BOBBY CONN
MÚSICO OU MITO?
Bobby Conn e a guerra, a religião, a música, a vida. Um americano comum preocupado com o futuro do seu país e do mundo. Um homem afável e com um delicioso sentido de humor negro, que veste a pele de um músico excêntrico, e que está constantemente a atravessar a fronteira entre o real, o imaginário e o irónico. Um portento musical muitas vezes incompreendido, que acabou de lançar o seu quarto álbum, “The Homeland”. Álbum que vai apresentar a solo e ao vivo dia 15 de Abril, no Lux, em Lisboa. A não perder: o disco, o concerto e, já agora, esta entrevista.
Para começar, porquê Bobby Conn & The Glass Gypsies? Por este disco soar muito mais a um disco de banda do que os anteriores.
Porque é de facto um disco de banda. É a banda que me acompanhou na digressão de "The Golden Age", e que foi muito bem sucedida. Por isso decidi não fazer o que costumo fazer, que é convidar uma série de músicos para colaborar nas gravações. Em “The Homeland” construímos as canções em grupo. Foi muito divertido desta maneira, porque todos contribuíram com a sua personalidade para fazer um disco muito passado.
É então uma banda para o futuro?
Espero que sim.
Falando da sua música, ela pode ser caracterizada por uma aproximação do Séc. XXI aos anos 70, com aproximações que lembram T-Rex, David Bowie e até Van Halen. Pode-se dizer que é um "classic rocker"?
Sim... Eu cresci com essa música. Não é o facto de eu querer ou não ser um "classic rocker". Simplesmente aquilo subiu-me à cabeça. As pessoas estão muito familiarizadas com esse tipo de sonoridades e eu gosto de as recontextualizar com uma nova mensagem. Para mim é interessante misturar o glam rock e o disco sound para criar um disco de protesto. É uma contradição que me agrada.
Isso vai de encontro à próxima pergunta. Existe um certo som “retro” na sua música, mas as letras são de uma grande actualidade e pertinência. Como é que cria essa mistura?
Não me considero um artista retro. Uso as letras mais como uma forma de reflectir a cultura tal como ela é actualmente. E o mundo em que eu vivo, o qual me tem desiludido muito. No fundo, é tentar enfiar toda uma cultura popular numa música e num disco, o que é um trabalho difícil.
Mas como já disse atrás, este é um disco de protesto. Nomeadamente contra os EUA.
Mais do que protesto, é tentar apontar a absurdidade das coisas. E a sensação de paranóia que significa ser americano hoje em dia. Somos um grupo muito paranóico de pessoas.
Considera-se, nomeadamente neste disco, uma espécie de consciência americana?
Sim... Eu estou muito triste... Eu minto a toda a hora. Não sou definitivamente uma pessoa íntegra. Mas ofende-me as pessoas que dizem que o são, como a administração Bush, e que acabam por mentir sobre coisas que são muito mais importantes, como a guerra, os impostos, a segurança social. Eu sou um simples comediante e entertainer. Não é muito relevante que eu seja íntegro. Mas estes senhores, que deviam ter integridade, são uns grandes hipócritas. Isso irrita-me. Deviam deixar o cinismo para os artistas e entertainers.
Neste sentido, tem letras mortíferas no disco, como por exemplo quando diz "we are your friends, we come in peace, we brought our guns to set you free". O que é uma clara alusão à guerra dos EUA contra o terrorismo. Como americano, qual é a sua opinião sobre a “cruzada” americana contra o terrorismo?
Acho que temos de fazer alguma coisa definitivamente. Não é o facto de estarmos a tentar encontrar o Bin Laden e a prevenir actos terroristas em solo americano e em todo o mundo. O que as nações europeias também estão a tentar fazer. O que eu não percebo é a Guerra do Iraque, que não tem nada a ver com o terrorismo, nem com libertação. É somente a prepotência da administração Bush, e o facto deles assumirem que tudo o que fazem é o que está certo e que quem não está de acordo é que está errado. Não há nenhuma possibilidade de discutir e estabelecer um diálogo sobre as motivações e razões para tomar uma determinada acção. Eles simplesmente dizem: "é a coisa certa a fazer e nós vamos fazê-la. Saiam da frente". É uma forma autoritária e quase fascista e fazer as coisas.
