Entrevistas
BLIND ZERO
Dívidas de Sangue
Pela primeira vez sob a capa de uma multinacional, os Blind Zero editam “A Way To Bleed Your Lover” e falam de iniciativas passadas e actuais e de colaborações frutíferas. Miguel Guedes (voz) e Vasco Espinheira (guitarra) traçam uma linha temporal dos feitos conseguidos pela formação portuense e alargam, depois, a discussão radiografando o panorama musical luso.

“A Way to Bleed Your Lover” é o vosso primeiro álbum com a marca de uma multinacional. Quais são as diferenças sentidas na banda?
Vasco Espinheira – Existem diferenças, claro que existem. Mas essas diferenças têm a ver especialmente com trabalho. Numa multinacional o trabalho é levado mais a sério, nas independentes o trabalho é feito quase por amor à camisola e vai-se indo conforme o vento. Às vezes, trabalha-se; outras, não. Numa multinacional as pessoas vestem a camisola porque estão a trabalhar e são pagas para isso, mas quando gostam das bandas, trabalham mesmo. Quer dizer que, para nós, artisticamente é muito melhor porque sabemos que qualquer sugestão que dermos é analisada e pensada. Eu tinha medo por causa das interferências artísticas mas nunca ouvi falar disso na Universal. Especialmente, no nosso caso, não houve qualquer imposição porque nós começámos a trabalhar no disco há um ano.
Miguel Guedes – Na sequência do que o Vasco disse, é pouco relevante para a questão artística o facto de ser uma multinacional ou uma independente. Eu tendencialmente apaixono-me muito mais pelas independentes. Nós estivemos com uma independente (a Norte/Sul) durante três discos. E é evidente que há coisas que falham nas independentes. No estrangeiro, se calhar as independentes até funcionam melhor que as multinacionais. A verdade é que até agora nunca vimos um trabalho tão bem feito com um disco nosso como o que foi feito na Universal. E isso é gratificante para uma pessoa que muda para uma multinacional e tem medo dos problemas artísticos ou de ser esquecido no meio de um catálogo. E houve também uma grande compreensão quanto à forma como queríamos fazer chegar este disco às pessoas.

Aliás, o trabalho gráfico deste disco é exemplo disso.
MG – Quanto à capa e à contracapa e à parte interior do disco, queríamos que, desta vez, houvesse um reforço do imaginário das canções pelo recurso à fotografia. Quisemos pictorizar algumas das canções, facilitando também, de alguma forma, a interpretação das pessoas. Nós vemos nos dias que correm que as pessoas não têm tempo para interpretar o que quer que seja, nem sequer para ouvir um disco sentadas. A maior parte das pessoas ouve os discos no carro, enquanto foge do trânsito e ouve os discos entre noticiários. Em relação aos nossos discos em particular, tem havido essa dificuldade de interpretação. E nós também não somos uma banda muito evidente, as letras não são muito concretas, não falam de coisas muito palpáveis, falam mais de coisas interiores. E, se por um lado, isso é bom porque nos cria um certo refúgio onde nós nos sentimos bem, por outro, também nos cria algum drama pela incapacidade que, às vezes, parece que temos de comunicar com as pessoas no sentido de não passar o nosso imaginário, que é um imaginário denso, negro e obtuso. O público de Lynch também não é o público massivo. Desta vez, quisemos que para cada canção, cada um de nós assumisse um papel de acordo com a canção e que recriasse um bocado o ambiente e que, de alguma forma, facilitasse não a vida às pessoas mas a intromissão das pessoas nas canções, que é o que nós queremos.

É também o primeiro álbum em que trabalharam com um produtor português. O que difere trabalhar com produtores estrangeiros conceituados de trabalhar com um conceituado produtor nacional, como o Mário Barreiros?
VE – É diferente logo à partida. As duas coisas são boas. Fez muito sentido, na altura, termos gravado com os três produtores estrangeiros com que trabalhámos. Também acho que faz todo o sentido termos gravado com o Mário Barreiros agora. Quando tu começas a ensaiar e a compor um disco e o prazo começa a estender-se até um ano, tu estás tão ligado às canções que é muito difícil vir uma pessoa de fora e quase cortar a ligação com as canções ou dar sugestões sem entender a banda do que isto poderia ser. Normalmente, o que acontece é que, quando vem um produtor estrangeiro, o timing de adaptação do produtor é muito curto. Quando trabalhas com um produtor nacional, acontece que o produtor já consegue tirar coisas da tua banda porque tem tempo para isso, porque conhece e sabes o que tu vales. E depois o Mário é um excelente músico e tem essa capacidade de te entender bem e a língua também ajuda muito. E o facto de poderes comunicar em poucos segundos aquilo que tu queres a uma pessoa cujas vivências culturais são as mesmas. E em relação ao prazo, com um produtor português podes sempre estender-te mais um bocado.

