Entrevistas
BLANCHE
OLD-NEW WEIRD AMERICA
São uma das revelações deste ano. “If You Can´t Trust The Doctors”, o álbum de estreia dos Blanche, dá-nos a conhecer o universo do casal Dan e Tracee Miller, que apresenta uma música encantadora apoiada nas raízes da country, do folk e do rock.

Dan Miller tocou em tempos numa banda de hilbilly-punk chamada Goober And The Peas e é amigo de Jack White, dos White Stripes. Agora é o compositor principal dos Blanche, cujo álbum de estreia é um hipnótico conjunto de canções repletas de ambientes sonhadores e atmosferas requintadas e predominantemente acústicas. Há banjo, pedal-steel mas também guitarras distorcidas que providenciam o ambiente adequado para as histórias assombradas, estranhas e românticas que povoam o álbum. As cativantes vozes de Dan e Tracee e os instrumentos que as suportam lembram esse outro casal da galeria dos notáveis do country alternativo, os Handsome Family, uma influência assumida pelos Blanche. É uma música marcada pelo passado, mas que ao mesmo tempo soa contemporânea e é de uma beleza desarmante. “If We Can`t Trust The Doctors” é um dos melhores álbuns de estreia dos últimos anos. Falámos com Dan Miller sobre o álbum, Detroit, White Stripes e o seu gosto por coisas antigas.

Existe dor e miséria nas vossas letras, o que vos remete para o country antigo mas, ao mesmo tempo, os Blanche soam contemporâneos. É neste campo que se sente mais à vontade para escrever ou também é capaz de escrever canções pop alegres?
Penso que não seria muito bom a escrever canções alegres. Sempre gostei de música mais triste. Durante o período de composição deste álbum, passámos por momentos muito difíceis, perdemos pessoas muito chegadas, o que influenciou a escrita destas canções. Sinto-me confiante a escrever nesse estado de espírito. Nós gostamos de folk e country antigo mas não queremos soar ou gravar como esses artistas que admiramos. Não queremos fazer mímica. Queremos ser nós próprios e criar a nossa própria identidade. No entanto, abraçamos essas influências. Muitas das características dessas músicas, contar histórias, o sentimento de desconforto e uma vertente mais assombrada e assustadora, foram elementos que sempre me atraíram. Incorporámos esses elementos na música, mas à nossa maneira. Temos também influências do punk e rock'n'roll, até porque vivemos em Detroit. Não quero que as pessoas oiçam o nosso disco e digam “isto soa como um disco country do anos quarenta”. Quero que os Blanche soem como algo deste tempo, moderno, mas não quis usar loops de bateria e coisas do género, porque não oiço muito hip-hop, não tenho influências vindas daí. Não queremos soar modernos de uma forma forçada, mas antes deixar o curso dos acontecimentos seguir o seu rumo natural.

Há também uma complexidade emocional, com muitos contrastes nas letras. Por exemplo, em “Jack On Fire”, Tracy canta “fuck until you die, bury you in kisses” o que soa um pouco masoquista mas também romântico. Todo o álbum é um pouco “spooky”, mas muito belo ao mesmo tempo. Procura sensações mistas no seu processo de escrita?
É engraçado porque sempre gostei de canções que não são fáceis de compreender. Quando se fala de música americana, country, blues, isso remete-nos para as velhas canções folk de países como a Escócia, Irlanda ou Portugal. Esse tipo de escrita já existe há muito tempo, e, por alguma razão, a América ganhou crédito nesse tipo de escrita musical. Não entendo isso muito bem, porque não considero isso uma coisa genuinamente americana. Quando era adolescente, as canções de que mais gostava eram as mais simples e detestava bandas como os Rush e esse tipo de grupos rock sofisticados. Sempre gostei mais de punk, country, folk ou rock'n'roll. Adorava a simplicidade de uns The Who, Rolling Stones ou Velvet Underground. Penso que temos algo que nos une ao que essas formas musicais têm em comum. Falando das letras, gosto de canções que não tenho a certeza sobre o que tratam, algo de que podes tirar a tua própria interpretação. Há uma canção deste disco, “The Hopeless Waltz", em que escrevi a letra muito depressa, na sala de espera de um hospital, Quando agora olho para o que escrevi, penso que foi um pouco literal demais, o que não é meu hábito. Por outro lado, não quero ser intencionalmente abstracto.

