Entrevistas
BRIGHT EYES
COM UM BRILHOZINHO NOS OLHOS...
A simpatia de Connor Oberst, (directamente da estrada onde se encontra a promover “Lifted Or The Story Is In The Soil, Keep Your Ear To The Ground”, o mais recente disco dos Bright Eyes), originou uma interessante conversa onde sem supostos traumas indie-rock foram naturalmente abordadas opiniões sobre a arte, politíca, deus e claro o amor. A aguardar futuras intervenções musicais, bem como uma passagem por Portugal.

Pode falar-nos um pouco acerca do processo de gravação de “Lifted Or The Story Is In The Soil, Keep Your Ear To The Ground”?
Claro. Começámos com cinco bateristas a tocarem um som de bateria tipo marcha, banda “filarmónica”. A seguir surgiram os arranjos nos quais trabalhámos, e fluindo de modo natural tentámos juntar tudo de modo a que fizésse sentido, o que demorou cerca de dois meses.

Esses temas foram compostos préviamente, mostrando-os posteriormente aos restantes músicos já no estúdio?
Sim, sim. Fiz uma demo do disco algumas vezes na minha casa através dum formato muito desregrado, e posteriormente, com a ajuda desses músicos, pego nessa ideia e torno-a de certo modo melhor. Algo que me faz estar aberto a colaborações.

São uma grande comunidade de amigos que se juntam para tocar?
Sim, sim, isso é o melhor de tudo. Somos amigos, damo-nos bem e todos nos preocupamos com a música.

Foi a partir dessa comunidade que nasceu a editora Saddle Creek?
Exacto. Foi uma editora que fundámos quando éramos muito novos tornando-se gradualmente algo mais sério, mas funcionando com o mesmo grupo de amigos que gostam de lançar discos.

Começou a compôr música logo aos treze anos. Lembra-se do primeiro disco que o marcou?
Lembro-me de estar para aí no sexto ano e do meu irmão me oferecer uma cassete do “Standing On The Beach” dos Cure. Foi um dos primeiros discos que tive na minha posse, pois ainda que sempre tenha ouvido música ,até aí tinha-o feito de um modo mais passivo, ouvia o que estava a rodar na aparelhagem do meu irmão, por exemplo.

Em termos musicais é um auto-didacta?
Sim, mas praticamente só toco guitarra, piano e orgão. Também toco outras coisas mas bastante mal, mas graças a Deus que para isso tenho os meus amigos!

A dúvida religiosa é algo que está presente no seu último disco. Por vezes as pessoas que mais pensam em teologia mais dificuldade têm em acreditar na existência de uma entidade divina...
Sim, concordo com isso. As religiões organizadas não fazem sentido para mim, percebo o motivo da sua existência mas parece-me que são o oposto da verdadeira espiritualidade, a que de facto tem uma ligação real com este mundo, parecem-me ter mais a ver com ordem social ou tradição, e causam muita merda também (risos). Tento acreditar na beleza.

Aprópria religião pode tornar-se uma forma de arte e convivío, não acha?
Sim, com certeza.Sei que estou a falar apenas por mim próprio, pois existem outras pessoas que tiram muito da religião e precisam dela para justificar a sua existência.

E não considera estranho haver pessoas que pensam muito sobre estas questões, e ainda assim acreditam no dogma, mesmo quando vêem que este emergiu dum dado contexto histórico-sociológico?
É estranho, sobretudo quando nos informamos sobre religiões nas quais não fomos educados e temos uma imensa dificuldade em aceitar um dogma especifíco. Para mim isso é muito mais estranho do que acreditar somente em Deus, porque parece que as pessoas necessitam de uma norma para viver, que lhe digam o que é bom, e sinceramente prefiro descobri-lo por mim mesmo.

Nnca sente a necessidade de querer acreditar em Deus?
Sim (risos). Mas, não sei, tento encontrar isso nas pessoas, na música e em outras coisas.Nas coisas exteriores onde realmente existe, no amor, é no amor que está Deus. Penso que muitas pessoas sentem ainda que a morte irá-lhes restituir algo de que precisam, mas não sei, existe muito amor.

Sente alguma tensão entre a sua própria dor e um certo deleite ou pena fascinada que as pessoas experiênciam ao terem consciência dela, como se isso tornasse esse sentimento um pouco falso?
Sim, há algo de estranho nisso, como algumas canções em que expressas as tuas neuras e depois vens falar sobre elas e vendê-las às pessoas. Isso é algo um pouco estranho, mas por vezes também é bom, quando sentes que as pessoas vêm nisso uma partilha, uma ligação a ti, e te dizem que gostaram muito do teu disco e do concerto.

