CAVEIRA
CAÇADORES FURTIVOS
Diz-se por aí que um trio que se intitula CAVEIRA anda a inquietar o percurso Chiado-Bica-Telheiras (que desde então nunca foi o mesmo); diz-se por aí que andam a partir os cânones do rock em mil pedaços e que os estilhaços daí resultantes fizeram já alguns feridos. Sabe-se ao certo que o epicentro é Lisboa; a data (de nascimento) é 2003, mas foi em 2005 que os CAVEIRA se chegaram à frente (acção que teve na actuação no festival Where’s the Love, na Galeria Zé dos Bois, um momento especial). Joaquim Albergaria (o baterista que faz parte dos Vicious 5), Rita Vozone (na guitarra) e o aqui entrevistado Pedro Gomes (igualmente na guitarra) são os responsáveis por “África”, CD-R que mereceu destaque de gente como Josephine Foster (na revista Wire) e posição privilegiada em alguns ilustres tops portugueses de 2005. Rock com acentuação no free/improv, blues camuflado mas não escondido. Agora, do trio lisboeta, espera-se um segundo lançamento que confirme o seu peso na comunidade de novas bandas portuguesas que vêm o rock com olhos de tigre. Entretanto, os CAVEIRA actuam já no próximo dia 20 de Janeiro, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, enquanto banda de Damo Suzuki e no depois no dia 28 de Janeiro, na Caixa Económica operária (igualmente em Lisboa), com os Loosers e os Linda Martini, actuação inserida no certame Um Dia A Caixa Vem Abaixo, a primeira empreitada da Conta-Gotas, uma nova promotora de espectáculos. Duas boas oportunidades para ver os três CAVEIRA dispararem em todas as direcções.
Apesar de só agora serem mais conhecidos do público, os CAVEIRA já existem como banda desde 2003, mas pouco se sabe desses tempos. Como é que tudo começou?
CAVEIRA começou a tocar ao vivo nessa altura, mas a cena toda remonta a um ou dois anos antes disso. O Quim, a Rita e eu conhecemo-nos na faculdade logo no primeiro ano (mesmo curso) e eles os dois, tipo meio ano/um ano depois disso, começaram a tocar juntos. Lembro-me de voltarem de um fim-de-semana fora com uma cassete de coisas que eles tocaram e de eu a ouvir. Comecei a tocar com eles não muito depois disso (poucos meses). Ensaiámos umas quantas vezes no quarto do Quim, em Sacavém (o sítio mais bonito do mundo), onde o gajo tinha a bateria, muita roupa interior espalhada no chão, discos de hard core em vinil, e vizinhos surdos e/ou inexistentes (já foi há muito, não me lembro). Tocávamos com amplificadores de merda e com as guitarras mais ranhosas do mundo (Aria Pro II & Academy era o combo). Só me recordo de ficar parvo com a hiperactividade deles os dois, e de no espaço de três minutos conseguirem criar ali umas 10-15 peças/riffs completamente distintas, tudo improvisado. Fiquei meio à nora e devo ter feita uma cena qualquer com muito delay (não deve ter valido). Nesta altura de vez em quando tocavam amigos nossos, como o Palhota (fez uma performance uma vez com fita adesiva na boca, enquanto tentava dizer uma coisa qualquer ao microfone durante largos minutos) e o Gazela dos Vicious 5. CAVEIRA era mais um conceito de festa estúpida, improvisada, com o que houvesse à mão e com quem estivesse presente, tipo um gerador de situações insólitas e adversas, privadas e públicas, para nós e para os nossos amigos. Depois disso a Rita começou a passar som no Lótus (melhor DJ do mundo para espécies de party...) em Cascais e soube que eles estavam prestes a começar uma noite, às quartas-feiras, de jam sessions. Já que era uma estopada ir a Sacavém para tocar no quarto ranhoso do Quim, passámos a ensaiar/tocar (não havia grande diferença) em público no Lótus, à pala. Eles tinham lá amplificadores, bateria, um técnico de som. Nós só precisávamos de levar as baquetes e as guitarras. Inacreditavelmente, apesar dos concertos serem de um desinteresse e caos meio petrificantes, conseguíamos arrastar algumas dezenas de amigos cada vez que passávamos lá, então a coisa repetiu-se várias vezes até deixar de fazer sentido continuar nessa onda.
