Entrevistas
COLLEEN
AS ONDAS SILÊNCIOSAS DAS CAIXAS DE MÚSICA

Qual a ligação entre as antigas caixas de música da infância de alguns e o software de edição de som da actualidade? E o que nos pode revelar um filme esquecido dos anos 60? E que tal viajar no tempo e ir até ao século XVI, para encontrar instrumentos esquecidos? E porque não deixarmos de fazer música porque gostamos imenso de um disco? Para todas estas perguntas Cecile Schott (conhecida por Colleen) tem as suas respostas, pois foram questões que surgiram naturalmente durante o seu percurso enquanto artista. Em Outubro de 2006 Colleen veio a Portugal tocar no 6º Encontro de Música Experimental em Palmela, e falou com a Mondo Bizarre num jardim em Setúbal. Tinha acabado de lançar um EP feito com sons de caixas de música chamado e estava a trabalhar no novo álbum “Les Ondes Silencieuses”.

Acabou de lançar o seu primeiro EP, usando o som de caixas de música. Donde surgiu essa ideia?

Há muito tempo que estava interessada no som de caixas de música. Comecei a comprar caixas de música há 4 anos atrás, quando já estava a fazer música electrónica. Quando ouvi o som das caixas de música era realmente muito semelhante aos sons da música electrónica, e existia uma loja de brinquedos ao lado do sítio onde vivo em Paris. Um dia vagueei por lá e existiam muitas caixas de música. Comprei algumas e na mesma altura comprei também pedais de delay. Estava a começar a trabalhar para os meus concertos ao vivo, depois da edição do primeiro álbum, e tornou-se óbvio que era bom combinar o som de caixas de música com sampling, e invertendo as caixas de música obtém-se um som diferente. Fiz as minhas primeiras peças para caixas de música e há dois anos encontrei uma caixa de música mais complexa chamada Componium. Tem o mecanismo de uma caixa de música, mas através de cartões podem-se fazer buracos e criar música diferente. Portanto comecei a fazer músicas assim. E então tive uma comissão de uma rádio nacional francesa chamada France Culture. Havia um programa intitulado “Atelier de Création Radiofonique” e deram-me a oportunidade de criar uma hora de transmissão do que eu quisesse. Eles gostam de palavras, mas eu sou acima de tudo um músico, e por isso não estava interessada em misturar palavras e música, não é algo que queira fazer. O programa tinha de ser especial, não podia ser só música que fosse para um álbum ou música típica dos concertos ao vivo. Pensei então porque não fazer um programa inteiro com uma coisa compulsiva, que seria as caixas de música? O elemento não musical veio de filmes que usassem caixas de música. E acabei por encontrar imensos filmes. Comecei a trabalhar nessa ideia e o problema que tive foi evitar que o som fosse sempre parecido. Muitas vezes as pessoas acham a minha música ingénua e inocente, mas eu não quero apenas isso e pensei que o desafio seria fazer uma hora de música interessante apenas com aqueles sons. E a variedade de sons apareceu numa visita a um amigo na Escócia, que tinha grandes caixas de música da época vitoriana. Comecei a toca-las, mas as melodias eram muito más, por isso comecei a usa-las como um instrumento e desisti de usa-las como caixas de música tal como foram programadas. No final soavam às vezes a um glockenspiel, noutras a um gamelan, todo esse tipo de sons percussivos. Gravei-os e tratei-os no computador para alterar a altura e torna-los mais elaborados. Fiz o programa com isso e com os filmes, e fiquei tão contente com o resultado que achei que seria uma pena ser-se ouvido apenas uma vez na rádio. Enviei o trabalho para a Leaf e perguntei o que eles achavam. Eles gostaram muito e decidimos lança-lo como um EP com 39 minutos, o que é realmente longo. A razão para o chamarmos de EP foi porque não era o meu terceiro álbum, isto era um projecto especial.

Mas isso exigiu muita pesquisa, não foi?

Sim, especialmente os filmes. Mas no final os filmes não estão no EP, por isso essa pesquisa irá permanecer desconhecida.

Que filmes encontrou?

