Entrevistas
BONNIE PRINCE BILLY
O PRÍNCEPE (DES)ENCANTADO
Bonnie Prince Billy é um músico genial e, como todos os génios, tem um pouco de louco, como se pode constatar na entrevista que concedeu à Mondo Bizarre. Apesar da sua música ser a mais aprazível e introspectiva que se pode ouvir no country alternativo americano, do qual o seu mais recente registo “Master and Everyone” é um excelente exemplo.

Bonnie Prince Billy, aka Will Oldham, aka Palace Brothers, aka Palace Music, aka Bonny Billy, não gosta que lhe perguntemos a razão do nome musical que adopta na actualidade. Mas revela que tem mudado constantemente, porque defende a ideia de que “cada disco deve ter uma vida própria. Mas como as pessoas se preocupam cada vez mais com os rótulos, e para ver se acabam com as perguntas sobre os nomes que utilizo, por agora vou ficar com Bonny.” Aliás, esta ideia já vem desde os tempos dos Palace Music, que “mais não era do que um nome adoptado em alguns discos, simplesmente porque as lojas exigiam nomes para as bandas, por forma a poderem catalogá-las nas suas prateleiras”.

Esta mudança na nomenclatura não se reflecte contudo na homogeneidade da música que faz há mais de 10 anos e que tem um novo ponto alto em “Master and Everyone”, o terceiro álbum que grava como Bonnie Prince Billy. Uma música que “dentro dos limites do disco se resume ao essencial”. Uma música que muitas das vezes não necessita de ir além de uma voz trémula e uma guitarra embaladora. Uma música redentora, no sentido religioso do termo, já que tal como acontece com a sua música, a “religião é o tipo de coisa sobre a qual não temos qualquer tipo de escolha”. Uma música que já é estranhamente familiar, de tal modo que à segunda audição de “Master and Everyone”, e até logo à primeira, já se está a cantarolar os versos do disco. Talvez porque Bonnie Prince Billy seja um excelente contador de histórias. Mas se esta constatação não deixa de surpreender o músico, basta ouvir o inolvidável “The Way” para se perceber do que estamos a falar. Aliás, que melhor abertura se podia querer para um álbum de Bonnie Prince Billy do que um dos melhores temas que o músico alguma vez compôs? Para não mencionar outras pérolas que ficam para a história como o caloroso “Ain't You Wealthy, Ain't You Wise?” e o obscuro “Wolf Among Wolves”.

A excentricidade de Bonnie Prince Billy revela-se de novo na capa de “Master and Everyone”, onde ele surge em grande plano e com uma farta barba, tal como um eremita ou um Fausto dos tempos modernos. Perante tal altercação, o músico admite que de facto está cá para “destruir o mundo e salvar almas”. Contradição que também se reflecte no refrão do tema que dá título ao álbum: “servant of all and servant to none”. Um músico de opostos? “O tempo o dirá.”

Para além de ser encantador e enternecedor, o único pecado de “Master and Everyone” está nos escassos 10 temas em pouco mais de meia hora. Reza a lenda que Bonnie Prince Billy deixou de fora algumas músicas, com receio de que as pessoas gostassem demasiado delas. O músico é taxativo: “a brevidade é alma do talento”. Mas lá revela que “há uma música sobre o acto de sonhar que optei por não colocar no disco... talvez porque não esteja ainda acabada”. Naturalmente, ficamos na dúvida quanto à veracidade da resposta.

Onde o músico não poupa é no vasto leque de artistas com quem colabora, já que para ele “é agradável tocar com pessoas diferentes”. Uma lista que cresce de disco para disco, definida segundo critérios de “habilidade, geografia, disponibilidade, fluência e prodígio”. Refira-se que no presente caso as vítimas foram alguns dos elementos dos Lambchop, incluindo o produtor/guitarrista Mark Nevers. Banda que a par de uns Smog, de uns Silver Jews, de uns Freakwater, e claro está do próprio Bonnie Prince Billy, tem contribuído para uma mudança na forma como as pessoas encaram a música country, deixando de a considerar uma coisa de cowboys e hillbillys, e atribuindo-lhe um carácter étnico. Quando confrontado com a eventual responsabilidade da sua música nesta mudança, Bonnie Prince Billy esquiva-se a qualquer tipo de categorização ou louvor: “tu é que sabes!”. Esta suposta indiferença - perante a qual nunca sabemos se está de facto a ser honesto ou simplesmente a cumprir os fretes a que o marketing das editoras obriga - não apaga contudo o facto de Bonnie Prince Billy já ter sido alvo de grandes louvores da parte de músicos de nomeada como Nick Cave ou PJ Harvey. O que não o impressiona por aí além: “eu não quero dar entrevistas nem tirar mais fotos. Só quero vender mais discos.”

No cômputo geral, e dado ser um registo mais minimal e atmosférico que os anteriores, “Master and Everyone” denota um certo regresso às origens das sonoridades dos Palace, nomeadamente de “Arise Therefore”, o que o próprio músico reconhece: “sinto semelhanças com esse disco, se não sonoramente pelo menos na temática”. Mas se as letras continuam a ser marcadamente negras, no geral, “Master and Everyone” é mais positivo do que registos anteriores, como por exemplo “I See A Darkness”. Quando mencionamos a excepção do tema “Lessons From What's Poor” - onde se pode ouvir “wealth is death, off that I’m sure” - Bonnie Prince Billy retalia ironicamente, como em quase todas as respostas da entrevista: “e eu que pensava que a maioria das pessoas iria achar a frase “wealth is death” bastante animadora”. Mas já não é tão irónico, revelando mesmo alguma irritação, quando procuramos descortinar elementos autobiográficos na canção “Hard Life”, onde ele diz que é um homem com quem por vezes é difícil viver. A coisa suaviza-se quando lhe perguntamos sobre a relação da sua mulher e filhos com a música que faz: “eles avaliam-me e acusam-me quando necessário. Mas são sempre muito amorosos. A minha mulher é a principal impulsionadora do negócio”. Aliás, Bonnie Prince Billy reconhece que a música é não só a sua identidade como o seu sustento.

Musicalmente, e para o futuro, o que mais podemos esperar das várias incarnações de Bonnie Prince Billy, Will Oldham, Palace, etc.? De novo uma resposta inconclusiva: “o que mais podem elas dar?”. Se o próprio não tem certezas, lançamos nós alguns desejos: novas colaborações com David Pajo (Papa M) e Mick Turner (Marquis de Tren), e quem sabe um regresso a Portugal e a Lisboa, cidade da qual Bonnie Prince Billy guarda excelentes recordações aquando do concerto que deu por cá em 2001: “honestamente, Lisboa foi o melhor concerto que demos na Europa. E o menos formal. Um espaço onde a audiência esteve ao mesmo nível dos músicos”.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 14)