Os primeiros sons que se conheceram aos CAVEIRA em disco foram uma versão de “Sharon Stone”, numa já mítica compilação aos Delfins. Uma escolha curiosa, portanto…
É uma malha especial. Refizemos (foi a última vez que fizemos isso, até ver) a música (sem letras, claro) numa tarde em duas ou três horas, gravámo-la no dia a seguir, e no dia a seguir a esse apresentámo-la ao vivo no Lótus num dos dias do lançamento da compilação. Foi a última vez que lá tocámos.
Que memórias guardas do primeiro concerto dos CAVEIRA?
Já não sei qual foi o primeiro, sinceramente, mas lembro-me de 20 e tal minutos à volta da Adelaide Ferreira no Lótus em múltiplas variações de fotografias de grupo. Isso foi porreiro. Só para dar uma melhor ideia cronológica da coisa, é importante dizer que entre estes concertos/ensaios e gravarmos a versão deve-se ter passado praticamente um ano, e mais de meio ano entre essa gravação e o nosso primeiro concerto na ZDB. Se formos falar desse último como o primeiro oficial, já nesta fase mais séria/pensada de CAVEIRA, temos mesmo que agradecer ao Nélson da ZDB, porque às tantas virou-se nós e perguntou-nos se queríamos abrir para os Magik Markers, daí a uns meses. Como não dá para dizer que não a uma cena desse género, começámos a ensaiar várias vezes por semana durante uns tempos para nos prepararmos. O concerto não correu bem, por uma série de razões, mas foi uma honra partilhar a noite com o Afonso (que deu um concerto incrível enquanto Phoebus) e com os Markers, que devem ter dado dos melhores concertos da história desta cidade. Alguns amigos, o Pete Nolan (dos Markers) e o Afonso disseram que gramaram, portanto já foi qualquer coisa. É sempre preciso começar por algum lado.
Apontaram aos CAVEIRA influências de nomes como os RTX, os Dead C e Crosby, Stills & Nash. E blues. Como se foi desenhando a direcção musical dos CAVEIRA? Foi pacífico?
Por acaso até fui eu que escrevi o texto com essas influências. Quanto aos RTX é porque a Rita os grama imenso e nós adoramos todos os Royal Trux (“Twin Infinitives” é o melhor disco do mundo); os Dead C porque são um arquétipo especial de disformidades eléctricas de rock e descontrução; Crosby, Stills & Nash pela dinâmica de três vozes (eles gramam imenso, eu não tenho muita pachorra), porque é disso que se trata. Em relação aos blues é uma questão muito mais delicada. O Quim passou a adolescência no punk rock e mantém-se bastante pelas áreas do rock no que ouve - é um baterista rock (uma cena que vem dos blues). A Rita tem um conhecimento enciclopédico da história do rock (a tal cena que vem dos blues), dos Stones aos Shocking Blue, dos Trux aos Gun Club. Eu passei anos a ouvir obsessivamente John Fahey, Coltrane, Albert Ayler ou Loren Mazzacane Connors e uma série de outras coisas que, de maneira mais ou menos elíptica, também vão dar aos blues. De forma muito pessoal, olho para o que fazemos como uma espécie de regresso a um estado bruto e improvisado dos blues (até por muitos dos riffs - quando os há - andarem à volta da escala pentatónica), algures antes deles (os blues) terem ganho forma de canção e depois de terem vindo na cabeça dos escravos que foram parar, em que geração fosse, ao Mississipi Delta, originários do Gana e do Mali, com boogie do deserto na cabeça (que depois veio a dar, com uma série de outras infiltrações, nos blues). A evolução foi pacífica tanto quanto uma evolução pode ser. Do “play whatever” dos primeiros anos até esta etapa há um salto absurdo, e uma série de coisas que entram em jogo. Um tipo é bastante influenciado pela abertura de décadas de música expressão livre, do Coltrane, ao Ayler, ao Keiji Haino, ao Sonny Sharrock do “Black Woman” e isso acaba por passar para a música que fazes. CAVEIRA, até ver, é uma banda de uma improvisação que descende do rock, em catarse contínua. Música de energia.
“África”, o vosso primeiro lançamento, foi muito bem recebido, e constou até nas escolhas de melhores discos do ano da Josephine Foster, lista publicada na Wire. Qual é o sentimento dos CAVEIRA em relação ao “firstborn child”?
