BLIXA BARGELD
A ARTE DE DETERIORAR
O senhor que se segue é Blixa Bargeld, o qual, impecável no seu fato e muito bem-diposto no trato, tivemos oportunidade de entrevistar em Coimbra, naquela que foi uma humorada e interessante conversa à volta do singular universo de ideias e interesses artísticos deste "gentleman", que nos deu as pistas daquilo que mais tarde se fez ouvir no Teatro Gil Vicente. Por aqui se falou de auto-desafio, da lenda de Inês de Castro, da memória, sacos plásticos voadores, cogumelos e do interesse em deteriorar. Confusos?
Então nunca ouviram falar de "Rede/Speech", a performance vocal a solo de Blixa Bargeld, que personifica um real desafio à imaginação, e o quebrar de barreiras linguísticas e musicais, através duma estrutura técnica reduzida ao minímo (microfone e pedais, sob a direcção de um engenheiro de som). A voz e a imaginação são os comandantes de serviço, sendo através de experimentações vocais sobrepostas que se vão construindo as texturas sonoras de fundo, sobre as quais ora se fazem verdadeiramente inovadoras experiências científicas, ora se canta, ou então apenas se conversa sobre aquilo que surgir. Tudo isto manuseado com certeiras doses de humor, e uma comunicação que se vai estabelecendo com o público presente, cuja participação é essencial na dinâmica do espectáculo. E sempre com a intensidade, por vezes quase ritual e hipnotizante, que não é estranha a este senhor. É sem dúvida tudo isto que faz de "Rede/Speech" um espectáculo único.
Em que sentido é que a expressão "arte performance" se aplica ao seu espectáculo vocal a solo?
Desenvolvi este trabalho porque fui convidado a fazer algumas leituras, e nas leituras tens apenas perante ti um microfone e lês textos de um livro, algo de que não gosto. Quis realizar uma coisa que pudesse ser feita basicamente com o mesmo equipamento sonoro em palco, mas não queria ler. O meu projecto tomou mais ou menos a forma daquilo que na América é apelidado de "stand-up comedy", alguém em palco que fala para um microfone. Mas ainda que seja muito divertido, o meu espectáculo é simultaneamente muito sério, e encontra-se algures entre as categorias de performance vocal a solo e "stand-up comedy".
Não se poderá também aplicar a expressão "spoken-word"?
É de facto "spoken-word" porque reúne todo esse tipo de elementos, mas se tivesse de escolher uma dessas categorias, escolheria "arte performance".
Possui uma base temática à qual vai recorrendo?
Sim, tal como os comediantes de "stand-up comedy" diria que tenho rotinas. Penso que o Steve Martin se referiria a algo deste género como rotinas diferentes. Contam-se estórias e abordam-se temáticas nas quais já trabalhaste mas que vão variando, e é por isso que me refiro a rotinas. Nos ensaios não trabalho na música mas sim nas rotinas.
Mas deixa sempre espaço para a sua imaginação, não?
Existe muito espaço para a improvisação, talvez cinquenta por cento do todo ou mesmo mais.
Esta é então a sua forma de expressão artística mais espontânea?
Sim, sem dúvida.
Para além destes motivos, que mais o levou a criar o "Rede/Speech", um interesse em quebrar barreiras linguísticas?
Não, foram essencialmente como já referi, motivos práticos como o de não querer fazer leituras. Mas também porque gosto de trabalhar com limitações e como esses festivais de literatura eram muito limitados na sua vertente técnica, interessou-me fazer algo com esse tipo de possibilidades técnicas que me desse a liberdade de realizar uma coisa diferente, mas tendo sempre como ponto de partida a linguagem.
O que o atrai na exploração da linguagem verbal? Será a sua ambiguidade, o facto de por vezes ser insuficiente para descrever a realidade e outras constituir ela própria uma nova realidade?
Entregue-me essa frase redigida e eu assino por baixo (risos). É de facto assim, mas os motivos para criar o "Rede/Speech" foram muito mais de ordem prática do que de natureza artística, e mesmo assim tornou-se numa das maiores coisas que actualmente estou a fazer. Mas agrada-me muito o aspecto social que gira à sua volta, agrada-me muito quebrar uma barreira em relação a isso, o que está relacionado com o facto de viajar muito de São Francisco e Berlim para outros sítios distantes para recriar o espectáculo e nem sequer tirar notas, sendo um cronómetro a única coisa que possuo para o efeito. Tenho-o porque necessito dele para uma das rotinas que recrio, a do "Sistema Solar", mas esse é o único objecto a que recorro para o espectáculo. Posso viajar apenas com isso e com o meu engenheiro de som, tendo também apenas um microfone em palco, enquanto que com os Einstürzende Neubaten estão outras pessoas em palco e muito equipamento, instrumentos e tudo mais, e ainda que eu falhe eles estão lá para me amparar, será sempre óptimo ainda que erre. Por outro lado se falhar quando estou a solo, é óbvio para toda a gente que errei.
