Entrevistas
BLACK DICE
A SOBREVIVÊNCIA DAS CRIATURAS
Os Black Dice, pelas suas constantes explorações sónicas e movimentações por territórios menos convencionais, são um dos mais excitantes e incontornáveis projectos sediados em Brooklyn, e os últimos anos são a prova disso mesmo. Discos como “Beaches And Canyons” e “Creature Conforts” são um verdadeiro desafio à catalogação e o testemunho positivo do organismo camaleónico e em perfeita mutação que são os Black Dice. Mais um ano de vida para os Black Dice, mais um capitulo que se abre com o lançamento de “Broken Ear Record”, a ser editado no próximo dia 5 de Setembro. Em entrevista, Eric Copeland desvenda alguns pormenores acerca do novo disco dos Black Dice, o processo de criação, assim como a relação da banda com Nova Iorque e a amizade. E enquanto o próximo disco não chega aos ouvidos do mundo, os Black Dice vão andar em digressão e uma das paragens é no Festival Sudoeste, no próximo dia 5 de Agosto, um concerto que faz parte de uma espécie de showcase de bandas do selo DFA. O mesmo é dizer que, no dia 5 de Agosto, o palco Planeta Sudoeste é um local mais do que desejável para se estar.

Os Black Dice formaram-se em Providence, mas mudaram-se mais tarde para Nova Iorque e começaram a fazer música numa cidade completamente diferente. Acham que a mudança alterou a vossa abordagem à música e a forma como criam música?
As maiores mudanças que aconteceram em Nova Iorque foram o facto de termos conhecido o Aaron e de termos começado e tocar muito mais. Mas Nova Iorque foi duro para nós durante muito tempo, não conseguíamos arranjar concertos facilmente, os locais não eram muito bons durante algum tempo. E a cidade muda toda a gente, creio eu, apesar de duvidar que nos tivéssemos sequer apercebido disso.

Começaram como uma banda de hardcore e noise, mas agora parecem muito mais interessados em explorar a música electrónica, o barulho branco e faixas mais serenas. Hoje em dia parecem estar a trabalhar muito mais a mente do que o corpo...
De certa forma ainda é a mesma motivação e o processo de exploração. E eu diria que sempre tentámos envolver o corpo. Nos espectáculos que dão a sova toda ou no volume através dos anos. Mas estou de acordo que os sons se tornaram mais fáceis para o estômago.

Qual é o peso da improvisação na vossa música? Quero dizer, exploram ideias que juntaram – sozinhos ou juntos como uma banda – ou começam do zero?
Eu diria que há muito pouca improvisação em palco. Temos sempre locais onde ir durante o set. Mas os melhores espectáculos são quando isso não interessa e quando acabamos no mesmo ponto através de processos ligeiramente diferentes, todos estão soltos... Na escrita, no entanto, há espaço para tocar simplesmente e para experimentar coisas.

Li algures que os vossos concertos poderiam soar completamente diferentes de uma noite para a outra. Vêm os espectáculos ao vivo como uma forma de progredir, uma forma de encontrar novos sons a explorar em gravações futuras?
Nós tratamos os concertos como composições neste momento, escrever para uma noite ou digressão. Mas de noite para noite podem mudar imenso de tom e ir para locais diferentes. Mas elas são composições, por isso raramente surgem ideias especificamente para novas gravações ou canções ao vivo.

Começaram por tocar em salas mais pequenas, mas agora vão actuar em grandes festivais de música com muitas pessoas, como o Festival Sudoeste em Portugal. Vêm isso como uma evolução dos Black Dice ou acham que hoje em dia há muito mais pessoas preparadas e interessadas neste tipo de novos sons?
Parece que é ao mesmo tempo a nossa evolução e a da audiência. Queremos melhorar e mudar mas duvido que pensássemos demasiado em tocar em festivais há cinco anos atrás.