Considera que os Blanche se inserem na tradição folk/country onde há imensas histórias sobre violência, assassínio e outros assuntos do lado negro da vida?
Gostamos de escrever sobre coisas que realmente sentimos, mas isso não significa que tenham sido experiências vividas por nós. Se é sincero, podes escrever sobre algo que sentes verdadeiramente. Por exemplo, a canção “Strange Fruit” de Billie Holliday, toda a gente pensou que foi ela que a escreveu por ser tão pessoal a maneira como canta e por ser uma canção sobre racismo na América. Foi um choque para muita gente descobrir que foi um homem branco, judeu de Nova Iorque, que escreveu a canção. Adoro essa canção. É do género belo/horrível, é muito triste e capta muito bem esse estado de espírito. Não seria melhor se fosse escrita por Billie Holliday. Há pessoas que nos perguntam “vocês são de Detroit, como é que podem tocar country?”, mas não vejo a nossa música como sendo country ou rock'n'roll. É apenas música americana e há tanta folk americana com raízes na folk de países europeus. Quando oiço a Carter Family, a música é tão triste, mas faz-me sentir bem quando me sinto triste e espero que tal aconteça com a nossa música. Também há um lado mais rock nos Blanche, especialmente ao vivo. Também tocamos as guitarras com o volume alto. De momento estou a fazer ensaios para um filme sobre Johnny Cash, onde desempenho o papel do seu guitarrista Luther Perkins. O filme vai ser rodado este verão. O Luther mantinha-se sempre estático em palco, o que é curioso porque quando estou em palco movimento-me muito. Mas é óptimo para mim fazer este papel. Uma das coisas que mais admiro no Johnny Cash é a sua simplicidade musical, especialmente as partes de guitarras de Luther Perkins, e isso leva-me ao tempo em que descobri o punk rock e disse para mim próprio ”uau, eu posso fazer isto”. Quando subo ao palco, gosto de entreter as pessoas. Houve uma altura em que se pensava que se vestias outras roupas que não calças de ganga e t-shirt e fizesses algo mais exuberante em termos de espectáculo, não estavas a ser honesto com a música. Agora discordo completamente, porque se tens essa maneira de sentir as coisas, deves fazer isso, faz parte da tradição da música e do entretenimento.

A sua intenção como escritor de canções é permitir ao ouvinte encontrar os seus próprios significados? Às vezes as canções são um pouco “out there” com questões que permanecem sem resposta…
Eu não quero ser literal na minha escrita – não me queixo a escrever o quanto horrível é a minha vida –, mas sim trazer emoção às canções e deixá-las abertas a interpretações várias. Por vezes, isso torna-se difícil porque hoje em dia, com a Internet e tudo o resto, toda a gente quer tudo explicado e não há mística. Não que queiramos ter uma grande mística, mas quando olho para um quadro, não quero uma completa descrição do significado de todos os pormenores do género “lá atrás, está aquela mulher de chapéu a olhar para este homem e o chapéu representa isto e aquilo”, percebes?

A vossa música é muito sonhadora e por vezes, há uma certa estranheza a pairar nas canções. É assim que vê a realidade? Considera-se uma pessoa sonhadora?
Sim. Tenho dificuldade em concentrar-me nas coisas. A minha mente tem dificuldade em focar-se em algo e, por vezes, tenho uma visão pessimista do mundo. Mas não sou pessimista o tempo todo, ou cínico. Li “O Senhor Das Moscas” quando tinha treze anos e fez todo o sentido para mim. Se se puser um miúdo querido, naive e puro numa ilha… Isso é o que todos temos, o que Deus nos deu. Não sei porque é que Deus nos deu sentimentos como a culpa, ciúme ou ganância. Tentamos lutar contra essas coisas negativas da vida. Passei por tempos difíceis, preso a essa contradição de me ligar às coisas puras e belas da vida e às coisas negativas. Toda a gente na banda é importante e cada um leva a música a uma direcção diferente. O pedal steel imprime um determinado sentimento à música, a bateria tocada de uma certa maneira dá o ambiente certo. Não temos ideias simples e emoção nas canções para depois forçá-las a soarem estranhas ou abstractas, isso não é deliberado. Há uma canção neste álbum chamada “Bluebird” em que escrevi a letra com a Tracy. Originalmente, pretendia que a canção acabasse amarga e feia, mas a Tracy disse-me que esse não seria o melhor desfecho por ser demasiado típico e fácil.

