Cada vez mais longe dos tempos do hardcore e da violência e choque dos primeiros concertos, os Black Dice estão, nestes dias, mais virados para trabalhar as e com as mentes. De braço dado com a electrónica menos linear. Em ”Broken Ear Record”, terceiro lançamento pela DFA e primeiro pela parceria DFA/Astralwerks, os Black Dice dão continuidade à exploração electrónica que desta vez foi gravada na Austrália depois de ter sido composta em Nova Iorque. Os Black Dice são, ao lado de nomes como os Animal Collective, os Excepter, os Mouthus, os Gang Gang Dance, a No-Neck Blues Band, ou os Double Leopards, face visível de uma Nova Iorque fervilhante a
disparar em todas as direcções e, em alguns dos casos, à semelhança de outros tempos, a mostrar ao resto mundo qual o caminho a seguir. Aaron Warren aceitou responder a algumas questões que ajudam a perceber o porquê de algumas das últimas escolhas no seio da banda. Depois do concerto no Festival Sudoeste em 2005, os Black Dice voltam a Portugal para dois concertos. O primeiro, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, decorre a 21 de Abril. O segundo, em Famalicão, acontece no dia seguinte, dia 22, na Casa das Artes local.
A vossa música é muitas vezes apontada como sendo futurista. Qual é para vocês o peso dessa classificação? Não vos é permitido o regressar ao passado?
Acho que a nossa música é contemporânea, e não futurista. Nós gostamos de todos os tipos de música do passado e canções actuais na rádio e na TV. Ninguém sabe o que os sons do futuro vão trazer, provavelmente algo que a certo ponto eu direi, “isso não é música…”, como um tipo de música de valsa de boyband. Mas eu espero continuar a ter uma mente aberta, estar sempre interessado em novos sons, e não, como muita gente gosta de dizer, que já tudo foi feito anteriormente.
”Broken Ear Record” é supostamente o resulto de vocês precisarem de mais material rítmico para tocar ao vivo. Eu sempre vi o single "Cone Toaster" de 2003 como uma canção muito único na carreira dos Black Dice e “Broken Ear Record” parece um pouco a exploração desse single. Concorda?
Simplesmente apeteceu-nos testar as batidas. A razão principal para a diferença no ritmo é a troca do nosso antigo baterista fazer batidas para os três membros restantes fornecendo os ritmos. Foi uma decisão de estética tanto como uma questão logística. “Cone Toaster” foi algo inteiramente diferente que nós fizemos com o Hisham.
Uma das provas que “Broken Ear Record” é um disco mais guiado pelas batidas é que “Smiling Off" teve remisturas assinadas por Vladislav Delay e a própria DFA. O que é que acha dessas remisturas?
Acho que são ambas fantásticas – verdadeiramente profundas e também interpretações muito divertidas da canção. Mas também sou fã da remistura de ZZ Pot da mesma canção, que é tão dançável como um sloth [mamífero curioso que vive no Sul e Centro da América] com três dedos dos pés em Robotussin.
Ao mesmo tempo, usam tons de guitarras e efeitos de delay similares aos utilizados em “Creature Comforts”. Por isso “Broken Ear Record” parece uma contínua exploração do vosso último disco mas com a adição de mais ritmo. Concorda?
A estrutura geral das canções é mais rigorosa do que qualquer dos nossos primeiros esforços, mas com tudo o que fazemos há um contínuo esforço para nos empurrarmos para sons e formas que nunca tenhamos realmente ouvido. Apenas tentamos divertirmo-nos e permanecer amigos enquanto colocamos muito escrutínio na nossa escrita de canções.
O ano da criação de “Broken Ear Record” foi ao que sei um ano duro para os Black Dice, mas o disco nunca parece ser a reflexão desses problemas. A mim parece-me mais um fuga…
Para mim pessoalmente, fiquei aliviado por ter algo em que trabalhar para me ajudar a passar por algumas das coisas com que estava a lidar. Acho que a escrita de canções foi um aspecto enormemente positivo nas nossas vidas, e para nós o álbum “Broken Ear Record” é um álbum de bons tempos que representa um rechaçar algumas das partes chatas da vida diária.
