BLACK KEYS
LUZES - CÂMARA - IGNIÇÃO
O mundo melómano está cada vez mais habituado a ver apenas dois músicos em palco. A ausência de baixo também não é de espantar. É necessário conhecer bem os aditivos, e as matérias-primas, para apreciar devidamente a riqueza dos diferentes combos. Os Black Keys optam pela agricultura biológica, em campos cobertos de blues, rock, garage e soul. Dan Auerbach, vocalista e guitarrista, apresenta, directamente da fábrica onde foi gravado, “Rubber Factory”, terceiro e melhor álbum da banda até à data.
A história dos The Black Keys conta-se ainda em pouco anos. Desde 2002, têm editado um álbum por ano, e melhorado progressivamente. À primeira vista, a sua presença na Fat Possum poderia levantar sobrancelhas. À primeira audição, estas abaixam-se imediatamente. Dan Auerbach (voz/guitarra) e Patrick Carney (bateria) absorvem correntes sanguíneas dos melhores glóbulos azuis, devidamente enrugadas pelo impacto do rock. Se for possível fazer acupunctura com agulhas mais grossas do que o habitual, “Rubber Factory”, gravado numa antiga fábrica, após digressão com as Sleater-Kinney, está perto de saber os pontos de inserção correctos. Observe-se então em que medida o sucesso crescente tem trabalhado na cabeça da banda.
Após “Thickfreakness” tinham maiores expectativas em relação a este novo álbum? Como é trabalhar numa altura em que os holofotes estão mais presentes?
Tentamos não pensar muito nisso, honestamente. Como gravámos o disco em casa, estivemos bastante confortáveis com a gravação. Foi bom temo-lo feito. Não pusemos qualquer pressão sobre nós próprios.
O amadurecimento do som da banda tem sido notório de álbum para álbum. Diriam que ainda há muito por onde evoluir dentro dos vossos padrões?
Sim. Penso que sim. Desde que queiramos continuar a gravar, e continuemos a fazer discos, iremos mudando simplesmente. Iremos naturalmente ficar melhor, ou pior. É natural que mudemos numa situação dessas.
No novo álbum, apesar de não haverem grandes mudanças de estilo, nota-se uma gravação muito mais clara. O que contribuiu para tal?
Foi o resultado de ter sido gravado num sítio diferente, com maquinaria diferente. Nós não sabemos aquilo que estamos a fazer. Estamos basicamente no escuro. Isso é uma grande parte daquilo que somos como uma banda, do nosso som. Simplesmente ligamos o gravador.
Dão a ideia de terem um espírito muito aberto a vários tipos de música. Pensam que o mesmo acontece com as vossas audiências?
Espero que sim. Essa é a melhor forma de ser, e de encarar a música, com espírito e mente abertas. Nós não ouvimos só um estilo de música, e esperamos que os nossos fãs também não o façam. Preocupam-nos os puristas que possamos atrair pelo facto de termos assinado pela Fat Possum.
Os vossos meios continuam, aparentemente, bastante modestos. “Rubber Factory” foi gravado numa antiga fábrica. Onde acaba a necessidade e começa o gosto?
Foi por necessidade. Tivemos que sair do sítio onde estávamos. Vimos um sinal a dizer “Arrenda-se” numa velha fábrica, escolhemos um espaço e mudámo-nos para lá. Ainda lá estamos a viver.
São muitas vezes comparados aos White Stripes, e sabe-se que não gostam da comparação. Diriam, no entanto que são uma banda para quem a imagem é menos importante do que para eles, ou para uns The Kills?
Sim. Definitivamente, prestamos menos importância a isso. Fazemos um esforço consciente para não sermos uma banda baseada na imagem, e sim na música, apesar de fazermos o nosso artwork. Tentamos manter tudo simples, de forma a não mentirmos aos nossos fãs.
São uma banda com boa fama ao vivo. Vão ser cabeças de cartaz num festival na Austrália e aparecer em programas importantes na televisão americana. Isso faz-vos a cabeça andar um bocado à roda?
Faz sim! Há dois anos atrás nunca sonharíamos com isto. É realmente óptimo. Ainda não temos a certeza daquilo que vamos tocar nos programas. Não pensámos ainda a sério nisso.