Acho que gramamos todos o disco e o objecto em si. Tem carisma. Gostei bastante a capa que o Quim fez. É um documento de uma altura extremamente embriónica da nossa vida enquanto banda, produto de pouco mais de uma mão cheia de ensaios e da muita pachorra e onda do Nathan Lively, que nos gravou o disco, numa tarde em Abril. Nunca mais vamos voltar àquele tipo de empatia autista tão desconexada - porque não tão experiente como agora, que nos vamos conhecendo melhor a improvisar -, mas acho que tem o seu valor de drive primitivo, cut-up de riffs (os da Rita são do caralho), e da pica de três pessoas num eclipse meio galopante, a descobrir uma forma nova de se expressarem. É fantástico recebermos feedback de quase todas as pessoas lá de fora a quem demos o disco, como o da Josephine. Deve ser das escritoras de canções mais brilhantes e livres das últimas décadas. É muito especial, ela. Outra dica dessas que também nos deixou a andar tortos foi a do Matt Valentine na Volcanic Tongue. Se um génio como o gajo grama, ficamos com a sensação que devemos estar a fazer qualquer coisa bem.
Tanto quanto eu sei, há já um novo lançamento na calha. O que é que nos podes contar acerca disso?
Gravámos um disco em Outubro, no Golden Pony, que é um estúdio novo excelente, ali numa transversal da Rua da Madalena, com o nosso amigo Rodrigo Alfacinha. São três malhas, que ao todo fazem mais de 50 minutos de estrilho. Vai sair este ano, o mais breve possível, não sabemos ainda é como, onde e quando. O som está mesmo onde queríamos (passámos imenso tempo a misturá-lo entretanto), é tipo o nosso “Mellow Out” (malha intemporal dos Mainliner) em termos de jarda. Temos estado os três ocupados com outras mil cenas mas vamos finalmente começar a trabalhar na edição disto agora nos próximos dias. É um disco com coisas muito mais rock daquilo que eu estava à espera que saísse. Muito doce e cansado, mas sempre a rebentar em mil direcções a partir de três vórtices a explodir no limite. Tudo no disco é sempre no vermelho.
O concerto de abertura para o Devendra Banhart foi, imagino, um momento especial para todos vocês. No essencial, como foram as vibrações nesse dia?
Pessoalmente, as vibrações foram muito intestinais, porque praticamente que não comi nada nesse dia. Fora isso, foi uma honra incrível que o Devendra nos tenha convidado. É provavelmente o gajo mais positivo que já conheci. Ficámos meio parvos quando ele me escreveu a perguntar se estávamos interessados. Ninguém dá o quarto concerto na Aula Magna. Estávamos todos com uma pica do caraças, ainda para mais com a sala praticamente cheia e com o som fantástico (o Nathan, outra vez...)
Tanto quanto sei, as reacções do público nessa noite foram um pouco divididas. É algo que provavelmente já estariam à espera…
Estávamos à espera ou de uma debandada geral, de sermos completamente ignorados ou vaiados. Fazia parte do build-up e da tensão emotiva da coisa. Temos perfeita noção que a nossa música não é a mais fácil do mundo mesmo em sítios que já estão minimamente familiarizados com coisas menos ortodoxas, mas para uma fatia considerável do público do Devendra - que hoje em dia é um público que ouve canções, principalmente - deve ter sido uma coisa extremamente desconfortável. Toda a situação de potencial motim e de confronto é muito estimulante para nós e ali potenciou-se a uma escala muito maior daquela a que estamos habituados, o que foi fantástico. Quando acabamos a primeira malha e ouvimos uma porrada de assobios e gritos positivos ficámos meio atónitos. A última coisa que esperávamos é que muita gente gostasse. Ficamos muito contentes que, pelo menos pelo que percebemos, só tenha havido gente ou a gostar muito do concerto ou a odiá-lo, sendo que as críticas de ambos os lados são muito porreiras de ouvir por serem tão extremas. Acredito que centenas de pessoas que possam ter gramado o concerto nesse dia nunca teriam ouvido a nossa música de outra forma, e se isso as fizer ouvir música importante de outras pessoas mais fora por tabela, é excelente. Foi uma noite psicadélica.
No dia 28 deste mês vão partilhar o palco com o Damo Suzuki. Como é que tudo aconteceu? Parece que Damo Suzuki tem intenções de manter uma relação próxima com Portugal…
O Nélson da ZDB perguntou se queríamos tocar com ele e dissemos imediatamente que sim. Gramo imenso os Can e passei-me com o concerto dele o ano passado na ZDB, com o Nuno Rebelo, o Marco Franco e o Massimo, dos Zu. Apesar deles os três serem músicos com bastante mérito, as poucas pistas que tinha da música mais recente do Damo na altura apontavam para que aquilo pudesse descambar em alta freakalhada chunga. Mas não, o gajo é completamente livre e positivo, das pessoas mais generosas que já vi num palco - 0% ressaca, 100% ícone free. Estamos é fodidos que ele grama tocar 2, 3, 4 horas, e nós normalmente ao fim de 30/40 minutos já estamos completamente esgotados, porque fisicamente damos sempre o litro a cada segundo, e isso mata-te em pouco tempo. Vamos estar a ensaiar muitas horas seguidas para nos habituarmos, para ver se ganhamos mais hábito e disponibilidade física para lidar com este tipo de situação. É alta honra, mesmo, tocar com ele.