O período de tempo entre “One Silent Accident” e este último disco foi ocupado, em parte, pela gravação de “Heroes”, um original de David Bowie. Como foi a experiência de gravar um tema tão emblemático?
MG – Há sempre aquela carga de alguma responsabilidade. Nós, como somos um bocadinho irresponsáveis, responsavelmente atirámos isso para o lado. O tema é tão forte, tão bonito e tão bom que nós não nos podíamos prestar a grandes crises existenciais do tipo “vamos fazer igual” ou “vamos fazer melhor”. Quisemos fazer diferente e assumimos esse risco. Na altura, tivemos a oportunidade de ouvir várias versões do tema e quase todas elas muito coladas ao original. Como ouvintes, achámos que isso não teria muito interesse. Ou são pessoas que partilham do mesmo imaginário Bowie e, portanto, faz sentido que façam uma coisa muito próxima, ou então nós, que do Bowie temos referências mas não fazemos um tipo de música que esteja no mesmo comprimento de onda – já de si enorme – do Bowie. Não quisemos repetir. E foi uma óptima oportunidade para fugir a um contexto um bocadinho tenebroso de um disco para o Mundial 2002 (que, ainda por cima, correu mal e porcamente). Propuseram-nos fazer uma canção sobre futebol e como não conseguimos engendrar nada sobre futebol, que não é propriamente uma temática das nossas canções, resolvemos fintar. E foi também a primeira vez que tivemos a oportunidade de gravar com o Miguel Ferreira, que agora aparece neste disco. O “Heroes” é temporalmente a transição entre o “One Silent Accident” e este disco, com o qual já tem alguns pontos de contacto.

Em relação ao Miguel Ferreira, ele veio dos Clã e está agora nas teclas. Houve alguma mudança nas aspirações, no processo de composição dos Blind Zero com a sua entrada?
VE – A nível de aspirações, não. Acho que o Miguel veio encaixar-se e as nossas aspirações sempre foram as mesmas e sempre se mantiveram. Foi mais uma roda extra. E a parte mais importante do Miguel é que já o conhecíamos, tivemos a oportunidade de tocar com ele e foi logo uma boa experiência. A partir daí, por altura do “One Silent Accident”, quando sentimos a necessidade de fazer uma coisa diferente, achámos que poderíamos juntar um teclista. Até por causa de toda a palete sonora que um teclado tem e que pode dar à nossa música, que é algo que temos explorado mal desde o primeiro disco. Agora, com o Miguel, podemos começar a trabalhar com o teclado também como um instrumento musical. E nisso, o Miguel é exímio, é um excelente teclista, um óptimo compositor. Deu-nos óptimas ideias para os temas.
MG – E simultaneamente, para uma banda rock, que nunca tinha utilizado sintetizadores, nunca tinha utilizado teclas, esse lado mais digital nunca tinha aparecido, coloca-se o dilema de até que ponto isso vai alterar a sua organicidade, até que ponto isso vai romper o espírito. Isso não aconteceu. Qualquer instrumento ou qualquer computador pode soar mais sintético ou digital. Os campos, hoje, já se cruzam todos, já não estão estanques. Já não se pensa que, porque se tem um teclista, vai fazer-se música electrónica. E a verdade é que, tendo um teclista há tão pouco tempo, eu já não imagino os Blind Zero sem um. Portanto, acho que foi uma integração absolutamente pacífica.