O melhor filme que encontrei foi “The Innocents”. É um filme pouco conhecido que foi agora lançado em DVD, e foi feito nos anos 60 por um realizador inglês chamado Jack Clayton. É baseado num conto de Henry James chamado “Turn of the Skrew”, onde também se inspirou o filme “The Others”. Estava a vê-lo e subitamente a personagem principal, uma governanta duma mansão com duas crianças esquisitas, órfãs, que jogavam às escondidas na casa, vai ao sótão e a caixa de música começa a tocar. A caixa de música é ouvida 5 ou 6 vezes no filme, e de uma maneira ameaçadora lembrava a tragédia que lá aconteceu no passado.

É engraçado, acho que já ouvi imensas caixas de música em filmes, mas não me recordo de nenhuma agora.

Sim, eu perguntava às pessoas por filmes com caixas de música, mas a maior parte só se lembrava de um filme. Como “Ensayo de un Crimen” de Luis Buñuel, do período mexicano, sobre um homem que estava convencido que quando era criança tinha morto a governanta por causa de tocar uma caixa de música. Usei “Por Mais um Punhado de Dólares”, de Sergio Leone, por causa de uma caixa de música escondida num relógio que está ligada com uma morte trágica... Usei ainda “Casanova” de Fellini, há uma mulher mecânica pela qual o Casanova se apaixona. E mal terminei o projecto vi mais três filmes com caixas de música.

Ouvi dizer que tinha feito a banda sonora de um filme...

Não, não é verdade. Tive algumas propostas, normalmente para curtas-metragens, mas regra geral acho que é muito difícil manter o nível de qualidade se produzir demasiado. Este ano foi excepcional para mim...

Houve ainda um CD ao vivo...

Para mim era material antigo, foi produzido há dois anos atrás. Às vezes a minha música é usada em curtas-metragens, como no filme “Wild Tigers I Have Known” do americano Cam Archer, que usou dois excertos de música minha. Mas não foi uma banda sonora. Acho que um dia isso irá acontecer.

Gosta muito de cinema?

Eu realmente adoro cinema mas durante bastante tempo não tive TV, nem ia ao cinema. A razão para isso é que só podia estar apaixonada por uma coisa. Tenho muitos interesses, mas a coisa na qual queria estar concentrada era na música. Mas ando a redescobrir o cinema, e sou sempre inspirada por uma boa pintura, um bom filme ou outra boa música. Não quer dizer que me inspire directamente nessas obras, mas é uma experiência revigorante.

Mas a sua música é emocional e pessoal, não é?

É sempre difícil compreender e explicar donde vem a inspiração. Às vezes acho que tenho sorte. Há algo dentro de mim que tem de sair e ser expressada como música. Porquê não sei. A minha principal fonte de inspiração vem do meu amor por instrumentos acústicos, é algo que faz parte de mim e procuro sempre uma melodia bonita. E sinto-me realmente com sorte porque outras pessoas gostam do que faço.

Bem, apesar de não ter atingido o número 1 dos tops de música, tem tido bastante sucesso. Está surpreendida com isso?

Nunca pensei que tal fosse acontecer. Se há 15 anos atrás quando comecei a tocar guitarra alguém me dissesse que iria gravar discos e milhares de pessoas o iriam comprar; e que iria viajar por toda a Europa e EUA; eu diria “estás a gozar, não vai acontecer”, era como um sonho. Mas por outro lado acho que trabalhei mesmo muito para o conseguir. E já faço música há 15 anos. Mas tento nunca esquecer que isto não é um emprego normal. Mas é um emprego, é como eu ganho a vida agora.

Já não é professora?

Este ano não dou mais aulas, e se puder não volto a dar aulas.

Porquê?