No concerto que deram na Fundação Serralves no Porto há algum tempo atrás, pareciam estar de regresso ao passado, mais precisamente aos vossos primeiros discos. Como é que é este novo “Broken Ear Record”? As criaturas sobreviveram?
É estranho mencionares isso mas enquanto estávamos a escrever “Broken Ear Record” falamos imenso sobre os nossos discos antigos. Não para emular, mas quão mais divertido e quão físicas as coisas costumavam ser e isso submergiu durante a escrita. Sonoramente as coisas são muito diferentes, e em termos de composição. Mas há qualquer coisa pequena ali.

Pelo que sei, “Broken Ear Record” tem menos de 40 minutos de duração. Estão a seguir a lógica do “menos é mais” adoptada em “Creature Conforts”?
Um álbum decide quando acabar para nós. Na maior parte, eles consistem de todas as canções que conhecemos na altura. Regra geral os singles são as canções que ficam a meio. Mas todos os discos me parecem completos.

Voltando ao passado, como é que se sentiram quando a DFA lançou “Beaches and Canyons” em tempos que muitas vezes descrevem como sendo tempos estranhos? Como é trabalhar com eles, considerando que as diferenças musicais entre os Black Dice e os outros artistas por eles representados são significativas?
A nossa relação com a DFA é óptima e está a envelhecer. O facto de ser uma editora baseada em Nova Iorque permitiu-nos igualmente sermos apenas amigos com eles, por isso quaisquer diferenças musicais entre nós e o resto do catálogo parecem bastante inconsequentes.

Vejo “Cone Toaster” como um dos capítulos mais peculiares da carreira dos Black Dice e li algumas coisas relacionadas com a vossa relação com essa faixa. Não acham estranho que o New York Times a tenha considerado o single do ano? Sentem vontade em explorar mais o lado dançável da música como fizeram em “Cone Toaster”?
Essa canção parece tão longe das pistas de dança, mas eu percebo o que queres dizer. Esse foi um dos tempos mais complicados para nós em estúdio, foi muito difícil acabar aquele tema. Acho que tivemos de fazer três tentativas diferentes. Mas eu gosto e aprecio tentar novas coisas. E manter as coisas assim tão regulares é, muitas vezes, complicado.

Concordam com as pessoas dizem que “Creature Comforts” é o trabalho mais acessível dos Black Dice até à data?
És a primeira e única pessoa que eu ouvi dizer isso. Perdi de vista a nossa acessibilidade, mas eu adoro esse disco.

Hisham Bharoocha deixou os Black Dice há algum tempo atrás e agora trabalham como uma banda de três elementos. De que forma é que essa mudança alterou a forma como concebiam os Black Dice?
Nós os três temos um relacionamento aberto e amigável, uns com os outros e com a banda. Sinto que todos partilhamos e queremos o melhor uns para os outros a todo o momento, e escrever este disco foi incrivelmente desafiador mas muito divertido também.

O que é que tem ouvido recentemente?
Bo Diddley, o disco ao vivo do Panda Bear, reggae, tanta música. E as nossas remixes.

Brian DeGraw dos Gang Gang Dance disse recentemente que de certa forma refuta toda a cena de Brooklyn de Nova Iorque, pelo menos no que toca à sua banda. Disse também que Nova Iorque era uma luta constante, um sítio muito desconfortável para se viver. Partilha as visões do Brian, no que diz respeito aos Black Dice e a Nova Iorque?
Sim. Nova Iorque é extremamente duro. Estás sempre rodeado de pessoas, é extremamente público, competitivo, tanta arte e música. Sinto que as pessoas ou se tornam muito focadas ou muito desfocadas, por isso as cenas de que as pessoas falam pode ser simplesmente um grupo de amigos, pessoas focadas que tocam juntas. E por vezes é complicado divertirmo-nos por lá.


André Tiago Gomes
(Mondo Bizarre - Agosto 2005)