O Jorge Palma participa num tema e o Dana Colley, ex-saxofonista dos Morphine, em três. Como chegaram até eles? O que pensam da prestação de cada um deles?
MG – Em relação ao Jorge Palma, achámos que o “The Down Set Is Tonight” poderia ter uma abordagem a duas vozes. Foi uma das últimas faixas a entrar para o disco, curiosamente esteve em risco de não entrar. E acho que ganhou muito mais sentido e muito mais força com o Jorge Palma a cantar. Sobretudo sendo o Palma, porque é para nós – para mim, em particular, que tenho todos os seus discos – uma referência enorme em termos do que se diz na música portuguesa. É uma pessoa de paixões, uma pessoa de emoções, de loucura, uma pessoa com sangue, com cabeça, que tem esse lado emocional muito à flor da pele, mas continua a ter uma razão tresloucada e continua a ser uma pessoa que tenta fazer coisas novas, que não está sempre a escrever os mesmos papéis. Acho que é uma pessoa com um percurso muito distinto e cantou distintamente. E foi uma honra. No caso do Dana Colley, foi uma mistura de engenho e felicidade. Nós tínhamos um tema, que é o “No Way, Jose!”, que ia entrar no disco (isso era uma certeza) mas ainda não estávamos com ele completamente definido. E quando se definiu, começou a soar a algo próximo do imaginário dos Morphine, nomeadamente e sobretudo, devido ao saxofone do Dana. Depois, passada uma semana e meia, duas semanas, soubemos pelos jornais que o Dana vinha tocar a Portugal com os Twinemen e achámos que era uma coincidência fantástica. Tínhamos que convidá-lo. Mandámos-lhe um e-mail e ele respondeu que se lhe mandássemos a música, se tivesse hipótese, faria isso. Nós então mandámos e ele respondeu logo no dia seguinte a dizer que tinha gostado muito, que tinha ouvido uma vez enquanto estava na cozinha e que tinha adorado. Que era bom sinal. Entretanto, ele veio a Portugal e nós mandámos-lhe outro tema para o hotel em Lisboa, que ele não chegou a ouvir porque não tinha leitor de CD. Veio de Lisboa para o estúdio em Canelas, chegou às duas da manhã, cansado. Fez o “No Way, Jose!”, fez o “Heartbreak Motel”, que ainda não tinha ouvido. Foi uma coisa muito passional, muito forte e muito rápida. Ele não toca nada pensado, toca de coração. E depois, às seis da manhã, lembrou-se de fazer outra música, o “Flower Lab.”, Ouviu a música e perguntou se nos importávamos que ele pusesse ali um saxofone. E fez tudo num take único. Foi uma pessoa que nos surpreendeu muito e uma das coisas que mais me marcou foi a atitude que ele teve na forma como chegou ao disco, o espírito muito leve que nos trouxe para o disco. Acho que nos inspirou também para o resto do disco. Isto aconteceu mais ou menos no meio das sessões. Ele disse que é isto que o rejuvenesce.
VE – O que é interessante é que as músicas que ele escolheu, duas delas são as que nós temos quase em gravação ao vivo, como uma jam session, que são o “Heartbreak Motel” e o “Flower Lab.”...