Dar aulas era uma espécie de faca de dois gumes. No início era muito bom, porque os professores na França têm muitas férias, e quando eu comecei a dar aulas foi quando comecei a fazer a música que saiu no primeiro álbum. Estava a estudar inglês e precisava de emprego, portanto não era algo que eu realmente desejasse fazer. Estudei muito para ter o diploma e ao mesmo tempo comecei a fazer música com samples. E em simultâneo gravei o 7” e comecei a dar aulas a tempo inteiro. Foi quando lancei o primeiro álbum. Era realmente maluco ter que trabalhar como professora de 180 alunos 4 a 5 dias por semana e por outro lado começar a dar entrevistas e concerto ao vivo. Dois anos depois pude dar aulas a tempo parcial mas era frustrante na mesma porque ficava cansada de trabalhar, quando recebia ofertas para concertos e estava mais confiante na minha capacidade para fazer música. O amor pela música tornou-se cada vez mais forte. Em 2005 candidatei-me a uma licença sabática e em Abril disseram-me que não. Não podia ser porque não existiam professores de inglês suficientes, por isso tinha que continuar a trabalhar. É assim que a França funciona, uma vez dentro do Estado é bom porque não se pode ser despedido a não ser que se faça algo de muito errado, mas também é como estar na tropa. Não se é livre para sair quando se quer sair. Achei ridículo porque podia estar a tocar em Singapura ou Taiwan e não podia porque tinha que trabalhar. Comecei a fazer o balanço, gostava de dar aulas e tinha alunos bastante simpáticos, mas começa-se a comparar opções. Mas em Agosto recebi uma carta a conceder-me a licença sabática. Não sei porquê, mas deram-me. O problema terminou durante 1 ano.

Se calhar ouviram a sua música.

Não, não me parece (risos).

Qual é a importância da música não-ocidental no seu trabalho?

É outra inspiração. Parcialmente por causa do som dos instrumentos. Se se pensar acerca de todos os instrumentos que existem no mundo e nos restringirmos aos ocidentais é uma pena. Há algumas horas atrás vi uma guitarra portuguesa. E a guitarra portuguesa tem mesmo um som diferente. Seria muito interessante usa-la num contexto não tradicional, sem ser no fado. Estou interessada nos sons. Nem sempre soa bem quando um artista ocidental toca um instrumento não-ocidental. Temos que ser cautelosos... não sei... para evitar usar os instrumentos de uma forma que seja pobre quando comparada com o som original. Outra inspiração é não usarem as mesmas escalas e notas que nós. Para mim, a música não-ocidental não nos diz o que devemos sentir. Há mais interacção com o ouvinte. Isso é muito mais interessante que colocar uns violinos para nos fazer tristes. Portanto estas são duas importantes fontes de inspiração. Espero um dia ter tempo para estudar um instrumento adequadamente.

Se calhar é necessário estar em contacto com esses instrumentos desde criança para de facto os compreender...

Mas eu sou a típica pessoa que não tocou nada até ter 15 anos, e comecei a tocar violoncelo quando tinha 27, e voltei a tocar viola desde Fevereiro de 2006, e sei que não vou ser uma virtuosa, mas eu acho que se pode ser bom se praticar e tentar expressar o que temos para expressar.

Li na internet o impacto que os This Heat tiveram em si. O que eu não sabia era do impacto que os Autechre também tiveram. É engraçado porque nestes casos ou parou de fazer música ou decidiu não seguir um determinado caminho musical. Foram discos importantes para si, mas de maneira diferente, não é?

É interessante que um disco possa ser importante por nos fazer parar ou prevenir de tentar fazer algo. Alguns discos são importantes porque nos impulsionam para fazer coisas semelhantes, mas para se ter uma personalidade é necessário saber o que se quer fazer e o que não se quer fazer. É mesmo importante saber o que se quer evitar, e os This Heat foram importantes porque os conheci quando estava numa banda de rock a tocar guitarra, mas queria algo mais. Era muito nova, sem dinheiro e sem confiança, insegura porque podia não conseguir fazer aquilo, e a minha cultura musical era demasiado pequena. Quando ouvi This Heat foi revelador. Descobri-os em 1995 mas eles existiram em 1976/1977, e eu disse, “oh meu Deus!”. Percebi que estas três pessoas há 20 anos tinham já feito aquilo, de uma forma mais moderna e menos datada que muitas das bandas de 1995.

Mas existem semelhanças entre o método dos This Heat para fazerem música, num estúdio com todos os instrumentos, e o método que agora usa, com todos esses instrumentos acústicos e um computador para tratar os sons.

Era espantosa a forma como eles usavam a electrónica, e ainda mais impressionante porque agora usando um software de computador é muito fácil, uma criança pode faze-lo...

Se calhar podia ensinar-me, então.

Claro! (risos) Usando o equipamento antigo que tinham e cortando fita magnética... era impressionante. Mas percebo o que quer dizer acerca do método para gravar música e depois transformar noutra coisa... sim, definitivamente.

Eles realmente pensavam que iam ser bem sucedidos comercialmente, mas isso não aconteceu...

