Entrevistas
BROKEN SOCIAL SCENE
UMA GRANDE FAMÍLIA

Ao longo dos anos, a história da música foi-se fazendo muitas vezes de grandes famílias, não só ligadas por sangue mas também por outro tipo de laços, digamos, mais soltos. Os casos são muitos, e os desfechos dessas histórias são ainda mais variados. Para os Broken Social Scene tudo começou em 1999 como um duo, formado por Kevin Drew e Brendan Canning, que então decidiram transformar a sua amizade numa banda. Com o álbum de estreia “Feel Good Lost”, aparecido em 2001, começou a desenhar-se a família que se iria consolidar em definitivo por alturas de “You Forgot It in People”, o disco que categoricamente deu a conhecer ao mundo os Broken Social Scene. O colectivo de Toronto é uma das faces mais visíveis da música feita na cidade e no Canadá, e ainda mais depois de “Broken Social Scece”, o terceiro disco, com título homónimo, editado em 2005. Em entrevista, Brendan Canning percorre a história desta família desde o início até aos dias de hoje – a única coisa que não revelou foi o final concreto desta aventura.

No passado, de “Feel Good Lost”, o álbum de estreia dos Broken Social Scene, para “You Forgot It In People” muito mudou em termos de som. Foi uma mudança consciente?

Não acho que se possa chamar uma mudança consciente. As coisas tinham mudado naturalmente, adicionamos um par de guitarras, mais vocalistas, mais sopro e cordas, estávamos a por o pé fora da cave e agora estamos a lidar com uma grande banda como oposto ao Kevin e eu a gravarmos a nós próprios num oito-pistas.

Na altura em que “You Forgot It In People” foi lançado em 2002, os Broken Social Scene tinham-se tornado num colectivo de 11 membros – e agora é ainda mais extenso, tanto quanto eu sei. Como é que tudo aconteceu? Como é trabalhar com tantas pessoas?

Bem, funciona simplesmente quando funciona e por vezes não funciona.

Diria que os Broken Social Scene são uma espécie de família que por acaso faz música? Quais são as consequências disso?

Claro, somos como uma família. Gostamos todos uns dos outros e passamos muito tempo juntos quando estamos na Estrada. Tens de tentar aceitar as pessoas e deixa-las crescer, perceber as coisas e viver a tua própria vida ao mesmo tempo. Acho que isso é aquilo que qualquer família tenta fazer. Pode ser difícil mas também há pessoas lá, junto de ti que te conhecem e, com sorte, tudo se resolverá e ainda assim conseguiremos andar por aí dentro de 25 anos, entendes.

Os Broken Social Scene têm elementos seleccionados dos Stars, Metric, Do Make Say Think, Raising the Fawn, the Dears, among others. Todos eles são diferentes, de projectos bastante distintos. Acha que o som dos Broken Social Scene é de alguma forma moldado pela experiência desses membros nos seus próprios projectos? Isso é permitido?

Sim, claro. Quero dizer, toda a gente traz os seus próprios ingredientes para o pote; foi sempre essa a forma.

Como é para aqueles membros de bandas como os Do Make Say Think, uma banda que trabalha muito longe das canções pop, trabalhar numa banda como os Broken Social Scene?

Acho que se pode dizer que tocar música pode ser como apreciar um bom vinho ou uma grande refeição. Pode-se gostar de algo num dia e no outro a seguir desejares outra coisa diferente. Sabes sempre que há uma certa qualidade que queres experimentar e podes sentir-te inspirado um dia numa forma completamente diferente da próxima vez. Por isso eu acho que é bom poderes expressar-te a ti próprio musicalmente em diferentes formas. Acho que todos apreciamos isto.

Na Primavera de 2003 os Broken Social Scene ganharam um Juno para o "Álbum Alternativo do ano" com “You Forgot It In People”. Isso mudou alguma coisa para na banda?

Não, não. Quer dizer, ficamos mesmo orgulhosos e contentes e acho que os nossos amigos e família ficaram muito contentes por nós mas eu acho que estávamos a fazer a nossa própria coisa e a dar atenção ao tipo de prémios que poderíamos trazer para casa. Mesmo assim é realmente maravilhoso ser reconhecido no Canadá, no final de contas é onde a maior parte de nós nasceu e pensamos que o Canadá é uma grande sítio apesar de não o ser sem alguns problemas.

Os Broken Social Scene lançaram a primeira compilação de lados-b e raridades, intitulada “Bee Hives”, em 2004. Olhando para o vosso processo criativo e para o vosso trabalho recente, imagina os Broken Social Scene lançarem outra compilação similar dentro de digamos uns 6 anos? Existe material suficiente para isso?

Claro, isso pode acontecer a qualquer altura. Nós fazemos música e não vai ser sempre canções poppy curtas que são óptimas mas não é aquilo em que os músicos querem estar focados a toda a hora.

Como foi gravar um novo disco depois de “You Forgot It In People”? Como é a sua relação com o último disco, simplesmente chamado “Broken Social Scene”?

Foram tempos difíceis para muitos de nós. Foi uma experiência longa e dolorosa, esgotante, mas isso é o que acontece na vida. Não é sempre uma situação suave sem drama. Isto é o que o disco é e foi muito diferente por muitas razões. Vamos ver o que acontece da próxima vez. Não se pode simplesmente prever estas coisas ou controla-las, tens apenas de sobreviver e aprender.

Como vê a criatividade musical – supostamente indie – acontecendo hoje em dia em Montreal? Como são as coisas em Toronto em comparação?

Na verdade não posso responder como é em Montreal. Estamos baseados em Toronto e são obviamente cidades diferentes mas eu acredito que não sejam assim tão diferentes também. Montreal é talvez um pouco mais europeia em natureza e conheço alguns músicos que se sentem realmente inspirados em Montreal. É uma cidade incrível. Toronto é a nossa terra natal e muita coisa aconteceu aqui para nós. Adoramos e apreciamos Toronto mas às vezes é bom saber que existem outros locais no mundo onde podes passear o chapéu algum tempo.

Algumas pessoas descrevem o som dos Broken Social Scene como sendo ambicioso. Concorda?

Bem, acho que temos um som particular que não foi ouvido muitas vezes antes. Fazemos aquilo que queremos e não nos limitamos a nós próprios ao programa que está em referência, àquilo que as rádios querem passar mas ainda acreditamos que podemos ter uma carreira com sucesso como grupo e até agora tivemos.

Imagino que muitas pessoas já lhe perguntaram isto, mas de onde vez o nome Broken Social Scene?

Bem, algures em 2000 ou 2001 o Kevin estava a tocar pela cidade com nomes diferentes. Começamos a tocar juntos e ele chamou a um dos nossos concertos John Tesh Jr. And The Broken Social Scene. Gostei e ficou connosco.

André Tiago Gomes
(Mondo Bizarre - Julho 2006)