mencionar Phil Spector neste momento.

Como escolheu as musicas que iriam para os Black Box Recorder e para Luck Haynes a solo?
Bem, foi um bastante fácil porque escrevemos especificamente para a Sarah. A única excepção sucedeu com uma canção dos Auteurs intitulada “The Rubettes”, que originalmente pertencia aos BBR. A Sarah ficou bastante aborrecida por eu ter “roubado” a canção para mim. Era sobre os anos 70 e achei que era um pouco velha demais para Sarah porque ainda mal era nascida nessa altura, logo não fazia muito sentido ser ela a interpretar essa canção.

Todos os projectos em que entrou começaram com um tema e só depois trabalhou os temas à sua volta. Que mensagem lírica tenta transmitir neste álbum?
Na verdade, acho que tudo se trata de artifício. ”The School Song” é tipo uma versão rasca de uma canção de Leonard Cohen intitulada “The Tower Of Song”. É mais ou menos sobre Leonard Cohen na torre de canção com Hank Williams a falar sobre escrever canções…Então pensámos convertê-la numa “School Of Song” dos Black Box Recorder, que é uma escola de canção ligeiramente mais estranha que se preocupa pouco com os clássicos. Personalidades como Diana e Andrew Ridgely estão totalmente ligados ao artifício e à futilidade da celebridade. Talvez até nos afirmemos como amantes do artificial porque é disso que o álbum se trata. Penso que o álbum é previdente porque quando o estávamos a conceber, nem pensámos muito nisso. Até o tema “Being Number 1”, que as pessoas disseram andar à volta do ídolo – pop, tinha sido escrito e gravado muito tempo antes, mas isto são apenas coisas que vão e vêm. Podes, pois, dizer essas coisas mas está tudo como sempre esteve…Tem sido, apenas, ligeiramente amplificado.

Alex McCann
Exclusivo: Designer Magazine/Mondo Bizarre Tradução: Gabriel Soares