A sua imaginação nunca o traiu em palco?
Claro que sim! (risos)
Foi embaraçoso?
Hmm, é doloroso, mas para mim é ainda mais doloroso saber que vou estar sozinho durante duas horas em cima de um palco, o que não acontece quando vou tocar com os Bad Seeds ou os Neubauten. É arriscado mas é por isso que o faço, por esses trinta minutos de dor que tenho antes de entrar em palco, por ter a consciência de que posso falhar e tudo poder correr terrivelmente mal, mesmo hoje à noite, porque não é nada de fixo e nem sei muito bem o que estou a fazer. Mas é esse o motivo pelo qual aqui estou.
Define o "Rede/Speech" como "entretenimento pseudo-científico" por jogar com elementos científicos e subvertê-los artisticamente, como é o caso do "Sistema Solar"?
Sim, é esse o motivo. Eu jogo com coisas como construir um templo para os astrónomos dos tempos antigos, ou recriar o sistema solar clássico que só vai até Saturno, e também criei o primeiro clone humano de todos em palco, muito antes de existirem problemas em relação a isso. Poderei mesmo fazer um clone humano em palco hoje à noite!
Seria interessante, mas actualmente já se tornou quase uma coisa comum.
Sim, já é uma coisa comum, portanto terei de ser mais original. Vejamos, penso que tenho algo na manga...
A propósito, conhece a lenda de Pedro e Inês?
Sim, claro.
Gostaria de falar sobre isso, mas não sei muito sobre o assunto. É de certa forma o "Romeu e Julieta" português, mas com uma incrível reviravolta na parte final que está relacionada com o cadáver de Inês ter sido desenterrado e a sua mão beijada pela nobreza da corte. Isto não aparece no "Romeu e Julieta"!
É uma estória algo mórbida, suponho.
É muito mórbida, e essa reviravolta torna esta estória muito diferente de outras estórias.
Sim, e Inês foi proclamada rainha já após a sua morte.
Exactamente. Pedro era o principe, e que era Inês?
Umas das aias da princesa e amante de Pedro.
Ele tinha então uma esposa? Mas Inês pertencia também à nobreza, não?
Sim, pertencia a uma família nobre, ligada a Castela, o que poderia colocar em causa a independência do reino.
Foi então morta por motivos políticos! Por bons motivos políticos! E foi assassinada através duma conspiracia feita em Coimbra?
Sim, na ausência do príncipe do qual já tinha três filhos.
E como foi morta? Ouvi uma versão de que tinha sido esfaqueada, outra de que tinha sido envenenada. (risos)
Na verdade foi degolada.
E posteriormente foi desenterrada?
Foi trasladada para Alcobaça quando o príncipe já era rei. Mas esta parte está especialmente envolta em mito.
Também li que aos envolvidos na conspiracia lhes foi arrancado o coração.
Sim, a dois deles.
Óptimo, agora já conheço a estória.
Falará dela no espectáculo de hoje à noite?
Talvez. No último espectáculo no Porto, tinha acabado de saber da morte do George Harrison, falei sobre isso no espectáculo durante cerca de meia hora. A única coisa que sei acerca de Coimbra é que parte dessa estória decorreu aqui. E sabe porquê? Porque fiz uma pesquisa sobre Coimbra no "Google" e surgiu isso. Até vi um itinerário turístico dos locais fulcrais na estória de D.Pedro e D.Inês, o qual obviamente dava um grande destaque a Coimbra. Tenho a certeza que existem outras coisas importantes para se conhecer de Coimbra, até pelo facto de ser uma cidade universitária. Este tipo de espectáculos adequa-se muito bem a cidades universitárias, porque se tem um público culto. E o maior prazer que se pode extrair daí é que, se eu estiver à altura, (claro que posso falhar e estragar tudo), os pensamentos como que fluem. Pensarei a vida em cima de um palco, e os meus pensamentos serão amplificados de forma a todo o público os poder escutar. O mais importante será aquilo que eu não vou dizer, e isso será também a maior parte do prazer. Claro que está simultaneamente relacionado com a linguagem, portanto apenas poderei dizer uma ou outra coisa em português ou numa outra língua, porque basicamente vou ter de falar em inglês.
