THE BLACK HEART PROCESSION
TEATRO DAS EMOÇÕES
Corações magoados, memórias retorcidas, amores perdidos, mistério, crime, tudo regado com doses de melancolia. É este o mundo bizarro dos Black Heart Procession, colectivo de San Diego que acaba de editar o quarto álbum “Amore Del Tropico”, brilhante regresso de uma banda única. Estivemos à conversa com Paulo Zappoli, compositor, vocalista e multi-instrumentista do grupo.
Deixou temporariamente os Three Mile Pilot, e começou os Black Heart Procession por estar farto dos primeiros?
Eu não estava propriamente farto de tocar com os Three Mile Pilot porque éramos grandes amigos, mas estava na altura de fazermos um intervalo porque já estávamos juntos há dez anos. Como banda passámos por muita coisas, passámos tempos difíceis por causa da editora, das digressões, e pelo facto das pessoas não perceberem a música que fazíamos. Era uma altura difícil, e quando formámos os Black Heart Procession foi por que acima de tudo gostávamos de fazer música e porque queríamos fazer algo de novo. Com os Three Mile Pilot estamos a trabalhar num novo disco muito lentamente, por isso só deve sair daqui a algum tempo.
“Amore Del Tropico” é o primeiro álbum dos Black Heart Procession com um título propriamente dito, em vez de um número como aconteceu com os trabalhos anteriores. Porque não intitularam o disco apenas “4”?
Desde que começámos a compor o álbum, tínhamos a ideia bem definida de desta vez arranjar um nome e não intitular o disco simplesmente “4”. Quisemos fazer algo diferente. O ambiente deste disco é mais tropical, portanto pensámos que seria um bom título.
Este álbum lida com assuntos como o amor, assassínio, memórias retorcidas e há um ambiente reinante de mistério. Sente-se atraído pelo lado negro da vida? É o que o inspira para escrever?
Eu gosto de música e mistério. Penso que combinam bem. No início do processo é algo que não nos apercebemos de imediato mas vai ganhando forma, vamos sequenciando as ideias, e começa a aparecer uma história, uma sequência para todo o disco, e trabalhamos sobre essa ideia.
Há muita tristeza e melancolia na vossa música. É mais interessante escrever sobre isso do que compor canções alegres?
Gosto de ambas as formas. Este disco tem momentos de luminosidade, esperança e tem igualmente canções obscuras. É como quando vemos um filme, vamos passando por diferentes sentimentos e ambientes. Eu gosto de todos os tipos de música mas prefiro criar música mais negra, sai-me mais naturalmente.
As canções dos Black Heart Procession lidam com a dor, negritude, tristeza, mas as suas letras às vezes tomam uma direcção que é quase como se estivesse a gozar com a sua tristeza. O Humor é importante na vossa música?
Acho que é importante usar o humor como meio de escape. É um modo de termos a certeza de que os sentimentos que queremos partilhar são entendidos por terceiros. Gosto de ter esse tipo de abertura, de esperança, nas letras.
São sérios naquilo que fazem, mas não querem soar como pessoas que se levam demasiado a sério...
Há seriedade naquilo que fazemos mas isto é como no dia-a-dia em que estamos chateados ou tivemos um mau dia ou passamos por uma fase menos boa, mas também vamos aprendendo e chegamos a um ponto da nossa vida em que encaramos as coisas de uma forma mais positiva. Na música e em tudo o que fazemos, levamos as coisas a sério, não somos uma piada, mas é importante para nós a ideia de que quando canto sobre assuntos difíceis, tenha a capacidade de rir de mim próprio.
Há uma componente filosófica e existencial nas suas letras, canta muito sobre amor e desgostos amorosos. Pensa que é o tipo de assuntos com que as pessoas mais facilmente se relacionam para ouvir os Black Heart Procession?
Acho que falar sobre amor ou a dor associada a ele é algo que qualquer pessoa se pode identificar e compreender quando ouve música, não importa de onde vem ou que tipo de pessoa é, relaciona-se com as pessoas. Sinto-me conectado com as pessoas deste mundo, percebe? Eu gosto de contar histórias por essa razão, transmitir sentimentos e sentir-me em sintonia com as pessoas. Concordo que ao cantar sobre essas coisas é mais fácil as pessoas relacionarem-se com o que escrevo.
É, juntamente com Tobias (Nathaniel, piano) a principal força criativas dos Black Heart Procession, quais as diferenças entre vocês como escritores de canções ou a forma como encaram a música?
