Entrevistas
THE BUFF MEDWAYS
“LIMITAÇÕES SERÃO A NOSSA SALVAÇÃO”
Se intitular o seu disco mais recente “1914” não fosse suficientemente claro, dele dizer que “não regista qualquer evolução relativamente ao anterior” não deixa espaço para dúvidas. Billy Childish, agora nos Buff Medways, mantém-se alheio a quaisquer tendências de moda. Autenticidade, cortesia, um bigode de lord vitoriano. E “You Really Got Me” como base para mil e uma manifestações de frenesim rock'n'roll.

Músico, poeta, pintor, romancista, rock’n’roller com autenticidade por bandeira, humanista de discurso articulado que combina individualismo convicto com espiritualidade comunal (sem contradições, o que é obra), Billy Childish é um dos nomes maiores do underground britânico. Homem com carreira iniciada em plena explosão punk, quando liderou os muito lo-fi The Pop Rivets, tem-se desdobrado desde então pelos mais diversos projectos. Thee Headcoats e Milkshakes serão os mais conhecidos, mas, a par deles, encontramos a sua assinatura dispersa pelos Thee Mighty Caesars, Delmonas ou The Buff Medways, a sua banda actual. A simplicidade contagiante da sua música – das variações sobre os power chords de Kinks e The Who à podridão urbana do presente que, no seu trabalho em nome próprio, atira sobre canções de forte travo folk – é apenas um dos tópicos de uma entrevista que teve como mote “1914”, o mais recente (e muito recomendável) álbum dos Buff Medways.

Ao longo dos anos envolveu-se em vários projectos diferentes, da música à pintura, poesia e prosa. Sinal de desconforto e necessidade de acção ou de hiperactividade criativa? Medo de catalogação?
Um pouco de desconforto, um pouco de hiper-criatividade e um pouco de natureza expansiva. Quanto à catalogação, acho que Billy Childish já é mau o suficiente. Não tenho medo dela, é o que as pessoas passam a vida a fazer... mas eu não penso nem acredito na minha persona.

O ano passado foi editada uma retrospectiva da sua carreira intitulada “25 Years Of Being Childish”. Confirma-se então o humor do título. Ainda para mais, tendo em conta ser alguém que afirma que as pessoas tendem, infelizmente, a ser crianças a vida toda...
Não acho que as pessoas passem muito tempo a ser infantis, acho que passam demasiado tempos a ser adolescentes. Ser infantil está um pouco mais próximo de ser adulto. Hoje em dia, as pessoas querem permanecer adolescentes até aos 80 anos e, por isso, temos o mundo ocupado por teenagers de todas as idades. Tudo a que se dá valor está relacionado com o coeficiente de cool envolvido. “Cool is the new shit”.

Nas “liner notes” da compilação de que falávamos, fazia uma descrição exacta de cada uma das bandas ali apresentadas. Escreveu que a inspiração para os Milkshakes era “Link Wray, o álbum dos Beatles ao vivo no Star Club, o “Last Plane Home” dos Kinks” e o vosso “ódio aos New Romantics”...
(interrompendo) Isso era uma espécie de piada. Nunca houve qualquer conceito, estava só a olhar para as bandas do lado de fora: “Ah, os Milkshakes eram como os Beatles em Hamburgo nos inícios de 60”. Mas isso porque foi assim que me soaram na altura (gargalhada sonora, inesperada)

Imaginei que fosse uma forma de imporem uma qualquer disciplina ao processo criativo.
Esse é o meu trabalho. Aconselho o que devemos fazer e tocamo-lo. Os outros membros da banda podem tocar em quaisquer outros grupos que queiram, mas nos meus vive-se uma ditadura justa. A ideia é que agrade a todos o que tocamos, mas não nos preocupamos com democracia.

A sua banda actual, os Buff Medways, com a carreira que já têm, que representam para si? São mais uma banda?
Nunca é apenas mais uma banda, é a minha banda. Só a minha banda, não “só” mais uma banda. Como a banda anterior já desapareceu, como já não escrevo canções para ela... Nos Buff Medways, como nas anteriores, o ponto fulcral é a secção rítmica – consegues safar-te com quase tudo se ela estiver a carburar bem –, e aquilo que faço é escrever as canções de que ela necessita. Eles são a casa das máquinas e eu só tenho que funcionar como intérprete. Eles é que são o grupo.