Como é que se respirava no Out.Fest?
Respirava-se fixe. O Rui, o Vítor, o Miguel e o Tiago fizeram um trabalho óptimo e deu para ver concertos incríveis e estar com a família. Destaco dois concertos dos que vi: Fish & Sheep com Tropa Macaca foi das merdas mais livres e totais que já existiu num palco, e os Frango destruíram e esvaziaram tanto e tão fodido que um gajo nem sabia como é que dava um concerto a seguir àquilo. É para continuar o festival, claro, com a mesma onda.
Os CAVEIRA vão-se manter fiéis ao formato CD-R ou planeiam um lançamento em CD para breve? Não achas que é um pouco o que falta a esta geração de bandas, um ou outro lançamento em CD?
É possível que o disco novo saia em CD e/ou em LP. Em relação à tua segunda pergunta penso que todos os objectos conseguidos têm mérito, seja em que plataforma e formato for. O ideal seria manter a documentação das coisas a uma velocidade porreira em CD-R, cassete ou MP3 e de vez em quando mandar uma malha mais definitiva, talvez com outros meios e outra tiragem, outro intuito e focus, para que fique bem explícito em fita o quão grandes algumas destas bandas são. Ao mesmo tempo também é fulcral que se criem documentos que possam facilmente ser encontrados à venda em lojas de música independente por todo o mundo (porque facilmente encomendáveis), o que é mais difícil quando estás a trabalhar com edições de autor, poucas quantidades e formatos menos convencionais.
Concordas que os Loosers, apesar de o negarem, são os responsáveis mor por toda esta comunidade de gente de sangue na guelra que adoptou o ruído, o rock menos convencional ou a electrónica, entre outros?
Pela electrónica não me parece nada que o sejam de uma forma directa, só indirecta. Penso que há uma série de coisas importantes para isto tudo estar a acontecer. Desde a quantidade de gente incrível que tem passado pela ZDB, Passos Manuel, Casa das Artes (e, até ao ano passado, mais no Mercedes e nos Maus Hábitos), ao próprio centro aglutinador geográfico e criativo que a ZDB acaba por ser no caso de Lisboa. Penso que qualquer assíduo destes espaços aprendeu a ver a música de uma forma muito mais aberta, livre e plural, a pôr muitas mais questões e exigências construtivas à música, que são tudo coisas fundamentais para ires percebendo cenas e tirando conclusões constantemente, e subsequentemente para ires fazendo mais e mais livre.
Em relação aos Loosers, penso que qualquer pessoa que toque (ou não) e tenha um interesse em músicas livres e os visse em finais de 2004/2005/hoje ia a correr fazer uma banda. Um bando de gajos, dentro de um rock completamente mutilado, a fazer música incrível em Portugal, não se via há tempo demais. Vê-los com Fish & Sheep na ZDB no início do ano passado foi mesmo daqueles momentos de revelação, que te fazem destruir qualquer tipo de planificação - mesmo que a curto-prazo - que pudesses ter para a tua vida. Penso que os Loosers terão sido um empurrão fulcral para uma série de cabeças que, naquele ponto no tempo e por todas estas razões, estavam prestes a explodir. Foram alta ajuda para algumas pessoas começarem a concretizar. Banda do caralho, eles.
Um dos fenómenos mais curiosos de toda esta nova realidade é a multiplicação das bandas em imensos projectos paralelos. Tu, por exemplo, tens os Braço e o Joaquim Albergaria tem os Vicious 5 (que não são tão paralelos quando isso). Isto faz parte da tal urgência anunciada?
