BRANT BJORK
O Deserto Electrificado
“Ain’t nothing gonna stop the rock tonight” canta Brant Bjork em “Hinda 65”, o tema de abertura do seu segundo álbum a solo “Brant Bjork & The Operators”. O ex-baterista dos Kuyss e dos Fu Manchu investe agora todas a sua energia e criatividade numa carreira em nome próprio, onde o rock se funde com uma paleta de estilos, fazendo com que cada tema soe retro e actual ao mesmo tempo.
Como foi o tempo que se seguiu à sua saída dos Kyuss?
Já foi há tanto tempo que já nem me lembro bem... Cheguei a tocar guitarra com os Fatso Jetson durante pouco mais de seis meses. Eles são meus amigos há muito tempo já que cresci com o Mario Lalli. Foi puramente pela diversão, na altura não estava a fazer mais nada e foi uma boa maneira de me manter ocupado.
Não é muito normal ver-se um baterista aventurar-se numa carreira a solo. O que o levou a entrar em estúdio e a gravar um disco como "Jalamanta"?
Eu nunca me vi apenas como um baterista. Sempre me vi como um musico e um apaixonado pela música. Eu tinha muitas musicas dentro de mim e muitos conceitos para discos. Eu adoro discos, adoro música, adoro fazer discos, por isso não havia nenhuma razão para não o fazer. Estava a escrever muitas canções para outras bandas em que participava e sendo apenas o baterista às vezes pode tornar-se frustrante quando queremos ser compositores, porque só querem que mantenhamos o ritmo. (risos) Mas eu esperei pacientemente até achar que era a altura certa para me poder exprimir num disco.
Provavelmente a maioria das pessoas esperava um disco de baterista. E o resultado não pode estar mais longe disso...
Não sei ao certo o que as pessoas esperavam... Obviamente também não me importava com isso. Os fãs que me conheciam e que sabiam o que tinha alcançado até então com os Kyuss e os Fu Manchu sabiam que já tinha escrito uma série de temas e que sempre estive envolvido no processo de criação dessas bandas. Agora podem ter ficado um pouco surpreendidos mas no fundo sabiam que nunca iria fazer um disco cheio de solos de bateria... Quando estou a gravar um disco não faço a abordagem do ponto de vista de um baterista. A minha abordagem é a de um produtor que toca o instrumento. Por isso toco o instrumento da maneira que espero que seja tocado nesse tema em particular e no álbum em geral. Sempre fiz isso em todas as bandas em que toquei. A minha filosofia como baterista foi sempre perguntar o que posso fazer para que o tema soe da melhor maneira. Não me pretendo evidenciar como musico em nenhuma área especial. Quero que os temas soem bem e que façam sentir bem que os ouve. Na maioria dos casos a simplicidade é a melhor opção. Também pode ser visto como um desafio, colocar-me numa posição diferente da do baterista e tocar algo que normalmente não costumo tocar.
Apesar de muitos músicos tocarem vários instrumentos, nem todos têm a coragem para enfrentar o microfone e cantar. Como foi a experiência de gravar a sua voz?
Como qualquer pessoa eu sempre cantei para mim mesmo, mas penso que antes do "Jalamanta" nunca tinha gravado a minha voz no contexto de cantar. Foi muito duro mas foi muito bonito. Fiquei muito entusiasmado com o desafio e desde então não tenho parado de cantar. Eu sempre quis cantar, não tenho medo de o fazer e penso que a cada gravação me sinto mais à vontade.
Porque abandonou os Fu Manchu? Chegou a ser falado que preferiu concentrar-se na sua música. É verdade?
Sim, para mim chegou a altura de me concentrar na minha música. Basicamente eu já tinha expresso e alcançado tudo o que queria com os Fu Manchu. O meu trabalho estava feito e era altura de seguir em frente. A música era boa, mas os Fu Manchu são uma banda de rock'n'roll unidimensional, e é aí que reside a sua beleza. Eles fazem um estilo de música particular e fazem-no bem. Foi fantástico e eu sempre me diverti, mas a música que ouço e que me inspira vai muito para além disso, do grande mundo do rock.
É preciso ter alguma fé e acreditar muito no seu trabalho a solo para trocar um trabalho certo como baterista de uma banda como os Fu Manchu para se concentra numa carreira a solo.
Sim, era um emprego certo e um ordenado certo. Às vezes é um pouco assustador abandonar uma situação de segurança como essa, especialmente em termos financeiros, mas acredito em mim e sei que o que estou a fazer está correcto e penso que tudo vai correr bem.
Chegou a especular-se que poderia vir a gravar alguns temas do novo disco dos Queens Of The Stone Age e a tocar com eles ao vivo.
Eles são grandes amigos meus e gostamos sempre de tocar juntos em qualquer circunstância. Chegou a falar-se que eles talvez precisassem de um baterista para a digressão do novo disco. Mas ainda assim eu não estava preparado para me comprometer com eles. Pensei que esta era a minha oportunidade para me concentrar no meu trabalho a solo e tentar fazer com que as coisas resultassem para o meu lado.
Depois de ter gravado o disco dos Ché com o produtor Mathias Schneeberger, voltou a trabalhar com ele no novo disco. O que o levou a trabalhar com ele novamente?
Existe uma certa química entre nós. Ele é um engenheiro de som muito prolífico, tem um ouvido excelente, compreende de onde venho em termos artísticos, tem muita paciência e, acima de tudo, confia em mim. É importante sentirmo-nos confortáveis no processo de criação de um disco. Eu dou-lhe o espaço necessário para ele se exprimir criativamente como engenheiro e ele faz o mesmo comigo como artista. Ele também tocou teclas no disco e foi muito interessante porque ele também se sentiu criativo.