Qual considera ser a qualidade que impede a sua recuperação de formas clássicas de folk e rock’n’roll de serem mero revivalismo? A energia envolvida, o momentum criado?
O facto de não o fazer de um ponto de vista nostálgico. Algumas pessoas podem interpretá-lo mal, mas a intenção original não tem qualquer relação com a ideia de nostalgia, logo não pode sê-lo realmente. Só acidentalmente. O que quero dizer é que tudo o que interessa é a autenticidade, não a originalidade. É disso que o mundo precisa e é isso que lhe falta actualmente. Andam todos muito interessados numa tonta noção de originalidade, alimentados por coisas como a MTV e incapazes de agir por si próprios.

É por isso que acaba de me dizer que lançou, há alguns anos atrás, um manifesto para o renascimento espiritual das artes?
Surgiu de acordo com essa ideia. Neste momento estou a organizar um website chamado, www.remodernism.com, que será preenchido de uma série de reflexões sobre esse tema. Estará disponível no final deste ano ou no início do próximo. Será arte conceptual sem um verdadeiro conceito. Acredito em arte conceptual se ela própria for o conceito, em vez do conceito ser criar algo que não é arte e, portanto, o é – que é o significado usual da arte conceptual.

Nesse manifesto, afirmava que o renascimento espiritual das artes iria acontecer por ser o único caminho disponível. Optimismo ou realismo?
Realismo... Não digo que acontecerá na próxima semana, não digo que acontecerá durante a nossa vida. As pessoas talvez tenham que se afundar bem mais na sujidade antes que se apercebam disso, mas não interessa. Somos todos seres espirituais e tal acabará por se manifestar. É uma inevitabilidade. Resta saber o que será necessário ainda acontecer.

Disse certa vez que Deus se manifesta pelo carácter supérfluo da existência. O facto de existir tanto de belo e complexo na Natureza que é desnecessário à existência, seria a prova do carácter divino da Criação. Contudo, a música que faz é, normalmente, simples e instintiva, back to basics. Um enfatizar da sua natureza humana?
A música que faço não é totalmente instintiva, é trabalhada para soar a isso. Criação é bom divertimento, não deve parecer uma construção de seis meses. É tentar manter-nos junto ao chão, ao básico, e não lhe impor muito da tua própria cor, mesmo se a tiveres que “apimentar” um pouco. Tomo muito cuidado em certificar-me que um qualquer detalhe insignificante é necessário ao que idealizo. Por exemplo, pinto uma imagem em meia hora e, depois, retoco dois ou três pormenores que ninguém tinha sequer reparado que lá estavam. É assim que me apercebo se preciso de ir em mais alguma direcção. Se gravar algo em que a banda falhou a energia por completo, não o vamos editar. Uma canção não é boa em si própria. Se fosse, qualquer pessoa a tocar “You Really Got Me” soaria bem. Acontece que há muita gente a fazê-lo e a soar mal – os próprios Kinks já não a conseguem tocar bem. Aquilo que fez a canção foi o 1965 em que foi editada.

É o contexto que “faz” a qualidade e importância das canções?
Talvez mais a forma como permites que te trespasse. Se as coisas quiserem “ser”, quanto menos interferires, menos o teu ego as corromperá. Tens que deixá-las exprimirem-se a si próprias, encorajá-las acontecer.

Fala da “coisa” como algo externo a si próprio...
Tudo isto se pode manifestar através de ti se o deixares, mas pertence a toda a gente. Está no espírito da boa música blues, do bom rock’n’roll, da pintura, da arte no geral. Pode manifestar-se em qualquer lugar, a qualquer altura. Por isso é que, voltando atrás, não é necessária nenhuma nostalgia.

Desse ponto de vista somos apenas melhores ou piores receptores.
Ou estamos mais próximos de nós próprios ou mais distantes de nós próprios. A minha ideia é que o ser espiritual está mais próximo. Não sei quem ou o quê estabelece as medidas, mas parece-me que a criatividade é o coração e alma do que o ser humano é. A forma de comunicar, de exprimir, aquilo que nos une e nos diferencia como indivíduos. E acho que a criatividade é subvalorizada em prejuízo de toda a gente. As pessoas não gostam de pensar livremente, ligam-no ao Diabo... Se o George Bush fosse criativo seria capaz de pensar para além dos seus próprios interesses, o que significava que seria um pouco menos egoísta e tacanho. Tendo em conta o emprego muito importante e influente que tem, é provável que o mundo se tornasse bem melhor.

Nessa linha de pensamento, onde situamos alguém como a recentemente falecida Leni Riefenstahl? Sem dúvida criativa, questionável moralmente.
Seria criativa, mas digamos que não sei até que ponto estava em contacto real com a sua arte. Ou então não estava grandemente preocupada com outras questões. Pode não ter sido particularmente prejudicial, mas foi certamente muito menos benéfica para ela própria e para os outros. Mas não sei o suficiente sobre ela para perceber o que a levou a fazer o que fez. Era apenas uma grande romântica, como Hitler era um grande romântico. Romantismo que não está acoplado a realidade. Se fazes uma meditação que não te conecta com todos os outros, então isso é apenas magia negra. Tudo é passível de utilização pelas más razões. A faca do talhante não é má em si, pode sê-lo.