Tenta transmitir uma mensagem ao público?
Sim, tento fazer isso. Na globalidade, tenho um equipamento criativo em palco que consiste em quatro pedais, que fazem basicamente isto, (N.R: Blixa Bargeld tira do seu bolso um pequeno gravador para o qual fala, repetindo aquele progressivamente o seu sonoro "Hallo").Esta é a versão básica daquilo que tenho em palco, não possuo cassetes, nem nada pré-gravado, apenas tenho rotinas, e transmito um determinado set de "leis" para o meu engenheiro de som, ao qual habitualmente chamo Mephisto, porque eu estou no meu laboratório e ele é o meu assistente (N.R: Mephisto é o assistente da personagem Fausto, da obra homónima de Goethe).Então digo-lhe aquilo que me agrada, e ele sabe as regras que iremos seguir, por exemplo que carrego num determinado pedal para gravar a minha voz. Tudo isto não é bem controlável, algo que me agrada muito, porque seja o que for que decorra desta contexto, faz com que eu tenha de pensar, de reagir, de fazer um movimento. Portanto, tudo isto implica mais estratégias e tácticas, que a definição de formas definidas, claras e distintas para determinados instrumentos. É mais difícil que isso, e é-o assim propositadamente. É tornar todo o processo de raciocínio ainda maior, para que no fim tenhamos a sensação de estar a pensar todos pelo mesmo cérebro, e o público toma parte nesse processo de raciocínio, tirando daí porventura uma espécie de iluminação ou resultado.
Pretende continuar com o projecto "Precious Memories"?
Sim, estou mesmo com intenções de o fazer em Coimbra em 2003, mas não faço ideia de quem irá organizar o projecto. Gostaria de o fazer em Portugal, mas é um projecto muito mais complexo que este, para o qual preciso de apoio de uma qualquer instituição. Tentei em 1998 contactar o Goethe Institut em Lisboa, e eles escutaram-me mas na altura não se manifestaram lá muito interessados. Mas agora que já fiz esse projecto bastantes vezes, e tive óptimas críticas, penso que o poderia fazer. Mas nunca da forma como faço o "Rede/Speech", o qual é pouco dispendioso. Para se fazer o "Precious Memories" necessita-se de cerca de seis meses de preparação, estando muitas pessoas nele envolvidas. Fi-lo recentemente em Craco na Polónia num teatro com seis actores, e foi lindo, certamente um dos melhores momentos da minha vida. E certamente que adoraria fazer também isso em Portugal, em Coimbra, mesmo neste teatro se necessário, mas para isso preciso de apoios, de dinheiro para investir.
Qual a sua visão acerca do facto da memória ser selectiva?
A memória é ficção. Não trato este projecto estatisticamente, não tento definir quais são as memórias das pessoas de Craco, fazendo uma análise científica acerca daquilo que as pensam, sonham ou fazem, de forma alguma. Tento arranjar geradores de textos, construir algo que seja apelidado de entretenimento. Este tipo de entretenimento é contudo muito sofisticado, é apenas apelativo para um pequeno grupo de pessoas, e estou perfeitamente contente com isso. Na realidade, quero mesmo que seja apelativo apenas para um pequeno grupo de pessoas. É um pedaço de arte sociável, no sentido que requer o envolvimento de muitas pessoas, indo à raiz dos seus pensamentos e das suas vidas, e também porque não o conseguiria fazer sozinho. Não surge apenas da minha cabeça, requer, como disse, o envolvimento de muitas pessoas, e agrada-me muito fazer isto.
As memórias variam muito de cultura para cultura?
Sim, mas simultaneamente são muito semelhantes. Ninguém notaria se introduzisse memórias japonesas no espectáculo polaco.
Há alguma memória que tenha retido na sua própria memória que considere particularmente interessante?
Não gostaria de lhe responder com uma memória. A execução do "Precious Memories" consiste em inúmeros questionários, com cinquenta questões cada. Gasto imenso tempo apenas a lê-los, (até porque na maioria das vezes precisam de ser traduzidos), e depois de os ler várias vezes, fico a conhecer essas estórias. Elas tornam-se parte do teu coração e da tua mente, poderia contar várias dessas estórias, elas crescem e tornam-se muito próximas.
Associa às "Precious Memories" o sentimento de saudade?