Viu "Bowling For Columbine"? Algumas das letras de "The Homeland" podiam perfeitamente encaixar-se no espírito deste filme, como por exemplo quando diz "I'm free to live my life in constant fear".
Eu escrevi essa música antes de ver o filme. Mas quando o vi, encontrei de factos muitas semelhanças. De facto, os americanos vivem em constante paranóia sobre os vizinhos, em todos os sentidos. As pessoas parece que têm de estar sempre alerta. Não há razão para isso.
Neste disco chega a comparar os EUA a outros «impérios» do passado. Acha que tal como o Império Romano, também o Império Americano vai inevitavelmente cair?
Sim. Tal como o Império Inglês se teve de encolher e tantos outros impérios europeus: a União Soviética. O Império Americano vai ter de se adaptar, porque a quantidade de recursos que utilizamos às custas do resto do mundo não é sustentável. Mas espero que não me apareça às portas uma revolução violenta com bárbaros. Porque não deixo de me sentir confortável na minha pequena parte do Império Americano. E é por isso que por muito que critique a prepotência dos líderes americanos, tento sempre não parecer eu próprio prepotente naquilo que escrevo. Porque eu partilho demasiadamente os frutos deste imperialismo para poder negar o facto de ser um beneficiário do tráfico imperialista. É difícil ser americano e ser sensível a estas coisas, porque eu gosto do meu país e não quero ver as coisas chegarem ao ponto em que o resto do mundo tenha medo de nós e nos odeie.
A torre babeliana na capa de "The Homeland" tem alguma coisa a ver com esta questão imperialista?
É a torre dos Elders, uma espécie de culto maçónico extraterrestre que há vários milhares de anos veio à Terra para corromper a humanidade. Foram eles que construíram as pirâmides do Egipto. Têm sistemas integrados na nave-mãe que alimentam o grande olho para que ele possa descer sobre nós e guiar-nos. Também foram os Elders que inventaram o golfe.
Golfe que também está na capa do disco.
Não é coincidência que os ricos e poderosos deste mundo joguem este jogo algo inócuo. Dar pancadas em pequenas bolas para acertar em pequenos buracos. Usam uma enorme quantidade de espaço que podia ser utilizada para construir casas, para a agricultura, para a natureza.
Também temos esse problema em Portugal.
Estamos inundados por campos de golfe. É uma conspiração. Mas ao mesmo é um jogo fabuloso que dá muito gozo jogar. Nós gostamos de pegar no nosso helicóptero e voar por esses campos de golfe fora...
Isso também faz parte do «sonho americano». Tal como "Home Sweet Home", uma maravilhosa balada épica sobre o «sonho americano» e um dos meus temas preferidos do álbum. Como é que esta canção surgiu?
Basicamente tentei entrar na mente de uma pessoa que vê muita televisão o dia inteiro, que acaba por perder contacto com a realidade e acreditar que é uma personagem da televisão cheia de armas, que sai de casa e... usa-as... Eu próprio costumo perder-me na fronteira entre a fantasia e a realidade. Deixo a minha mente viajar até aos extremos, ao ponto atingir a histeria. E depois é ver o que sai. Gostava de fazer uma curta-metragem sobre essa canção.
Devia fazê-la.
Só me falta o dinheiro.
Fechando o tema da política, como é que vê as próximas eleições americanas?
Eu estou bastante optimista. Apesar dos americanos estarem um bocado apáticos face à política, não existe um verdadeiro amor pelo senhor Bush. São cada vez menos os que confiam e acreditam nele. É muito provável que ele venha a cair. Pelo menos ele deixa que as eleições se realizem. Ele não é obviamente um democrata, no sentido de acreditar em eleições, "fair-play" e esse tipo de coisas.
A religião também é um tópico que costuma abordar. Acha realmente que a nossa sociedade cristã se resume a um "franchising" de Jesus Cristo?
Uma boa parte da América, sim. A que se transformou num filme de Hollywood incrivelmente violento. A parte da vida de Cristo que menos serve para melhorar o mundo é a que é retratada no filme do Mel Gibson. Era muito mais interessante fazer um filme em que se visse Jesus como um revolucionário.