É dessa descrença na capacidade do Homem tomar as decisões correctas que reclama, como escreve nas já referidas “liner-notes” de “25 Years Of Being Childish”, o regresso da bicicleta, do eléctrico e do cavalo?
Não, digo isso por acreditar que as limitações serão a nossa salvação. Limitações aproximam-nos de nós próprios e da liberdade. Ou traçamos os nossos próprios limites ou a Natureza ou Deus dar-nos-ão os seus, o que será muito mais doloroso.

Ter cada vez mais bens materiais funcionando como extensões de nós próprios pode acabar por os apagar?
É mais simples que isso. Um telemóvel tem, ocasionalmente, algum uso. Isso não ajuda nada no período em que não tem uso nenhum. Pode ser usado para te seguir, para te vigiar, para te impedir um pouco mais de liberdade. É o mesmo que ter um automóvel. Parece muito útil, mas toda a gente ter o seu elimina os benefícios de possuir um. Todos os centros comerciais estão fora das cidades. Tens que guiar para lá chegar, tens que guiar para fazer tudo. É suposto poupares tempo conduzindo, mas isso não acontece, são tudo tretas. É menos complicado pegar numa bicicleta e ir à loja local. Uma bicicleta é um invento de génio. Preciso de muito pouco, exige muito pouco e, por isso, toca o mundo suavemente. E tudo o que toca o mundo suavemente é melhor que aquilo que lhe chuta os dentes.

Deveríamos ser mais “discretos” na nossa ocupação do mundo?
Devíamos utilizar a nossa inteligência e aplicá-la. Se uma coisa funciona, então isso deve ser suficiente. Não vale a pena mentirmos e enganarmo-nos a nós próprios. 56 canais de televisão não são melhores que 3. Mais não é melhor. Essa ideia só existe porque as pessoas pensam sempre como adolescentes de 16 anos. Mas isto é só uma constatação, não estou a chorar por ser assim.

De volta à música. Muita gente olha para os anos da explosão do punk como um fantástico período de explosão criativa, pleno de acontecimentos importantes e significativos. Que significado tiveram para si, que sempre foi um outsider, que respondeu “Fun In The UK” ao grito de “Anarchy” dos Sex Pistols?
O punk rock não foi o princípio de algo novo, foi o fim do “antes”, o fim do rock’n’roll. Não quero com isto dizer que não podes ter rock’n’roll agora, mas o punk-rock representou o encerrar da questão. Não foi o início do que temos agora, foi o fim do que tínhamos antes. O que não significa que não possas trabalhar sobre aquelas ideias... mas o punk não conseguiu mudar nada, só conseguiu, de certa forma, ser uma nova marca de loção capilar depois de Elvis Presley.

E então, encerrado o antes, que temos agora?
Muito menos locais para tocar ao vivo, muito menos interesse... Temos tudo muito mais fragmentado – as pessoas tendem a chamar-lhe globalização... Menos e menos fazes as coisas por ti próprio, faze-las mais e mais por devoção a um qualquer idiota glorificado.

É por esse descontentamento que, como li, já não assiste a concertos?
Não, não. Simplesmente, não estou interessado. Não gosto de PAs... A minha ideia não é tornar as coisas cada vez maiores, é manter-me no nível ideal. O que gostei inicialmente no punk-rock foi ser uma reacção ao aborrecimento que eram os grandes concertos de estádio. Era um motivo bastante válido. Aquilo em que estávamos interessados era em acabar com a distância entre nós e o público, não abri-lo ainda mais. Esse espaço existirá de vez em quando, claro, mas não por estarmos a caminho de nos tornarmos uma banda de estádio.

Uma última pergunta. Que comentário lhe merece o facto de alguém como Kylie Minogue, nos antípodas da sua visão de arte e de vida, dizer-se sua admiradora?
Tudo o que aconteceu foi ela querer utilizar um poema meu num álbum. Foi muito educada, pediu-me autorização para o fazer e dei-lha. Não sei nada sobre a sua música, excepto que é um pouco pastilha elástica. Pode estar um pouco afastada do mundo real, mas foi muito educada comigo. Aquilo que queria não está protegido por direitos de autor, logo, não tinha que me pedir o que quer que fosse. Tê-lo feito foi muito educado. E eu prezo bastante a educação e a decência.

O bigode vitoriano com que anda nos últimos tempos fez-nos suspeitar disso mesmo.
(risos) Acho que devo agradecer o comentário...


Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 17)