Estou certamente muito interessado naquilo que acontece entre o momento em que escreves algo como sendo uma memória e isso se torna público. Imagine que cem pessoas preenchem os questionários, e eu escolho um determinado texto do questionário número quarenta, e depois um actor interpreta-a e conta essa estória. Algo acontece entre o ponto em que a pessoa se lembra de algo e o escreve, e o ponto em que um actor está em palco e a representa, e até poderemos pensar que a pessoa que escreveu essa memória faz parte do público e a está a escutar. Será ainda a sua estória? Dá-se uma grande transformação entre estes dois pontos, e o que isto se torna. Torna-se algo público, as pessoas ouvem e podem ir a um bar, beber uma cerveja e falar sobre a memória que escutaram, e falarão dessa estória de uma outra forma. E isso requer um grande passo, do ser apenas algo privado, e não interessa se realmente aconteceu, a sua autenticidade não é minimamente relevante, o relevante é até que ponto é comunicável e a transformação que decorre de A para B. Não é tem tanto a ver com saudade.
Em relação ao seu trabalho fotográfico, o "serialbathroomdummyrun"...
Sim é verdade, fotografo casas-de-banho de hotéis, é basicamente tudo o que lhe posso dizer. Posso dizer-lhe que a casa-de-banho do quarto de hotel de ontem à noite era terrível, mudei-me então para outro quarto mas também esta era terrível. Não as fotografo por estar interessado em todas as casas-de-banho. A maioria das pessoas fotografa coisas que lhes interessam, eu fotografo coisas que não me interessam. Ou seja, como neste momento não estou a tirar fotografias, é sinal que estou interessado.
Possui outros projectos de fotografia de coisas nas quais não está interessado?
Tenho um ficheiro no meu computador que se chama "projectos", que contém as coisas que gostaria de realizar. Penso que tenho lá projectos da área da fotografia que gostaria de desenvolver. Tenho esta ideia fantástica... mas não lha devo contar (risos). Se lhe conto isto agora, daqui a uns tempos oiço falar de um projecto que alguém desenvolveu aqui em Coimbra, e merda, não fui eu a fazê-lo e não o deveria ter divulgado! O problema desses ficheiros são exactamente as coisas que ainda não fiz. Já me aconteceu passar por essa situação diversas vezes, mas uma das vezes em que fiquei mesmo chateado foi quando constatei que também no meu ficheiro estava o projecto "sacos de plástico a voar".
"American Beauty"...
Sim!! Imagina o quão chateado fiquei com isso?! Tinha esse projecto desde 1997, e depois saiu esse filme! Já não pude fazer nada com sacos de plástico a voar, pois toda a gente iria dizer: "Oh, American Beauty"! Parecia tão perfeito, sacos de plástico a voar... É por isso que não posso revelar os meus projectos futuros, ainda resultam num filme de Hollywood e depois fico lixado! Mas pode sempre subscrever o meu site, ter acesso aos meus projectos e fazer o "American Beauty 2". Sacos de plástico nadadores! Não esse não é um bom projecto, o outro sim era.
Porque o considerava um bom projecto?
Sacos plásticos voadores em cidades é uma experiência comum. Todos aqueles que vivem numa cidade no século XXI, têm essa experiência. Todos nós ao andarmos de carro ou de autocarro, vimos esses sacos de plástico a girar e a voar. Juntem-se-lhes algumas folhas à sua volta, e parecem estar a fazer uma dança entre o terceiro e o primeiro andar de um prédio. Portanto, é uma experiência comum, algo de comunicável, do qual podes fazer uma frase ou mesmo uma metáfora, e penso que essa é a sua particularidade mais interessante, o ter-se a possibilidade de fazer disso uma metáfora. Criando uma metáfora a partir disso, tens a oportunidade de extrair algo de ti mesmo, de dizer alguma coisa sobre o mundo, por exemplo. A ideia principal do "American Beauty" é a sua metáfora. E como poderei dizer que era eu e não Hollywood que queria criar algo a partir disso? Era péssimo, era o mesmo que dizer que tinha sido eu quem tinha inventado o Rato Mickey, ninguém acreditaria!
Acredita que determinadas coisas só podem ser expressas através de metáforas?