Vocês têm uma imagem que se afasta da do mundo do rock. Usam roupas antigas, o que vos dá uma certa distinção. O visual é importante para vocês?
Sim. É uma extensão natural da música para nós. O tipo de roupas de que gosto são antigas, daquelas que se arranjam em lojas de segunda mão. Gosto de ir ao lixo buscar coisas que me parecem interessantes. Gosto de ir buscar algo que alguém já não quer, algo que seja belo e será sempre algo de diferente, que mais ninguém tem. É dar vida a qualquer coisa que estava destinada a ser destruída. Pode parecer um pouco pretensioso, mas isso tem a ver com o facto de sermos de Detroit, sempre houve aqui essa atitude de preservar a história. Não queremos que a imagem seja mais importante que a música. É apenas a maneira de nos vestirmos quando saímos para jantar ou ir a um funeral. Não é muito rock'n'roll. Desde miúdo que gosto de vestir poliéster. Não gosto de jeans, o que faz parte de uma grande tradição americana, mas não é para mim. Quando tocámos no festival South By Southwest, tocámos com o Little Richard e ele disse “eu gosto do vosso estilo, devem ser músicos”. Nós respondemos que sim e ele disse “Também gosto de me vestir assim. A última coisa que uma audiência gosta de ver é uma banda que tem o mesmo visual que eles têm”, o que é um ponto de vista interessante.

O vosso gosto por coisas antigas estende-se ao uso de velho equipamento analógico ou não têm problemas em gravar com pro-tools?
Nós gostamos de gravar com equipamento antigo, especialmente, microfones antigos que têm um som diferente. O que é engraçado com os novos equipamentos é que não se está a criar sons novos mas sim a recriar sons antigos, o que poupa bastante dinheiro, especialmente para grupos como nós, visto que não estamos numa grande editora que nos possibilite um grande orçamento para gravar. Com o pro-tools, podemos fazer pequenos “edits” e poupar muito tempo comparando com os métodos antigos de “editing”. Mas o que é mais importante é gravar num estúdio em que nos sintamos confortáveis, como é o caso do estúdio do nosso produtor, Brendan Benson, que fica numa casa grande antiga em Detroit. O ambiente é excelente para gravar. Alguns músicos preferem gravar para fita analógica porque, dizem eles, tem um som mais quente, mas penso que um bom som depende mais de onde se coloca os microfones. Se pudesse escolher, escolhia gravar sempre em analógico, mas por conveniência, usamos pro-tools.

Nestes tempos em que as pessoas têm tanta informação disponível, mas vivem as suas vidas tão depressa que muitas vezes não têm tempo ou paciência para assimilar as coisas de forma mais profunda, pensa que é importante olharmos para o passado, para as raízes? Sente nostalgia por modos de vida antigos?
Há tanta informação que é difícil focarmo-nos nas coisas. Eu escrevi uma canção para um álbum de caridade para crianças. A canção chama-se “Stuck In A Playpen”, uma espécie de canção do prisioneiro. Um dia observei um miúdo que estava nesse aparelho e parecia tão triste. Falei com ele e sentia-se como se estivesse na prisão. Lembro-me de os meus pais me porem nesse aparelho e só me apetecia fugir e ir para a rua. Ficava ali sentado a ocupar a mente para me entreter. O que é óptimo para uma criança fazer e também para um adulto, tirar um tempo, pensar e pôr as coisas em perspectiva. Antigamente, as pessoas juntavam-se com as suas famílias e ouviam rádio, não tinham televisão nem computadores. Na América, as pessoas têm cada minuto das suas vidas contado, trabalham duro para terem uma grande casa e um grande carro e passam cada vez menos tempo com a família, o que é triste. Isso afasta as pessoas de coisas importantes. Gosto de me sentar e ter um bom livro nas mãos para ler. Mas não receio a tecnologia, posso, por exemplo, aprender mais sobre história fazendo uma busca rápida na internet.

A forma como as pessoas ouvem música está a mudar. As pessoas escolhem as canções que querem ouvir nos seus Ipods. Há pessoas que já não têm paciência ou disponibilidade mental para ouvir um álbum do princípio ao fim.
As pessoas não têm paciência porque a sociedade faz com que as pessoas não tenham tempo para ser pacientes. Nós queremos que as pessoas oiçam o nosso álbum com atenção, que olhem para o arranjo gráfico, assimilando o todo. Se não o fizerem, estão a perder o essencial.

Porque escolheram gravar uma versão de “Jack On Fire” dos Gun Club? O seu amigo Jack White é um grande admirador da banda...
Eu e o Jack tocámos há uns anos numa banda chamada Goober And The Peas e costumávamos tocar versões dos Gun Club. Lembro-me de lhe dar a ouvir um disco da banda e ele ficou tão excitado como eu fiquei da primeira vez que os ouvi. A forma como se apropriavam de estilos antigos como o blues, adicionando a sua própria personalidade, sempre me atraiu. Há uma sensação de perigo na música deles que me fascina sempre. Para fazeres uma boa versão tens de pôr a tua marca no original. Não quisemos gravar o tema tal como eles o gravaram porque nem por sombras chegaríamos perto da excelência do original. Mudámos alguns pormenores e tentámos olhar para a história de forma diferente. “Fire Of Love” é um dos meus álbuns favoritos de sempre. Adoro o som, não soa polido, é muito trashy. É um som que serve na perfeição aquelas canções.

