Entrevistas
CATO SALSA EXPERIENCE
VENTO “GROOVY” A NORTE
Não, não são uma banda suíço-cubana de dois DJ’s e uma antiga estrela do clube ao lado do Buena Vista. Também servem para dançar, mas são noruegueses. E fazem rock’n’roll na “Magical Mistery Tour” onde Jon Spencer nunca entrou.

Cato Salsa, Francis Moon, Jon R. Lugar e Nina Delay tinham cada um a sua banda e pareciam felizes. Até que se encontraram na casa do primeiro e uma exagerada dose de cafeína estimulou a jam reveladora. O melhor mesmo era deixar o resto de lado. Nasciam os Cato Salsa Experience, nome quente para banda vinda do frio. A música é como o nome e “A Good Tip For A Good Time”, o álbum de estreia, é suor que inebria os sentidos e mantém as roupas em atraente desalinho. Com ele, abre-se a porta para o Céu com Diamantes da Lucy. Só que desta vez o desenho não tem autoria de criança, é assinado por uma banda que salta em vez de flutuar, que grita “Time To Freak Out!” em vez de “Eight Miles High”, que prefere o theremin à cítara indiana e o ruído à delicadeza. Ah!, mas que também repete “groovy” mais vezes que Simon & Garfunkel em refrão de canção famosa. Confuso? Espera-se que a conversa que se segue, com o baixista Francis Moon, ajude a esclarecimentos.

Lendas de criação recente contam a formação dos Cato Salsa Experience como resultado de uma jam-session na cozinha de Cato Thomassen. Imagino que ele não tenha problemas de espaço para preparar grandes banquetes... Podes falar-nos um pouco desse ensaio frutuoso?
Tudo começou realmente na cozinha do Cato em 1998. Um dia, planeámos ir a casa dele e ocuparmos a noite numa jam-session. Antes de baixarmos à sala de ensaio quisemos ver o que conseguíamos fazer da sua nova máquina de café. Com todos excitados pela cafeína, aquela jam transformou-se num gigantesco festim de riffs e ruído.

O vosso álbum de estreia intitula-se “A Good Tip For a Good Time”. Podemos lê-lo como o mote de uma banda que pretende ser o equivalente no século XXI das “ballroom bands” que incendiavam festas adolescentes nas décadas de 50 e 60?
A filosofia – chamemos-lhe assim – é simplesmente tocar e divertirmo-nos. Basicamente, um escape das preocupações do quotidiano. Acho que as “ballroom bands” existiam pelos mesmos motivos.

E a quem gostariam de oferecer o ritmo para dança numa festa? Ao Eric Clapton, talvez? Para ver se ele percebe que o hall de casino onde anda metido há umas décadas só lhe faz mal.
Bem, o Eric Clapton é “groovy”, mas nunca o vi dançar. A última pessoa que me impressionou a sério nesse capítulo foi o Joe Tex. Dançava de forma mais “cool” que o James Brown. Se estivesse vivo era a ele que oferecia a festa.

Para gravação do disco, decidiram viajar até uma residência de férias na costa norueguesa. Que tal a experiência? Imagino que a maioria das canções estivesse já composta, caso contrário, acabaríamos por ouvir um álbum repleto de melancolia acústica inspirada pela chegada das ondas à praia.
(risos) Oitenta a noventa por cento das canções já estavam compostas. Acabámos por gravar lá porque tínhamos algum material de gravação, mas nenhum local onde o utilizar. A casa de férias pertence a uns amigos nossos que nos facultaram o aluguer por um preço baixo. Foi uma óptima experiência. Vivemos um mês como se todos os dias fossem Domingo. Acordávamos, comíamos o pequeno almoço enquanto víamos a Lassie na TV e, passado algum tempo, começávamos as gravações.

Afirmaste em entrevista que o foco principal nos Cato Salsa Experience é o ruído (citando os Sonic Youth e os Guitar Wolf como bandas que tentaram evocar para o vosso som). Contudo, a música de “A Good Tip for a Good Time”, apesar de pesada e barulhenta na interpretação, tem, em essência, uma harmoniosa liberdade ébria. Genericamente, podemos dizer que soa a Jimi Hendrix ou aos Grand Funk Railroad interpretando canções perdidas do Marc Bolan. O que fica é a intenção de pôr o ouvinte a dançar. A perder a cabeça dançando, para ser mais preciso.
Obrigado, gosto dessa descrição. No início, estávamos muito interessados no ruído e em fazer rock ultra-enérgico. À medida que fomos tocando mais, que fomos passando mais tempo juntos, outras influências começaram a revelar-se na nossa música. Outras influências que são, basicamente, toda a história da música no século XX. Passámos a querer fazer simplesmente música “groovy”, com boas melodias, sem fronteiras.

O nome Jon Spencer Blues Explosion é o mais usado quando se quer estabelecer um termo de comparação para os Cato Salsa Experience. Parece-me, contudo, que vocês têm uma psicadélica noção de rock’n’roll que é toda ela colorida e vibrante, o que contrasta com o blues vestido de cabedal que marca a interpretação de música negra de Jon Spencer. Concordando ou não, o que destacarias como absolutamente característico da tua banda?
Penso que a comparação com os Jon Spencer Blues Explosion acontece pela energia de ambos os grupos... É-me difícil descrever música, lembro-me logo da frase de Elvis Costello: “Escrever sobre música é como dançar arquitectura”. Posso dizer que acho a tua descrição atraente, mas, se alguém me perguntar, diria apenas que tocamos “groovy rock’n’rol”.

Por último. Além de seres o “John Entwistle-meets-Mel Schacher” do grupo, também és dono da Garralda Records (onde o vosso disco foi originalmente editado), o que é um facto pouco usual na indústria musical. De que forma é que essa dupla função afecta o funcionamento da banda?
Antes de mais, deixa-me dizer-te que, se juntares o Jack Bruce aos dois nomes que referiste, tens reunidos os meus baixistas preferidos. Quanto à tua questão; houve um período em que estive bastante farto das horas sentado em frente ao computador e de todo o tempo que passava a embalar CD’s para o resto da Europa e para o Japão. Agora, que temos um manager e editoras como a Emperor Norton e a Epic a ajudar-nos, tenho muito mais tempo livre para criar música. Já posso dizer que a experiência de gerir uma editora tem sido óptima. É uma grande vantagem saber como funciona todo o negócio. A minha esperança é que, no futuro, a Garralda Records se torne uma editora indie de algum peso.

Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 14)