Uma outra ideia patente no disco dos Brigth Eyes é a de que a esperança é uma ilusão.
Sim, das coisas que podem ser mais dificeis para ti é desejares coisas que são impossíveis, como se desejasses fervorosamente uma coisa mas não a tens, ou estar numa situação em que não queres estar mas sim numa outra situação. Penso que a ideia é a de conteres-te o máximo possível, aproveitares o máximo possível do momento que vives por oposição às coisas que não tens e que desejarías.

Pensa que a arte tem uma função de criar beleza ou que é um puro desperdício de tempo, ou meramente um escape?
Tendo a vê-la de todas as perspectivas. Nos dias bons acho que é muito belo partilhar canções com as pessoas e tirar algo de bom disso, e nos dias maus pergunto-me qual é o objectivo de passar tanto tempo a cantar, a escrever canções, lançar discos e andar em digressão para as poucas pessoas que eventualmente se identifiquem com a minha música.

Considera que hoje em dia é relativamente fácil criar coisas que alguns possam considerar arte?
Com a tecnologia perdeu-se um certo mistério de como um disco é gravado ou como um filme é feito e outras coisas que são muito mais acessíveis agora, com a informação tudo flui muito mais depressa, tal como agora que estamos a falar de música e você está em Portugal e eu nos E.U.A., ou seja, as possibilidades são imensas.

E não se torna é dificil para as pessoas lidar com tantas possibilidades?
Sim, é. Como se te transcendesse. Tudo o que pode eventualmente ser feito parece que já foi feito, tudo acontece ao mesmo tempo, toda a gente faz coisas simultâneamente, mas isso é, por um lado, bastante bom. Ou seja, para poderes alcançar outras pessoas tens necessariamente de existir e expressares-te a ti mesmo.

Acha estranho que o comparem ao Kurt Cobain?
Sim, é muito estranha e está tudo na cabeça deles. Quero apenas ser eu próprio e que as pessoas não andem para aí a dizer quem eu devo ser.

Planeia gravar mais algum disco com os Desaparecidos?
Sim, gostaria muito, de momento é dificil mas com certeza que quero fazer mais música com eles, talvez no inverno nos reúnamos e componhamos canções.

Porque escolheram um nome espanhol (que poderia ser português) para a banda?
É um nome histórico para as pessoas que eram assassinadas nos anos 70 pelos seus ideais, tem a ver com a ideia de arte, espaço e tempo, do que é viver na América moderna. Não é a mesma coisa que na época porque as pessoas não são assassinadas pelo que dizem, acreditam ou sentem, mas são marginalizados, o que é uma forma diferente de aniquilação. A ideia é a de estar perdido na sociedade coberta por dinheiro.

Pode-se dizer que nos Desaparecidos tem uma atitude de intervenção politica e que nos Bright Eyes exprime o seu lado mais intímo, ou é uma afirmação muito dualista?
Penso que agora expresso mais as minhas opiniões, até aqui costumava pensar sobre as coisas, ter opiniões politicas mas nunca as cantar, nunca me sentia confortável para o fazer. Mas agora gosto, penso que é a única coisa importante para cantar, sobre o mundo e a sua situação.

Isso significa que passará a escrever sobre posições politícas daqui em diante?
Penso que não exclusivamente, mas sinto que é importante, porque aparecem muitos miúdos nos nossos concertos que jamais pensam nessas questões e seria bom para eles terem esse ponto de vista.

Portanto movem-no motivações didácticas?
Talvez, sinto-me impelido a isso, não é que pense muito nisso, mas se tenho isso na mente é sobre tal que vou escrever.

A sua forma de abordagem mais politíca é muito irónica.
Sim gosto mais de ter uma abordagem de observação que de pregador.

Tem mais algum projecto musical neste momento?
Tenho tocado com outras bandas que estão em digressão connosco, tenho andado a tocar baixo para a banda dum amigo meu apenas. Mas talvez forme uma banda quando chegar a casa.

Sei que gosta muito de ler. O que anda a ler de momento?
Uns contos do Gabriel Garcia Márquez, que adoro, sobretudo o “Cem Anos de Solidão”.Sei que é um livro que por vezes pode não fazer muito sentido em termos lógicos, mas que para mim faz mais sentido que a lógica.

Diga-me outro autor que lhe agrade?
O meu autor americano recente favorito é o Dennis Johnson, que escreve contos, poesia e romances. Tem um conto que adoro intitulado “The Jesus Son”.

Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 13)