Consideram-se influenciados pela cena rock de Detroit?
Sim. A cena está a crescer. Temos amigos nas bandas daqui. E há a herança óbvia dos Stooges. Nunca quis fazer esse tipo de música, mas há alguma dessa energia na nossa música. Cresci a ouvir os Stooges, MC5, The Who, Rolling Stones e bandas de garagem dos anos sessenta. Mas não queria fazer parte de uma banda de rock normal. Há muito que tenho paixão pela country, e, para mim, é um desafio combinar esses dois mundos diferentes. Mas não quero tocar velhas canções country e acelerá-las, como se fosse fazer versões rock’n’roll de canções country, mas sim criar um meio-termo onde possa incorporar ambos os géneros. O álbum “Kicking Against The Pricks” de Nick Cave And The Bad Seeds foi um trabalho marcante para mim. Eles deram a sua própria personalidade àquelas versões. Tocaram as canções de uma maneira diferente. Todas têm o mesmo espírito, são verdadeiras, não são uma piada e têm um tipo de humor negro que aprecio muito. Gosto das bandas daqui, viemos todos do mesmo circuito. Estou muito orgulhoso pelas bandas de Detroit. Muitas delas têm influências óbvias dos Stooges, mas não copiam a música ou o visual. Isso seria insultuoso para o Iggy. Isso é um perigo para qualquer cena musical como é o caso do rockabilly ou do swing, onde todas as bandas se vestem da mesma maneira. Tens que exigir a ti próprio que cries a tua própria identidade.

O sucesso dos White Sripes mudou alguma coisa na cena local?
Nem por isso. Ajudou a puxar um pouco as coisas para a frente. Todas as bandas fazem muitas digressões e não nos vemos muitas vezes. Mas é uma cena muito saudável. Detroit sempre teve uma grande cena musical, com muitos estilos diferentes, como é o caso da country nos anos quarenta e cinquenta. Foi nessa época que apareceu a primeira editora de Detroit, que retratava a realidade musical da altura, à semelhança de outras cidades musicais que tinham pequenas subsidiárias, cada uma delas dedicada a um estilo: gospel, r&b, rockabilly...

Deve estar orgulhoso pelo sucesso que os White Spripes alcançaram...
Estou muito orgulhoso por eles. Conheço o Jack há onze anos. Ele e a Meg White trabalharam muito, não se acomodaram e evoluíram sempre. Merecem o sucesso que têm. Estou ansioso para ouvir o próximo álbum.

Os Blanche são frequentemente comparados aos Handsome Family. Considera que faz sentido a comparação ou é preguiça mental dos críticos?
É uma honra sermos comparados aos Handsome Family. Sou fã deles, são uma grande inspiração. Levaram-nos com eles em digressão. E foi a primeira [digressão] que fizemos. Vindos de Detroit, seria fácil sermos mais rock’n’roll, mas gostamos de uma certa delicadeza na nossa música. Ouvir a música dos Handsome Family deu-nos coragem e inspiração para trabalhar esse lado calmo da nossa música. Mas não soamos como eles.

Disse numa entrevista que o primeiro concerto dos Blanche foi um desastre, de tal forma que pensaram desistir, mas as pessoas deram-vos muito apoio, o que vos deu confiança para continuar. Agora que “If We Can`t Trust The Doctors” foi editado e recebeu rasgados elogios da crítica, sente-se mais confiante?
Estamos surpreendidos com as reacções positivas que o álbum está a ter, especialmente na América. Há pouco tempo estava em Los Angeles, a conversar com os Lambchop e eles disseram-me que na Europa as pessoas são mais abertas a vários estilos musicais do que na América. Quisemos fazer um álbum de que gostássemos e se arranjássemos uma editora seria óptimo ver o disco nas lojas. Agora esaiamos mais e queremos evoluir. No início ensaiávamos uma semana antes de um concerto porque era difícil encontrarmo-nos. Três dos membros dos Blanche nunca tocaram numa banda anteriormente, mas as pessoas gostam do que fazemos por estarmos a fazer algo de diferente. Quando falhas miseravelmente, isso é um desafio para fazer melhor.

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 19)