BUNNYRANCH
MASTIGAR ANTES DE ENGOLIR
“Os Bunnyranch não querem inventar a pólvora, preferem senti-la explodir” frase inspirada retirada de carta de apresentação é já um lugar comum ao falar de mais este descendente Tédio Boys. Formada por Kaló, Filipe Costa, André Ferrão (guitarra, ex- Pinks) e Pedro Calhau (baixo, ex-MC Dolls), a banda conimbricence vem fazendo jus ao mote fundador em concertos que geraram grande expectativa quanto à estreia em disco (concretizada com o EP “Too Flop To Boogie”). Retiraram o nome de Moonlight Bunnyranch (apresenta-se, em terras americanas, como “o mais famoso bordel do mundo ocidental”) e, se a música não é exclusivamente tensão sexual, é, pelo menos, suor e êxtase. E podemos, claro, chamar-lhe rock’n’roll, esse fenómeno que assola a terra há, talvez, “um milhão de anos”. Desculpe? Kaló e Pedro Calhau, é a vossa vez de explicar.
Ao ler a vossa carta de apresentação, o primeiro nome com que nos deparamos é Gene Krupa, baterista de Benny Goodman e um dos primeiros percussionistas a destacar-se em nome próprio. Teria que ser referência incontornável numa banda em que também o baterista salta para a linha da frente, assumindo o papel de vocalista?
Kaló - Talvez, mas, se calhar, o espírito do Gene Krupa é mais importante que a sua capacidade como baterista. Vejo-o como um louco. Alguém que se envolvia com mulheres de gajos poderosos e perigosos. Um gajo que, se lhe apetecesse começar um solo num concerto, nem o Benny Goodman o parava. Citamos a seguir o Hank Williams e não somos uma banda de hillbilly, mas o espírito do Hank Williams é algo em que todos nos revemos. A “onda” dele, do Krupa, é quase mais importante que ser o maior do swing ou lá o que seja.
Em entrevista ao Diário de Notícias, afirmam a certa altura que “o difícil não é comer e engolir, mas mastigar as coisas e percebê-las”. Pegando na frase, como se vêm os Bunnyranch num universo actualmente em constante mutação, saltando de tendência em tendência sem que, muitas vezes, as pessoas tenham tempo para aperceber e entranhar plenamente o fenómeno que acabou de passar?
Pedro Calhau - É o tal mundo do engolir. Nós tentamos não comer apenas o que está à vista.
K. - É como, por exemplo, a explosão dos one-man-shows, dos duos e dos trios. O mundo é livre e as pessoas fazem o que querem, mas esse tipo de coisas são únicas. O Hasyl Hadkins [NR: um dos mais famosos one-man-band da história da música popular, com carreira iniciada em meados da década de 50] era um puto que adorava o Hank Williams e, ao ouvi-lo na rádio creditado apenas a Hank Williams, pensava que o gajo tocava todos os instrumentos sozinho. Foi a partir daí que o começou a fazer. Foi um acto puro e inimitável. É preciso ser muito especial para fazer uma coisa dessas.
Depreendo então que sejam reticentes quanto ao chamado novo rock...
K. - Há bandas super interessantes, outras que me desculpem, mas deviam acabar imediatamente e dedicar-se ao drum’n’bass.
E se te disserem que essas novas bandas podem, pelo menos, servir como um bom instrumento pedagógico para quem não sabe o que está para trás? Que podem levar gente a descobrir os “originais” e a, no futuro, fugir ao tal “engolir sem mastigar”?
K. - Eu provavelmente, se ouvisse os Hives ou os Libertines nesse desconhecimento, virava-me logo para o fandango ou para o jazz, percebes? E afinal, há quanto tempo é que o rock’n’roll anda por aí? Se calhar já há um milhão de anos...
Partidário de Lester Bangs? O homem que afirmava que o Chet Baker e o Hemingway são tão rock’n’roll como os Stones ou os Velvet Underground?
K. - Acredito nisso. Acredito que o Michael Jordan e o Maradona eram gajos do rock’n’roll. Que o Afonso Henriques também o era. Que o D. Sebastião foi das figuras mais loucas de sempre do rock’n’roll. E até acredito que há coisas positivas nesta chamada renascença. Há bandas como os Make Up ou os Delta 72; deu-nos oportunidade de ver grupos que gosto, como os Speedball Baby. Mas olhas para alguém como o Andre Williams e reparas que, a maior parte das vezes, esses velhos são muito mais interessantes que estes miúdos todos de vinte e poucos anos que andam a apregoar a descoberta do rock’n’roll. No limite, nem falo das bandas, falo da reacção das pessoas. É voltarmos ao mesmo, engolir sem mastigar, não sentir realmente as coisas.
Falemos de “Too Flop to Boogie”, o vosso EP de estreia. Pelas entrevistas que têm dado, fica-se com a impressão de não estarem totalmente felizes com o resultado final. O elogio que lhe fazem é ter-vos aberto portas para actuarem ao vivo mais regularmente.
K. - Exacto. Foi um longuíssimo parto de um ano. Provavelmente fomos nós os primeiros a falhar. Deixámos acontecer coisas que não deviam ter acontecido. Tanto a nível técnico como a nível das canções. Provavelmente, não foram tão trabalhadas quanto deveriam.
P. C. - Já passou um ano e muito aconteceu. Houve uma evolução e, naturalmente, já não somos os mesmos. Crescemos como banda. Este é só um primeiro EP. Da próxima, teremos consciência do que correu mal e faremos melhor.
K. - Mas é um disco que assumimos completamente. Sem problemas. Ao vivo, tocamos praticamente todas as canções nele incluídas.
Há cerca de uma década atrás, os Tédio Boys deram a Coimbra uma agitação inusitada nos tempos mais recentes. De um momento para o outro, poupas rockabilly tornaram-se “in”, toda a gente parecia querer formar uma banda, dançava-se ao som de Chuck Berry, Clash ou Elvis Presley em festas de aniversário. Onde está essa efervescência? O que resta, dez anos depois?
P. C. - Continuam coisas a acontecer, mas esse foi realmente um período com uma personalidade muito própria.
K. - Na altura havia menos estruturas, menos espaços para libertar a tensão. As vitórias, aquilo que se conseguia fazer, era vivido de uma forma mais intensa. Se calhar actualmente toma-se tudo por adquirido...
Acham que essa falta de iniciativa é um dos factores que atira a música em Portugal para a t-shirt “Salvem-me”?
K. - Acho que, se não há palcos, inventem-se. Tem de haver uma predisposição das bandas para isso. Algumas bandas, por terem ido tocar aqui ou ali, começam a fazer uma série de exigências quanto às condições necessárias para um concerto. Por nós, não queremos saber se é um palco com tantos metros ou se têm determinado PA. Por outro lado, há também falta de predisposição das pessoas para irem aos eventos. É certo que estamos em época de exames, mas ontem houve o concerto no Le Son [NR: referência ao concerto que, dia 29 de Janeiro, juntou Bellrays, Immortal Lee County Killers II e Guitar Fucker] e não estava lá quase ninguém para ver aquela merda. Numa cidade universitária...
P. C. - O que é que podemos fazer? Andar p’ra frente. Dar concertos e gravar discos. Levar a música a todos os sítios que pudermos.
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 14)
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