O Tobias é mais organizado e preocupa-se mais com a estrutura, teve formação musical, sabe ler música, sabe mais acordes e preocupa-se com a imagética que a música transmite, os sentimentos, o próprio som. Eu tenho um lado mais caótico na forma como idealizo as canções.
Os Black Heart Procession são vistos como uma banda misteriosa, com um som fantasmagórico. Disse numa entrevista que é mais supersticioso do que uma pessoa religiosa. Para si, a banda funciona como uma terapia para as suas obsessões?
Às vezes sim, é uma terapia. Não sou uma pessoa religiosa, embora entre numa igreja de vez em quando, sou supersticioso e vejo as coisas de uma forma muito espiritual. A música é uma terapia e de certa forma tornou-se a minha religião.
A atmosfera das vossas canções é muito importante...
A atmosfera é importante especialmente no estúdio, onde gosto de me sentir confortável quando estou a gravar e assim consigo criar o ambiente certo em termos sónicos e o ambiente certo para que a música e a letra funcionem em conjunto. Quando compomos uma canção, é tudo uma questão de criar a atmosfera e o sentimento, o estado de espírito de nós próprios e como conseguimos alcançar esse estado. Sinto que todos estes factores actuam em conjunto e todos são importantes.
“Amore Del Tropico” é o primeiro álbum gravado no vosso próprio estúdio. Como correram as sessões de gravação, foi diferente dos discos anteriores?
Sim. Desta vez nós experimentámos mais, escrevemos bastantes mais canções para este disco e como gravámos aqui em San Diego, podíamos chamar um violoncelista ou um violinista, podíamos convidar músicos daqui, beber um copo de vinho com eles e relaxar sem nos preocuparmos com o tempo e com o dinheiro. É mais relaxante trabalhar assim.
Vocês gostam de beber quando gravam? Isso ajuda a serem criativos?
Beber, fumar... Ajuda, mas não deixamos que as coisas se descontrolem ao ponto em que fica uma situação doida. É controlado. Talvez o Tobias, às vezes, beba demais. Para um homem pequeno como ele bebe uns copos a mais. É normal, bebemos um bocado mas não somos uma banda de alcoólicos. Gostamos de beber um copo, nada de especial.
Sei que gravaram os álbuns anteriores no Bear Creek Studio, que fica fora da cidade, na floresta, e gravaram à noite muito tarde no escuro. Isso é o tipo de ambiente natural para a vossa música floresce?
O Bear Creek é um belo estúdio. Os discos que gravámos lá nas montanhas foram ajudados por esse ambiente, no meio do nada. Estávamos presos no meio do nada, num sítio tão bonito, em pleno inverno, a nevar e a chover. Nós escrevemos esses discos aqui e depois fomos gravá-los nas montanhas. Nós escrevemos em San Diego, à noite, e depois imaginamos um sítio diferente, porque aqui faz muito sol. Gostamos de um tipo de lugar oposto a isso. Alguma da inspiração vem de imaginarmos “onde poderíamos estar”.
Na vossa música usam instrumentação estranha: um serrote musical, um “waterphone”, as possibilidades sónicas são igualmente importantes como escrever boas canções?
Sim. É o tipo de som que cria a ambiência. É algo que ajuda a canção a seguir uma determinada direcção. Mas não dizemos: ei, vamos usar uns instrumentos bem estranhos. Não há esse propósito. No novo álbum, usamos a serra mas apenas em dois ou três momentos. Não gosto de usar uma coisa demasiadas vezes, só porque é suposto fazê-lo ou porque o tenho de fazer. Preocupo-me com o que é que uma canção precisa, com o que pode alcançar, para onde é que ela quer ir, o que é que a ajuda a ir onde quer.
Como é que as canções surgem? Ensaiam todos juntos e improvisam, fazem uma música e depois e juntam a letra ou as palavras aparecem primeiro?
É um pouco estranho, porque para cada canção é diferente. Temos várias maneiras de trabalhar. Às vezes sou só eu e a minha guitarra. Componho uma canção que depois os outros completam com os seus instrumentos. Às vezes apareço com uma linha de guitarra e partimos daí até conseguirmos o resultado desejado. Outras vezes o Tobias tem uma linha de piano ao qual acrescento a letra. Também há alturas em que tenho as palavras na cabeça ou uma imagem, e construo a canção à volta das palavras. Por vezes surgem ideias enquanto tocamos em conjunto. Acima de tudo fazemos questão em não ter um único estilo de escrita, preferimos que as coisas sejam misturadas. Eu acho que a música está sempre a fluir à nossa volta e se estivermos no sítio certo na altura certa captamos o momento. Não é algo que se deva forçar. As coisas devem surgir naturalmente.
