THE COME ONS
Dança “Hip”
São de Detroit e chamam-se Come Ons. «Hip Check!», o segundo álbum, é um manancial irresistível de música de dança. Bem vindos a um mundo onde o funk caleidoscópio de Sly Stone se insinua na incitação ao «shake shake» de Booker T. Ou simplesmente «Dance sister dance», como parece dizer a capa do novo álbum.
Com dois álbuns até ao momento (um primeiro, homónimo, e outro acabado de sair, «Hip Check!»), os Come Ons são um dos poucos segredos que a mui falada Detroit tem ainda guardada para surpresa do público incauto. Espera-se que não por muito tempo. Conterrâneos da cidade dos Stooges e da Motown, privilegiam a acção da segunda. A revolução faz-se dançando - mesmo se revolução é palavra alheia ao discurso de Deanne Iovan (voz/baixo), Jim Johnson (guitarra) e Patrick Pantano (baterista, também dos Dirtbombs). A coisa é subliminar. Começa com um sorriso e um ligeiro movimento de anca e, imagina-se, acaba numa manifestação de sensualidade à flor da pele. As palavras de ordem são gritadas por uma voz doce, mas exigente, e exacerbadas por uma bateria, um baixo, uma guitarra e um órgão versados no «gospel» do «groove». «Yeah, Baby, Yeah!», grita alguém. Tem toda a razão.
Porque é que uma cidade cinzenta e industrial como Detroit origina tantas bandas coloridas a soul como os Come Ons? Será que a Motown explica tudo?
Para lhe dizer a verdade, não sei que resposta dar. A maioria dos músicos daqui são grandes colecionadores e estão muito «por dentro» da história da música que fazem. Ninguém parece preocupado em tornar-se grande ou em saber o que está a dar no momento. Os músicos gravam os discos e dão os concertos da forma que eles próprios gostariam de receber como público. Quanto à questão das bandas «coloridas a soul» respondo-to com outro «tiro no escuro». Detroit tem uma imensa comunidade afro-americana. Discos de soul, funk e r&b são tocados assiduamente por aqui. Não só coisas da Motown, Detroit tem uma longa história de editoras e bandas soul. Logo, se estás interessado em música anterior aos anos 70 acabarás por comprar imensos discos de música negra. Não há volta a dar-lhe.
Numa entrevista, a Deanne afirmou que a música dos Come Ons é sobre «encontros e dançar». Isso explica porque é que a maioria das vossas canções gravitam em volta do amor, do «boy meets girl», da «girl meets boy», desembocando no obrigatório «let’s make it», certo?
Teria que lhe perguntar a ela. É a Deanne que escreve a maior parte das letras. Mas posso dizer-te que sim; o ritmo da dança, do romance, das festas, são uma grande componente daquilo que fazemos. Poderia falar durante horas acerca da dança, do romance e da libertação (política ou não) resultante. Bem como de quão importante uma coisa tão aparentemente insignificante como uma pequena banda de dança é. Contudo, isso poderia parecer algo pretensioso. Além disso, o Ian, dos Make Up, é melhor nesse departamento que eu.
Uma vez o Gregg Foreman, dos Delta 72, disse-me que os seus dois primeiros álbuns eram uma banda a aprender o «groove». Os Come Ons, do álbum de estreia ao mais recente, «Hip Check!», parecem ter nascido com o «groove feelin’» perfeitamente incorporado. Imagino que, desse modo, tentarão dentro de pouco tempo criar o ritmo perfeito, aquele que ninguém conseguirá ouvir sem se levantar e imediatamente começar a dançar da forma correcta. Ambicionam a perfeição funk?
Estamos sempre a tentar aproximar-nos do que quer que seja que existe numa canção dançável que nos faz mexer. A maior parte das melhores jams são apenas um riff, um «groove» que se repete vezes sem conta. Nos últimos tempos temos tentado fazer isso diversas vezes. Repetimos incessantemente a melhor parte da jam, esquecendo tudo o resto. James Brown era sempre óptimo nisso, tal como muito do disco underground e do funk electrónico dos inícios. É isso que faz a música de dança diferente, mais hipnótica que a música pop clássica. Mas tocar dessa forma exige muita coragem. Não é exactamente o que as pessoas esperam nos clubes punk onde tocamos habitualmente.
Sei que por vezes os Come Ons se auto-limitam por questões financeiras (não usar metais porque não os podem posteriormente levar em digressão, por exemplo). Imaginem então que eram protegidos de um Berry Gordy, versão 2002. O vosso próximo álbum teria os mesmos condimentos de «Hip Check!» ou arranjariam uns «Memphis Horns» e umas Ikettes para compôr o trabalho?
Não penso que trabalhássemos de forma muito diferente. Espero que façamos exactamente o álbum que queremos independentemente dessas questões. Li o livro de Ben Edmund acerca da criação de «What’s Goin’ On» e é difícil não invejar o tempo, os recursos e os músicos brilhantes que Marvin Gaye tinha à sua disposição. Contudo, quando chega o momento da verdade, aquilo que faz um disco fantástico não são coisas que o dinheiro possa comprar. Os estúdios da Motown, pelos padrões actuais, não eram luxuosos. Está tudo relacionado com a criatividade. No disco em si, o que é fantástico é a «performance»; a forma como as congas interagem com a tarola; a maneira como ele canta, o fraseado das letras e o intensidade de tudo no seu conjunto. Tivessem dado a outro grupo de pessoas os mesmo recursos e não conseguiriam criar metade do que aquele disco é.
Para questão final, algo que vos queria perguntar desde que os meus olhos passaram pelo vosso site (www.thecomeons.com). Qual é o papel da mascote nos Come Ons? Quais são os verdadeiros poderes da «Three-Eyed Super Electric Kitty»?
A «Three Eyed Super Electric Kitty» tem garras electrificadas de justiça e destruirá todo o mal que se atravesse no seu caminho. É a defensora dos puros e inocentes. Ela tornará seguro dançar num mundo opressivo, amar num mundo de ódio, cantar num mundo de medo e limpar-mo-nos a nós próprios com a língua. Adoramos a «Three Eyed Electric Kitty», assim como amamos todos os gatos. No mundo real temos dois que nem têm três olhos nem são eléctricos, mas amamo-los da mesma maneira.
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 12)
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