Como em "A Última Tentação de Cristo" de Scorcese?
O filme de Scorcese fala de Jesus como um ser humano em conflito consigo próprio. O que é interessante. Mas eu gostava era de ver Jesus como um rebelde, um líder revolucionário da História, que acabou por alienar tanto os que lhe estavam próximos como os opressores. É uma história triste. Mas se aceitarmos que ele é divino, até é um final feliz. Em todo o caso, há muito poucos épicos sobre Jesus que abordam a sua dimensão política. A grande maioria dos cristãos americanos só vê em Jesus o que não interessa, como por exemplo a cruzada contra a homossexualidade. Também o vêem como um jogador de golfe. O que ele claramente não é.
Continuando no cristianismo, muitas vezes quando se lê algo sobre Bobby Conn, surgem coisas extraordinárias e mal entendidos, como a história de ser o Anti-Cristo, ou de ter recebido ameaças de morte, ou de ter estado preso. São histórias verdadeiras, ou é a sua estratégia para alimentar a imprensa?
A maior parte são rumores maliciosos, alimentados pelos meus inimigos. Outras reflectem o erro em que certas pessoas caem, ao assumirem como definitivas e literais algumas afirmações que fiz há dez anos atrás, quando era uma pessoa muito mais confusa do que sou agora.
Então acha que é levado a sério ou não? Se é que isso lhe interessa.
Eu sou um enterneiner e, como tal, as pessoas escrevem sobre aquilo que faço. Basicamente, eu não acredito muito naquilo que as celebridades dizem, incluindo-me a mim próprio.
Mas não acha que de certo modo é ignorado pela imprensa, no sentido de que a sua música merecia ter uma audiência mais vasta do que vai ter?
Já fiz muitas entrevistas para este disco, mas era bom ter uma maior divulgação na rádio. Não é por isso que não vamos continuar a trabalhar, trabalho que me dá muito prazer. Por falar nisso, vou fazer uma digressão pela Europa e vou tocar em Lisboa em Abril. Infelizmente vou ser eu sozinho a fazer figura de parvo, mas vou tocar a maioria das músicas do novo disco. Vai ser maior e melhor do que da última vez que aí estive. Também vamos fazer agora uma digressão com os Trans Am.
Por falar nisso, o que é que achou desse concerto em Lisboa?
Adorei. Toda a digressão foi excelente. Foi a primeira vez que conheci e toquei com muitas das bandas da Thrill Jockey, muitas das quais não vivem em Chicago. Lisboa é uma cidade muito bonita. Comi uma das melhores refeições e bebi um dos melhores vinhos de toda a viagem. Há uma mudança cultural em tocar na Europa que me agrada.
Sendo pai de uma criança de dois anos, como é que concilia o trabalho e a vida pessoal?
De momento, trazemo-lo sempre connosco e ele adora. Mais tarde, quando ele já não estiver para aí virado, logo se vê.
Como é que o seu filho olha para si enquanto músico?
Provavelmente acha que somos a melhor banda do mundo. Ele até toca bateria durante os sound-checks. Enquanto ele estiver feliz, eu tenho todo o prazer em tê-lo comigo. Era bom que os meus pais me tivessem incluído mais vezes no trabalho deles, pelo menos tanto como tentamos fazer com o Augie.
Como é que ter um filho alterou a sua vida? Porque musicalmente "The Homeland" é mais directo e linear do que os discos anteriores.
Só espero que não seja linear ao ponto de se tornar desinteressante. A verdade é que a minha adolescência acabou. Aos 36 anos, acho que finalmente sou um adulto. Ter uma criança teve de facto uma grande influência. Temos de sacrificar muitas coisas. Pelo menos as drogas. O que até não é mau. Eu já andava a tentar deixar há algum tempo.
Para acabar, sendo de Chicago qual é a sua opinião sobre a chamada cena pós-rock de Chicago?
É simplesmente um excelente conjunto de músicos, com quem já trabalhei muitas vezes. Mas ninguém aqui leva muito a sério a expressão enquanto estilo musical. Até tem muitos críticos. O que é certo é que aqui ninguém está farto de rock. E eu muito menos.
Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 18)
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