Quando estão em digressão costuma encontrar a inspiração para escrever novas canções, baseadas nas experiências da estrada?
Sim, a inspiração pode surgir enquanto estamos na estrada. Não costumo compor em digressão. Não costumamos escrever na carrinha enquanto guiamos, mas a inspiração e a memória de certas alturas e de certos lugares, de coisas que vemos e pessoas que conhecemos fica connosco e acabamos por trazê-la para casa.
Ao vivo, tal como em estúdio, a banda pode ser constituída por duas, cinco ou mesmo oito pessoas. Gosta da ideia dos Black Heart Procession poderem ser uma banda de formação livre?
Nesta digressão vamos ser cinco, mas em alguns concertos devemos ser seis ou sete. Eu gosto da ideia de alterar a formação porque sempre que trazemos um novo elemento para a banda trazemos uma nova inspiração. Podemos escolher alguém que vê as coisas de uma maneira diferente da nossa e isso traduz-se na sua maneira de tocar. Isso acaba por nos inspirar de uma maneira diferente. Eu gosto de ouvir o que as pessoas têm para dizer, trabalhar com elas e fazer coisas novas. Quando algumas pessoas estão numa sala a fazer música, tudo se baseia na intuição de cada um, e eu gosto dessa experiência.
Os Black Heart Procession nunca tocaram em Portugal. Como descreveria as reacções à vossa música em concerto?
As pessoas reagem de maneiras diferentes. Já tivemos pessoas que choraram e ficaram bastante perturbadas e pessoas que se sentiram aliviadas. As pessoas têm sido entusiastas e simpáticas. Com este disco ainda só tocámos uma vez e foi bastante enérgico e agradável. Depois desse concerto estava a suar como nunca. Parecia que tinha estado em grande esforço. Os nossos concertos são muito emocionais e muito negros. Na maior parte das vezes o palco está pouco iluminado, mas ao mesmo tempo existe luz. É uma pergunta difícil de responder porque costumo estar em cima do palco...
Como uma banda que começou quase por acidente, surpreende-o o facto dos Black Heart Procession estarem a gravar para uma editora como a Touch And Go, andarem em digressão com outras bandas e suscitarem o interesse de tanta gente?
Às vezes é interessante porque nunca pensámos em ser uma banda. Nós só juntámo-nos para fazer música, e as coisas foram acontecendo de uma forma natural. Quando começámos os Black Heart Procession estávamos tão fartos de tudo que só estávamos interessados em fazer música que nos fizesse sentir bem. Não nos queríamos preocupar com as coisas que as bandas se preocupam, como ter uma editora, etc. Só queríamos fazer música, fazer um disco. Não planeámos nada, não tínhamos nenhumas expectativas, nunca pensámos muito no que estávamos a fazer. Depois do primeiro disco estar pronto ficámos espantados. Quando vínhamos embora do estúdio com a gravação final percebemos que tínhamos feito um bom disco, e isso era algo em que nunca tínhamos pensado.
Costuma fazer as capas dos vossos discos. Pode dizer-se que com isso tenta dar uma imagem do conceito dos discos?
Sim. Eu gosto da parte gráfica dos álbuns porque é a última chave do disco. Só depois de tudo estar feito é que eu penso no grafismo e na imagem que quero utilizar. Apesar de eu não ser um artista gráfico ou um pintor a tempo inteiro, conceber as capas dos discos serve-me de desculpa para criar algo.
A vossa próxima edição será um DVD. Que material irá conter?
Vai chamar-se “Tropical Murder Mystery”, foi filmado em San Diego e participaram cerca de cinquenta pessoas. Existem alguns personagens e a banda também participa. Escrevi o argumento com outra pessoa. Primeiro surgi com a ideia central e depois escrevemos o guião. Estamos a trabalhar com uma pequena equipa de produção, mas conseguimos filmar tudo em dois meses. Foi um trabalho bastante duro. A ideia do DVD baseia-se na história de um tipo chamado Luigi e da sua namorada Maria. Acontece um assassínio do qual ele é acusado e do qual tem de se libertar. Joga-se com o passado e com o futuro, existem cenas a cores e a preto e branco e a sequência da música é a mesma do “Amore Del Tropico”. Não existem diálogos reais. É mais uma experiência visual com alguns subtítulos. Foi a primeira vez que fiz algo assim tão envolvente e deve ser editado dentro de seis meses.
Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 13)
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