Entrevistas
COOP
O ADVOGADO DO DIABO
Coop pode ser um artista bizarro mas é um dos mais importantes da chamada "arte alternativa" dos dias que correm. A propósito da edição do seu primeiro livro, "Devil's Advocate - The Art of Coop", onde se reunem 15 anos de trabalhos ligados á poster art, artes gráficas, à pintura e ilustração, Coop falou à Mondo Bizarre.

Nasceu Chris Cooper, no Oklahoma, em 1968, mas ficará conhecido como Coop. É este o nome de um dos mais conceituados desenhadores americanos da actualidade. Se os posters de rock que desenhou para uma imensidão de bandas o tornaram famoso pela maneira como expunha as suas fantasias, normalmente associadas a mulheres voluptuosas, diabas e diabos sorridentes, cientistas malucos ou tipos com cara de imbecís, o seu traço tem-se espalhado por uma enorme parafernália de artigos com o objectivo de levar o nome de Coop ao maior número de pessoas possível. Se Long Gone John, o patrão da editora Sympathy For The Record Industry, e Frank Kozik, outro important nome da poster art, não o tivessem apresentado ao mundo da música talvez hoje não pudéssemos apreciar a magnitude da sua obra, que podemos encontar, na sua maioria, compilada em "Devil's Advocate", uma edição de luxo com prefácio do guru Robert Williams, e onde se podem encontrar todos os meios onde pode ser encontrado o desenho de Coop: posters, capas de discos, publicidade, merchandise, tatuagens, capas de revistas, ilustração. Os comentários são cortesia do advogado do Diabo.

Quando começou a desenhar?
Comecei por desenhar as coisas típicas dos miúdos. Nunca me passou pelo cabeça, quando rabiscava no meu caderno de escola, que ia poder ganhar a vida a desenhar senhoras nuas e hot rods. Mas foi isso que aconteceu.

Estudou desing ou arte, na escola?
Não. É engraçado perguntam-me sempre isso e eu digo que nunca passei um único dia na escola de arte e que não me arrependo nada disso. Tive as aulas normais de desenho do liceu mas nunca ninguém se entusiasmou muito comigo. Acho estúpido que as escolas de arte ensinem tão pouco sobre arte. São boas para se aprender como conseguir uma bolsa, um emprego ou outras coisas do género. Mas o que me interessava aprender - que era a desenhar, a fazer serigrafias, como obter determinados efeitos com o lápis ou a tinta, ou as diferenças entre o modo de pintar com óleo ou com acrílico -, não eram capaz de me ensinar para além do que eu, à época, já sabia. O único modo de se aprender essas coisas é quando se estuda arte comercial em vez de belas artes. Nunca me arrependi de começar logo a trabalhar em vez de desperdiçar anos e tempo em aulas de arte. Acabei por tomar adecisão certa quando optei por ir aprendendo com a práctica.

Quais foram as suas influências inicias?
A maioria das minhas influências são muito óbvias e banais: Wally Wood, Gil Elvgren, Salvador Dali. Mas também os artistas da revista Mad, Mel Ramos e toda a cena Lowbrow e Hot Rod. Sou uma mistura entre arte "sérias", livros do Mad, livros de banda desenhada e de muitas outras coisas que fui descobrindo ao longo dos anos.

Como é que se meteu no mundo da música?
Os meus primeiros verdadeiros trabalhos relacionados com música foram feitos para a editora do Long Gone John, a Sympathy For The Record Industry. Fiz-lhe tanta coisa que não faço ideia do número exacto de coisas que concebi para a editora. Criei discos, capas, posters, anúncios e tudo aquilo que se possa imaginar. Isso fez com que houvesse mais pessoas a ver o meu trabalho. Essas pessoas acabaram a descobrir o meu telefone e começaram a ligar-me com pedidos de trabalhos.

Diz-se que a sua carreira de criador de posters não teria começado se não fosse por causa de Frank Kozik. Vê algum paralelo entre as carreiras de ambos?
Eu e o Frank somos amigos e é verdade que foi ele que me meteu no mundo dos posters de rock. É difícil ver as nossas carreiras em paralelo porque o nosso trabalho é muito diferente. Tal como o meu, o trabalho dele continua disponivel e a vender bem mas nunca olhei para nós como estando a fazer uma competição. Há muita gente que colecciona arte de ambos e isso nunca foi um problema.

Um dos artistas que mais admira é Robert Williams. Considera que ele abriu o caminho para si, para Kozik e outros artistas semelhantes? E quanto a Ed Roth?
Simplesmente o mundo da arte Lowbrow nunca seria o mesmo sem Robert Williams. Ele cria há anos e não dá sinais de querer abrandar o que é óptimo para toda a gente. Ed Roth foi uma grande influência para muitos dos artistas actuais mas Ross nunca se interessou pelo mundo das belas artes. Esse é o mundo de Williams que tem tentado tudo para ser notado pela cena artística de Nova Iorque. Finalmente conseguiu-o. Já lá fez dois ou três exibições o que o deixou extremamente contente. Mesmo artistas cujo trabalho ainda parece dever ao de Robert Williams - Mark Ryden, Shag e outros -, estão a vender obras às pessoas que começaram por comprar a Robert e a expor nas galerias que começaram por exibir trabalhos deles. Entre o que Robert Williams deu ao mundo com os seus quadros e o que deu com a Juxtapoz, o resultado foi a divulgação e o reconhecimento público para muitos artistas.