Não consigo achar que qualquer tipo de urgência possa ser anunciada, só detectada, senão não era urgência, porque não era espontânea. A Rita, eu e o Quim também estamos a tocar numa cena chamada Manta Rota, que tocou agora na ZDB no dia 14, com o Nélson Gomes, o Natxo Checa e o Afonso Simões, alto estrilho comunal de etno-urbano tuga. Com os Vicious o Quim já está a tocar há praticamente quatro anos, portanto, como dizes, isso acaba por aparecer bastante em paralelo às outras pessoas a quem te referes, mas não tenho dúvidas que um gajo leva tudo o que aprende em todos os sítios por onde passa para cada sítio para onde vai, portanto mesmo que só bastante por tabela, tocar com CAVEIRA ou com a Manta há-de ser fixe para o Quim no contexto V5. Em relação a Braço, toco com o Afonso há mais de sete anos, mas sem dúvida que o facto de andarmos a dar concertos noutras bandas e de termos onde ensaiar regularmente e tocar foi um empurrão muito importante para que concretizássemos uma série de coisas. Será tão simples quanto uma série de pessoas a conhecerem-se, outras a conhecerem-se melhor, e a terem noção que têm uma série de coisas em comum que querem materializar ou explorar, numa série de situações e com uma série de meios muito diferentes entre si.
Neste momento, os dois locais que apostam mais neste tipo de cenas são então a Galeria Zé dos Bois e o Passos Manuel. Não achas igualmente que para isto avançar é mesmo necessário que mais salas acolham este tipo de projectos?
Para salas independentes poderem acolher estes projectos (falando realisticamente, de um ponto de vista financeiro) têm que ter um público. Há cidades em Portugal que, por questões demográficas, têm muito mais dificuldade em criar um público genuinamente interessado simplesmente porque não é assim tão fácil ter uma relação com música que permita encaixar este tipo de expressão criativa. Ao mesmo tempo, há cidades de média-escala, tipo Coimbra ou Braga (que ainda por cima têm rádio universitárias), que têm condições para albergarem este tipo de músicas, quer por terem meios de difusão, quer pelo número de população (sendo que uma percentagem considerável é universitária, ainda por cima). De resto, quando não há um público é preciso inventá-lo. Quem souber criá-lo - não é assim tão difícil - de certeza que vai contribuir para algo de importante
Os Loosers e os Gala Drop são dois casos de projectos que já andaram pela Europa fora com outras bandas em digressões mais ou menos longas. Projectam um futuro semelhante para os CAVEIRA?
Esta pergunta acaba por se intersectar com a anterior, na medida em que não me parece que nenhuma destas bandas de que estamos a falar faça música que é somente para consumo interno. Antes pelo contrário. Para nós não faz sentido pensar só em termos nacionais, apesar de gramarmos imenso Lisboa e Portugal. Primeiro porque estar sempre só a tocar para os mesmos nos mesmos sítios vai-se tornar cansativo mais ou menos depressa (mesmo que os mesmos nos estejam a receber tão bem como estão, o que é fantástico), depois porque a nossa música, esperamos, será tão válida num sítio como Lisboa, como o será em Hasselt para o pessoal mobilizado pela K-RAA-K, como em Londres, Nova Iorque, São Francisco ou Tóquio. Não é música para Queimas das Fitas nem para o circuito de emigrantes lá fora. Faz sentido pensar na nossa música em termos das pessoas potencialmente interessadas neste som em qualquer parte do mundo. Mais cedo ou mais tarde o que dizes há-de acontecer. Quanto mais cedo melhor, claro.
Há alguns meses, numa entrevista ao Y, pintavas uma comunidade no lugar de uma cena. O que mudou desde então para além do número de bandas? O que deverá mudar nos próximos tempos?
Penso que algumas pessoas se conheceram melhor (daí o número de bandas ter aumentado um pouco) e que há mais concertos, mas de resto está tudo na mesma, que é o mesmo que dizer que vejo toda a gente em movimentação e progressão. Não poderia ser de outra forma. Em relação a isso que citas falei que via mais a coisa como uma comunidade do que como uma cena, e mantenho isso, mesmo que essa história não seja muito consciente de nós para nós. Alguns de nós somos amigos e pronto, é só. A noção de cena aplicada a estas bandas e a tantas outras comunidades ou grupos de amigos que fazem som juntos é uma limitação, tipo uma sebenta rasca, de comprimir uma série de manifestações criativas que são díspares entre si numa única coisa, muito mais pequena e esguia do que na realidade é, e qual é o interesse dessa merda? Se há uma cena que une uma banda como os Fish & Sheep ou aos Frango, por exemplo, é que tentam todos fazer a sua própria coisa, nos seus próprios termos, numa linguagem que é só deles. Mas isso não é uma cena, é um princípio ético. Em relação ao que deverá mudar não faço puto de ideia, e ainda bem. Todas as suposições morrem à nascença.
André Tiago Gomes
Foto: Pedro Alfacinha
(Mondo Bizarre - Janeiro 2006)
| | |