Entre os seus dois discos a solo surgiram os Ché, em parceria com o Alfredo Hernández (Kyuss, QOTSA) e Dave Dinsmore (Unida). Como é que surgiu esse projecto. Alguma vez pensaram que seria uma banda a sério ou foi pensado para ser apenas uma desculpa para gravarem algo juntos?
O projecto Ché surgiu por acaso. Eu sabia que ia ser um bom disco porque estava a trabalhar com dois excelentes músicos. Tinha a cabeça cheia de temas que sabia que nós os três iríamos transformar em boas canções. Para ser sincero acho que antes de gravarmos o disco só ensaiamos os temas umas quinze vezes. O timing para a concretização desse projecto também foi fundamental porque o Alfredo Hernández tinha saído dos Queens Of The Stone Age, o Dave Dinsmore tinha abandonado os Unida e eu estava entre digressões com os Fu Manchu e tinha algumas ideias que queria exprimir. O Frank Kozik, que na altura tinha a Man's Ruin, disse-nos que estava disposto a editar o disco se o fizéssemos e fomos em frente. Pouco depois das gravações cada um seguiu em direcções separadas e isso foi o fim dos Ché. Hoje em dia, quando actuo com a minha banda tocamos alguns temas dos Che, acho que seria impensável deixar de lado temas tão bons...
O novo álbum foi gravado no final de 2000. Demorou tanto tempo a ser editado devido aos seus compromissos com os Fu Manchu?
O que se passou foi que eu estava a tentar formar a minha própria editora, e tinha encontrado um investidor que no último minuto não pode completar o negócio. Isso fez com que a edição fosse atrasada um ano já que estive doze meses para conseguir arranjar outra maneira de editar o disco nos Estados Unidos e arranjar uma editora na Europa alguém que fizesse o licenciamento. Foi um pouco frustrante porque eu trabalho depressa e já tenho uma série de ideias delineadas para outros discos.
Dedicou este disco ao Joey Ramone. Até que ponto é que ele foi uma influência importante para si como músico?
Os Ramones foram a primeira banda a quem me dediquei por completo como fã. Eles é que me deram a inspiração para ser musico, para gostar de rock’n’roll Foram uma grande influência a vários níveis. O Joey Ramone para mim significava uma pessoa que se tinha dedicado a uma forma de arte que escolheu como forma de vida.
Apesar do disco estar creditado como Brant Bjork & The Operators, gravou a maioria dos temas sozinho. Será então uma ironia ou já estaria a pensar na banda que o acompanharia em concerto?
É um pouco um disco conceptual. Quando entrei em estúdio os temas estavam prontos a serem gravados e na altura comecei a brincar com a ideia de fingir que tinha uma banda real a tocar comigo em estúdio, como os Attractions do Elvis Costello ou os Wailers do Bob Marley. Comecei a imaginar como é que a minha banda soaria se tocasse os temas que tinha escrito. E foi divertido recriar os temas como se realmente houvesse uma banda chamada The Operators.
Como costuma compor os seus temas?
No que respeita ao meu trabalho a solo eu escrevo a maioria dos temas sozinho, seja a partir de uma melodia que escrevo para guitarra ou que trauteio com a voz. Às vezes pode ser um ritmo a partir do qual começo a trabalhar. Não tenho uma formula fixa de escrever canções. Quando estou numa jam session com outros músicos é um processo criativo completamente diferente. Interagir com outros músicos é algo que também me agrada. Gosto de escrever canções assim, mas neste momento sou bastante auto-suficiente.
Neste disco utilizou as teclas de uma maneira mais evidente do que no passado. Foi sugestão do produtor ou simplesmente tentou fazer algo diferente?
Foi ideia de ambos. Por um lado queria trazer novos elementos à minha música e o como o Mathias é um excelente teclista aproveitámos essa qualidade para dar outra vida aos temas.
Para além da sua carreira a solo está a trabalhar em outros projectos?
Não, neste momento concentrei as minhas energias em ensaiar com os músicos que fazem parte da banda que me vai acompanhar ao vivo. Para além disso estou a gravar um disco com versões dos meus temas de reggae e rocksteady preferidos.
A sua editora, Duna Records, surgiu da necessidade controlar o destino da sua música?
Ter uma editora sempre foi um sonho para mim. Existem muitos artistas e bandas que gosto que talvez um dia os possa editar. Acima de tudo gosto de ser auto-suficiente. Gosto de poder tomar conta da minha música e não ter de confiar noutras pessoas.
Para além do seu disco está a empenhado na reedição de discos dos Solarfeast e De-Con, bandas que fizeram parte da chamada Desert Scene. Essa cena existiu ou foi algo inventado pela imprensa para situar os Kyuss?
Sempre houve uma desert scene. Desde há vinte anos que há bandas do deserto a fazer coisas interessantes. Em meados dos anos 90 eu tinha uma editora chamada El Camino e editamos os discos dos Solarfeast e dos De-Con. Quando a Duna foi criada não achei que houvesse problema algum em relançar esses dois discos.
Antes de fazer parte dos Fu Manchu, produziu-lhes um disco. A produção é uma actividade que o fascina?
Eu adoro produzir. Há uma série de bandas que me pediram para os ajudar. Ainda não tive tempo de o fazer porque estou muito ocupado em tentar promover a minha música, mas num futuro próximo espero poder trabalhar na produção de discos de algumas bandas de que gosto.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 12)
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