O primeiro single extraído do álbum, “You Owe Us Blood”, acaba por sintetizar o espírito contido no título do disco. Há algum conceito por detrás do nome e do álbum em si?
MG – Não há um conceito unificador. Não é um álbum conceptual nem tem pretensões a isso. Acho que há um fio condutor que tem a ver com as temáticas do disco, que são bastante negras, depressivas e urbanas, que falam sobre personagens perturbadas, psicóticas, disfuncionais, que não lidam bem com o envelhecimento. Fala de pânico, de suicídio, de sangue, de morte física e actividade cerebral em simultâneo. Portanto, são temas um pouco pesados e complicados de abordar. E que são abordados de uma forma menos subtil que a sonoridade. As letras são um bocado mais agressivas, embora não sejam tão demonstrativas e talvez as pessoas não sintam essa agressividade porque não incorporam. Fala-se de sentimentos tenebrosos neste disco e, portanto, “A Way to Bleed Your Lover” é uma tentativa não conseguida – não gosto de títulos que reduzam o disco e penso que este não o faz –, é um título que joga na ambiguidade do disco e mesmo na nossa ambiguidade no processo de feitura deste disco. “A Way To Bleed Your Lover”, de um modo literal, pode ser uma forma de fazer sangrar ou esvaziar o teu objecto de amor ou de desejo. O sangramento, normalmente, é interpretado de uma forma bastante carnívora, sempre do lado mais terrorífico. Mas sangramento, aqui, tem um sentido duplo: é, simultaneamente, isso e um acto de formação. “Bleed”, no sentido de esvaziar para poder voltar a encher, que é também o processo de criação deste disco. Depois do “One Silent Accident” e tentando esquecer o nosso percurso para trás, apesar de sabermos que iríamos encontrar alguns pontos de contacto, tentámos reinventar-nos e fazer um disco que tivesse o menos possível que ver com o resto. Deixa-me apenas concluir que, numa altura em que se fala tanto da sensibilização da música portuguesa e das questões da língua, eu acho que as pessoas que lêem a Mondo Bizarre têm a mesma opinião que eu, que nós temos. Em relação à língua, isto é uma grande palhaçada. É pegar no pior ponto possível. Pretender defender a música portuguesa reduzindo-a à língua é a menor das questões. Infelizmente, havia muito por onde pegar e é um desprezo enorme por uma data de músicos novos e uma geração nova de pessoas, que estão a fazer alguma coisa pela identidade cultural deste país e que não quer construir a identidade deste país da mesma forma que se construiu durante décadas de salazarismo. E gostaria que no debate sobre a música portuguesa os argumentos invocados fossem sobretudo a sensibilização de que há coisas que se estão a passar, uma sensibilização para a escuta. Mais preocupante do que não se comprarem discos é não saber que eles existem.

Esta edição vem acompanhada de um DVD extra. O que contém? Qual a sua importância?
VE – Sentimo-nos surpresos por ser o primeiro DVD de uma banda portuguesa, porque é já um registo tão vulgar que nem sequer sabíamos que o mercado não tinha feito antes um DVD. Mas isso nem é importante. Há é sempre uma tentativa da nossa parte de tentar chamar as pessoas ao nosso mundo, de lhes mostrar as portas de entrada. Ao mostrarmos neste DVD o “making of” do disco, preocupámo-nos em sermos nós a gravar e em que aquilo fosse coerente desde o primeiro ao último dia. Aquilo não é uma simulação, é mesmo real. Foram 14 ou 15 cassetes de vídeo, das quais escolhemos 34 minutos para mostrar às pessoas o que achamos importante na gravação de um disco.
MG – E, mais uma vez, o lado positivo da Universal, porque perceberam que esta era uma boa aposta e que poderiam ser pioneiros nisto. E, acima de tudo, nem mesmo numa área que é mais digital, mais comunicacional, eles quiseram intervir. Sobretudo, houve uma grande preocupação da nossa editora em que isto não viesse encarecer o CD.

O que recordam da gravação do tema “The Wire” para o projecto “Tejo Beat”? Qual foi a sua importância e o que falta, cinco anos depois, para que essa experiência se repita?
MG – Foi uma experiência bestial, que o Henrique Amaro, sobretudo, levou a cabo, na sequência de muitas outras que ele tem levado a cabo. Acho que é uma pessoa que faz muito pela música portuguesa, apesar de alguns enxovalhos que recebe em debates tristes de televisão. Foi uma iniciativa algo pioneira porque juntou uma data de bandas com concepções estéticas diferentes num disco com um produtor conceituadíssimo, que é o Mário Caldato. Foi muito positivo porque levou muitas bandas a um estúdio bastante bom, como o da Valentim de Carvalho em Paço d’Arcos. Acabou por ser um marco de junção de várias correntes da música portuguesa.

Em entrevista à Mondo Bizarre, por altura da edição de “Old Ramon” dos Red House Painters, Mark Kozelek dizia recordar-se dos Blind Zero da actuação em Paredes de Coura. O que pensam desta abertura de fronteiras da vossa música?
MG – É curioso porque ele veio há pouco tempo a Portugal para fazer promoção do “If You Want Blood” e nós estivemos com ele e trocámos uns discos. E o Mark Kozelek esteve muito perto de entrar neste disco. Só não entrou porque lhe morreu uma pessoa muito próxima, ele parou inclusive de fazer o disco novo que está a preparar, pediu imensa desculpa mas não podia. De qualquer forma, não iria ser aqui em Portugal, mas nos Estados Unidos. O Mark, para mim, é um escritor de canções bestial. Eu tenho muitos discos dos Red House Painters e dele.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 15)