Sentem-se na obrigação de encher mais o som, sobretudo da bateria, pela escassez de meios? O Patrick já foi comparado, nalgumas críticas, ao John Bonham. Isto é basicamente o máximo dos máximos em termos de elogios para um baterista. Como ficam com elogios deste tipo?
Não sei bem. Acho que é óptimo. O Patrick acha isto bastante divertido. Afinal de contas, ele é um autodidacta. Quando começámos a banda, ele mal conseguia manter o ritmo, e agora vê-se comparado ao John Bonham.
As raparigas são moeda corrente na vossa música. Inspiram-se nas mulheres mais tradicionais dos blues, ou nas mulheres que vêem todos os dias?
A minha inspiração vem de experiências em primeira-mão. Tentamos não tirar mesmo nada a não ser um sentimento das velhas canções.
Não abordando tópicos explicitamente políticos na vossa música, que contributo pensam que a vossa participação no concerto do ACLU- (Sindicato das Liberdades Civis Americana) teve para a causa deles?
O importante foi sobretudo o facto de termos lá estado. De termos demonstrado apoio às causas, à liberdade de expressão e tudo o mais. O ambiente que se vivia era muito pró-Kerry, muitas pessoas com esperança que as coisas mudassem. Neste momento é uma merda ser-se do Ohio. Afinal, o estado foi ganho pelo Bush por uma margem muito curta. O condado onde vivo foi ganho pelo Kerry.
De quem vos dá maior prazer e orgulho em poderem dizer “Somos colegas de editora dele!”?
O Junior Kimbrough! De longe. Pelo menos naquilo que me cabe! Estaria no topo de qualquer lista que fizéssemos. Morreu há cinco anos. Nunca tivemos oportunidade de o conhecer ou de tocar com ele.
Sentiram algo especial ao começarem uma canção (“Grown So Ugly”) com a celebre frase “I woke up this morning”? De onde vem a menção a Angola nessa mesma canção?
Não sentimos nada de especial. Porque se ouvires a canção, é uma canção muito fixe, e totalmente diferente de uma típica canção blues. Não tem nenhum esquema de versos, muda de um momento para o outro. É uma versão de uma música do Robert Pete Williams. Ele tinha cometido um assassínio e foi para a prisão em Angola. Entrou como um rapazito novo, e quando saiu, foi ter com a namorada e ela não o reconhecia, porque ele tinha envelhecido. É uma canção que diz “Vai à merda também”. Não tem nada a ver com o típico blues.
No vosso site dizem, surpreendentemente, ser fãs dos Korn. Qual consideram ser a principal herança que eles deixaram?
Estava a ser sarcástico quando escrevi isso. Devia ter lá posto uma notazinha a dizer “Sarcasmo”! Acho que essas bandas todas são ridículas. Gastam todo o dinheiro que ganham em cocaína e prostitutas. De quem é a culpa disto? De gajos brancos toninhos que são donos de editoras, ganham milhões e gastam-nos em bandas como estas. Existem só para fazer dinheiro e terem gajas. Vão ser tão infelizes quando deixarem de ser populares. Tenho pena deles. Não, não tenho!
Em poucos dias, o mundo perdeu John Peel e Ol’ Dirty Bastard. Dois nomes que eram importantes para os Black Keys. O que acontece à música quando um nome assim tão insubstituível morre?
O Ol’ Dirty Bastard morreu?!?! Não sabia disso!!! Como é que aconteceu? (intervalo para contar a história do colapso em estúdio). Vi recentemente umas imagens dele em vídeo com os outros membros dos Wu-Tang Clan. Estava todo inchado, provavelmente por causa das drogas. O John Peel foi a primeira pessoa a tocar os nossos discos. Convidou-nos para irmos a casa dele. Ele tocou-nos por motivos puramente egoístas, como fazia com todas as bandas. Tocava-as porque gostava delas! Não sei o que vai acontecer à música. Iremos descobrir. Nunca vai haver outra pessoa como ele. A maior parte dos putos nos EUA não sabe quem ele é. Ele apenas tocava aquilo de que gostava.
Nuno Proença
(Mondo Bizarre # 21)
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