Não, não... talvez porque o Gareth Williams saiu da banda... isso é um problema quando se está numa banda, se nem todas as pessoas estão realmente decididas com o mesmo nível de intensidade não se podem criar coisas. Por isso gosto de trabalhar a solo, sou eu que tomo decisões. O sucesso é uma coisa estranha... porque são os Franz Ferdinand tão bem sucedidos? Não faço ideia...

Gosta de Franz Ferdinand?

Nem sequer é uma questão de não gostar. Não me interessam. Não é o mesmo mundo musical.

E r’n’b?

Não ouço... Sei que há coisas interessantes como Timbaland. Adoro a canção dos Outkast “Hey Ya!”, é realmente uma grande canção. Mas não tenho tempo para seguir a música como gostaria... Há muitas coisas para ouvir agora, é de doidos. Centenas de lançamentos todas as semanas...

Ainda vai à livraria procurar discos?

(algo envergonhada) Não, faço download... (risos)

Gosta de o fazer?

Bem, sabe, é muito útil. Seja como for não faz grande diferença. Quando levava discos da livraria copiava-os todos. Obviamente há problemas no download. Se todos descarregarem o meu álbum não vou ganhar dinheiro algum a vender discos e seria mau para mim. Mas quando era adolescente era muito curiosa. Há um ano atrás estava em casa dos meus pais e encontrei os diários que escrevi quando tinha entre 15 e 17 anos de idade. Acho que sofria por viver numa cidade pequena. Só existia um cinema e tudo o que se podia ver eram os filmes dos anos 80 com o Schwarzenegger e o Stallone. Não existiam concertos. E lia sobre jazz. Mas os meus pais não ouviam muita música. Não havia discoteca. Só havia a rádio. Nenhuma maneira de conhecer coisas. Acabei por descobrir música através de amigos que tinham mais dinheiro que eu para comprar discos. Por isso copiava tudo para cassete. Agora, se se é adolescente só se precisa de um computador e uma boa ligação à internet. Pode-se escrever John Coltrane para imediatamente saber quem era e descarregar música dele.

Há agora pessoas com 17 anos de idade que conhecem mais de 700 álbuns, o que é mais que 10 vezes o número de álbuns que teria ouvido com essa idade...

Quando tinha 18 anos, tinha 12 CDs. Se calhar quando se é adolescente fica-se obcecado com um disco que se ouve o tempo todo. Eu conhecia os discos muito bem. Todas as canções, todos os detalhes... Agora não conheço os discos assim tão bem, já não consigo ouvir discos dessa maneira obsessiva. E quando se descarrega música a tendência é gravar num CD e se não se gostar, não se ouve... Antes tinha-se o gravador de cassetes, e tinha-se que se ouvir tudo para se saber se gostávamos de alguma coisa. E para re-ouvir uma canção era necessário rebobinar. Éramos uma geração mais paciente. Agora todos os meus alunos têm ipods e outros leitores de mp3. O leitor de CDs é passado pré-histórico. Não admira que não se consigam concentrar, basta clicarem para obter a música, e se não se gostar deita-se fora.

De certo modo a importância das canções reapareceu e os álbuns perderam importância...

Não tinha pensado nisso. Talvez tenha razão. O que é mau para mim porque com a minha música realmente não faço singles...

Talvez pertença a outro campeonato...

Sim, não existirão muito miúdos de 16 anos a descarregar o último single da Colleen. Mas por exemplo o último EP, se não se dispuser de 40 minutos para o ouvir sentado, acho que não faz sentido ouvi-lo. Não é música para ser agradável quando se conduz o carro.

A internet teve o seu papel na forma como a sua música foi difundida...

Acha? Não sei...

Posso falar da minha experiência. Ouvi a sua música pela primeira vez depois de ser descarregada da internet... (risos) Acha que a Internet torna certo tipo de música mais disponível para mais pessoas?

Sim, claro. Presto muita atenção ao meu site. Todos têm uma página no MySpace, as pessoas gostam porque podem lá ir e ouvir a música. Mas na minha página sempre foi possível ouvir todas as canções dos meus álbuns. É frustrante ir a um site e ver uma foto: se não se ouve o disco não se sabe se o queremos comprar ou se gostamos do artista. Por isso acho que a internet é muito útil.

César A Laia
(Mondo Bizarre - Julho 2007)