Optaram por gravar todas as sete faixas durante uma sessão muito curta nos estúdios Rockinghorse durante a vossa visita à Austrália no último ano para o festival What Is Music. Porquê a Austrália?
Queríamos gravar num ambiente quente e bonito como uma experiência para ver como afectava a música. Para mim, não mudou a música assim tanto. Escrevemos quase tudo na nossa sala de ensaios em Nova Iorque. Em vez disso, foi apenas um local agradável para fazer uma sessão realmente desafiante. Não somos pessoas muito descontraídas, por isso foi mesmo bom ter um ambiente relaxante. Assentamos na Austrália porque fizemos uma digressão curta lá, e foi pouco dispendioso para nós ficar depois da digressão e fazer o disco.
É quase curioso que tenham vindo para Nova Iorque há seis anos atrás e agora tenham sentido a necessidade de deixar a cidade para fazerem nascer “Broken Ear Record”. Como é que os Black Dice se sentem em Nova Iorque?
Fizemos nascer “Broken Ear Record” em Nova Iorque na nossa sala de ensaios. Estava frio e monótono e tivemos muitas dificuldades no ano precedente. E é tudo. Foi porreiro gravar na Austrália. Nada de mágico acontece por termos gravamos noutro local. Somos uma banda de Nova Iorque. Trabalhamos, vivemos e escrevemos música lá. Apenas queríamos uma mudança de andamento.
É “Broken Ear Record” o reflexo do vosso estado de alma durante as gravações do disco?
Não, eu acho que é apenas um titulo estranho que fica no ouvido e do qual gostamos do som. Um amigo nosso disse algo ao telefone e o Eric pensou que tinha ouvido "Broken Ear Record" e nós gostamos da imagem que isso representou.
Este é o vosso terceiro disco na DFA e o primeiro com a etiqueta
DFA/Astralwerks. Estão consciente acerca da forma como a vossa editora de certa forma traz pessoas à vossa música – via música electrónica – que de outra forma provavelmente não a encontrariam?
Nós não estamos inteiramente convencidos que alguma atenção trazida até nós através da nossa editora se manifeste verdadeiramente ela própria na forma de fãs verdadeiros dos Black Dice. DFA é high profile, e como tal nós recebemos alguma atenção residual, mas muita gente derretida pelos LCD ou pelos Rapture não é necessariamente fã da nossa música. Gosto de pensar que merecemos os nossos fãs tanto como qualquer banda merece por causa dos méritos da nossa música.
Também estão a explorar outras disciplinas como a arte visual e a edição de vídeo. Elas afectam a vossa música ou é exactamente o oposto?
Qualquer outra prática em artes influencia obviamente aquilo que fazemos. Mas igualmente outros aspectos da nova vida diária, ver televisão e filmes, falar com os amigos, apreciar passar tempo com os animais de estimação… Todas estas coisas chegam à nossa música tanto como ouvir música ou trabalhar na arte visual.
De onde veio a inspiração para a capa do vosso disco?
O Bjorn tem um estúdio de prática de arte onde faz muitos desenhos e colagens. Ele fez a colagem com o álbum em mente, e gostamos do facto de ser provocativo, ligeiramente ofensivo, e irreverente e bonito ao mesmo tempo.
Na primeira vez que tocaram em Portugal estavam muito na improvisação e em alienar as pessoas. Agora que os vossos concertos parecem ter mudado, o que é que podemos esperar dos dois concertos em Portugal?
Nunca estivemos a alienar as pessoas. Isso parece acontecer sem que tentemos fazer um grande esforço nessa direcção. Usamos a improvisação como uma ferramenta quando escrevemos canções, mas aparte disso estamos mais interessados em composição e em fazer improvisações nas canções acabadas. Vamos tocar muito do mesmo material que tocamos quando estivemos em Portugal no verão passado. E esperamos que as pessoas se divirtam e que apareçam para dizer olá.
André Tiago Gomes
(Mondo Bizarre - Abril 2006)