Toda a linguagem é metafórica. Existem diferentes estórias acerca da linguagem original. Concordo em geral com a teoria que afirma que a essência da linguagem é o corpo, e que a criação da linguagem é similar à forma como os cogumelos se multiplicam, ou seja, através de metáforas relacionadas com o corpo. Sabia que os maiores organismos do mundo são os cogumelos? Basicamente os seres vivos que existem na Terra são animais, plantas e cogumelos. Os cogumelos são organismos completamente distintos dos outros, são os maiores organismos de todos. No Canadá chegam a atingir dimensões de quatro quilómetros quadrado, isto apenas um único organismo! Todo este sistema é subterrâneo, e ainda que tenhamos a ideia de que os cogumelos são algo que cresce do chão, na realidade todo esse processo decorre debaixo do chão. Geneticamente o mesmo organismo é subterrâneo é por isso que se tem de ter muito cuidado ao colher o cogumelo, tem de se girá-lo um pouco, e certificar que está a colher todo o organismo para que este possa viver centenas de anos, sendo geneticamente exactamente o mesmo, podendo atingir vários quilómetros quadrados. Isto é interessante por diferentes motivos, motivos algo anarquistas. John Cage esteve completamente fascinado por cogumelos, e a teoria dos cogumelos esteve mesmo presente nas suas composições, porque representam uma forma não hierárquica de organizar a sociedade. As plantas são normalmente os símbolos utilizados para descrever as várias formas de disposição hierárquica das sociedades, através das raízes, do caule, das folhas, etc. Os cogumelos representam uma ideia completamente diferente, mas são uma metáfora igualmente importante, surgem em sítios distintos, são organismos vastos que não morrem se os colheres. Numa composição de John Cage referia-se a ideia de estes não estarem organizados verticalmente tal como as plantas estão, mas sim horizontalmente.
Que música tem ouvido ultimamente?
Não costumo ouvir muita música. O último disco que comprei foi o mais recente do Leonard Cohen, e revelou-se muito desapontante. É interessante a ideia subjacente de pedaços de canções estarem por vezes intercalados e partes de letras se repetirem em diferentes canções, mas no geral é um disco fraco, a maioria das ideias musicais são muito fracas. A única coisa que realmente me agradou, é a afirmação implícita de que este é o último disco da sua carreira, como se este homem dissesse "parem de gostar de mim". Gosto bastante dessa afirmação. Este homem já é idoso, tem o direito de o ser, compôs muitos discos com música maravilhosa, e agora faz este disco completamente superfluído. E talvez quisesse que assim o fosse.
Gosto sim muito, de um músico chamado Abet Aizri, o qual possui uma voz lindíssima e letras muito boas, geralmente escritas em árabe. Há uns tempos fiz uma pesquisa sobre ele na net, e obtive a informação dum disco chamado "Trans Compilation Global qualquer coisa...", no qual também consta um tema dos Madredeus. Comprei-o e escutei-o diversas vezes, mas apenas porque tinha esse músico. Não sei quase nada acerca de música pop. Não é que não goste, apenas deixei de acompanhar, deixei de ler publicações sobre música, não sei o que está na moda nem o que é interessante, e há séculos que não vou a um concerto. Adoraria ouvir coisas que me interessassem, mas devo confessar que ando mais interessado em deteriorar material que a conservá-lo. Ando mesmo a trabalhar, juntamente com a minha mulher, num programa de computador que tem a capacidade de assimilar material e progressivamente deteriorá-lo. Assim, posso pegar num tema dos Madredeus por exemplo, e dar-lhe diferentes parâmetros para a temperatura e humidade, e depois observar a sua deterioração em tempo real. Ou imagine que coloco o "My Sweet Lord" do George Harisson no programa, com a humidade a sessenta por cento, e observo em tempo real a sua deterioração. O que restará disto em cerca de três meses? Como se alterará? Como irão os vermes comer as palavras e a música? Melhor, como soará isto daqui a dois anos? Podemos também pegar no primeiro álbum dos Madredeus, aquele que o Wim Wenders utilizou no seu filme, e observar o que acontece se o enterrarmos junto com o "My Sweet Lord". Os vermes irão deteriorar ambos, e será interessante observar o que irá surgir após digestão que irão fazer deles. Estou de facto muito mais interessado no processo de deterioração de música, que no de composição. Penso que existe música a mais. Seríamos todos mais felizes se pudéssemos reduzir a quantidade de música que existe. Pense no que aconteceria aos toques de telemóvel se os conseguisse deteriorar, tornavam-se muito mais curtos. Estou no fundo a falar de vírus e de decomposição, criar húmus no verdadeiro sentido da palavra, e a partir disso gerar algo novo. Para isso precisamos de deteriorar esta crescente quantidade de merda e transformá-la.
Ana Gandum
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