Actualmente está a promover o seu livro "Devil's Advocate". Como foi o processo de selecção do material incluído? Existe algum desenho que se tenha arrependido de não ter usado?
Eu tentei meter lá tudo o que podia e acho que consegui... Se alguma coisa importante ficou de fora foi porque era tão velha que o original não estaria em boas condições de ser reproduzido. Por outro lado tinhamos um prazo, e como eu estou sempre a criar tive de parar quando o prazo terminou. É por isso que alguns dos desenhos de moda que fiz para a revista Paper estão lá e outros não. Inicialmente, a Paper pediu-me oito desenhos, mas como gostaram tanto dos que fiz pediram-me mais dois. Infelizmente os últimos dois não ficaram prontos a tempo de serem incluídos no livros, por isso só podem ver os oito primeiros.

Os posters são aquilo que o tornou mais conhecido. O que o fascina nesse meio?
Ultimamente tenho explorado as impressões IRIS. A qualidade e as cores que obtivemos nessas impressões são um espanto. O facto de poder criar uma imagem de um tamanho e poder ter um IRIS do tamanho que quiser, na quantidade que quiser, em papel ou em tela, ou numa combinação de ambos, é absolutamente fabuloso. Posso fazer uma edição de 50 impressões de grande formato, um conjunto de postais e uma edição de 10 telas tudo a partir do mesmo ficheiro de computador. Podemos imprimir quando queremos. Se a edição for de 500 exemplares e vendermos logo 300 não precisamos de armazenar so restantes 200 pois ainda não foram produzidos. É muito flexivel e interessante. Se fossem serigrafias e quisessemos imprimir em duas vezes seria horrível pois mesmo que tivessemos espaço para as guardar teríamos que misturar as tintas (todas as minhas tintas tem cores feitas por encomenda) duas vezes. Seria um desastre.

Uma das principais temáticas do seu trabalho são diabinhas e mulheres voluptuosas. De onde lhe vêm tais obsessões e o que pensam as feministas do assunto?
Esta é uma coisa que me estão sempre a perguntar e toda gente fica muito desapontada com a resposta. A razão é porque as mulheres de todos os géneros (mesmo as feministas) adoram o meu trabalho. As pessoas do meu site estão sempre a reenviar-me correio que recebem de mulheres que me agradessem por desenhar mulheres reais. Há sempre muitas raparigas giras, lésbicas incluidas, que vão às minhas exposições e fazem questão de me dizer que lhes agrada o facto de alguém fazer este tipo de trabalho. Há pouco tempo fui abordado por uma mulher, que ensina "Women's Studies" numa universidade, e que queria saber se podia fazer um seminário sobre mim e o meu trabalho. É claro que disse que sim. Parece-me óbvio que quem olha para o meu trabalho nota que eu gosto de mulheres. Haverá alguém que se possa opôr a isso?

Em que parte da evolução do seu trabalho entra o computador?
Só comecei a usar o computador há dois anos. Actualmente ainda desenho e pinto à mão, mas os retoques de cor são feitos no computador, usando o PhotoShop. Para mim isto não só facilita quando tenho que fazer trabalhos para outrém - assim só tenho que lhes dar um CD com o ficheiro - mas também para arquivar os meus trabalhos. Desta maneira, posso usar essas imagens digitais nos meus próximos livros, o que significa que a imagem impressa no livro estará o mais próximo possível da imagem original.

As fontes que criou para os seus posters foram editadas em CD-R pela House Industries. Era algo que já tinha em mente ou partiu de uma ideia deles?
A ideia foi deles, e tem vendido muito bem. Agora essas fontes aparecem em todo o lado. Vejo-as nas caixas dos cereais, nas capas de DVD's e jogos de vídeo. Acabei de comprar as novas action figures dos Simpsons e as minhas fontes estão na embalagem, o que é fantástico porque eu e a minha mulhar somos fanáticos dos Simpsons. Isto sem falar no facto do McDonald's ter usado uma das minhas fontes na campanha "I love to see you smile". A lista é interminável e eu adoro isso!

A Playboy e a MTV estão entre os seus clientes. O que os levou a contratar os seus serviços?
Sou abordado por diferentes empresas. Desde há muito tempo que trabalhado no circuito comercial, por isso muitos dos directores artísticos dessas empresas têm o meu número de telefone. Para além disso recebo muitos pedidos que me são direccionados através do meu site e também tenho um agente em Nova Iorque que me arranja muitos desses trabalhos.

Uma vez disse que odiava os intermediários e a maioria dos donos de galerias de arte. Foi por isso que criou o www.coopstuff.com? Para lhe servir como meio de promoção e venda dos seus trabalhos?
Mais ou menos. A razão porque criei o site é maioritáriamente porque existe tanta merchandise diferente e às vezes é difícil concentrar tudo num só distribuidor. Por exemplo, uma loja pode vender as minhas t-shirts, mas pode não ter os autocolantes, ou então podem ter as duas mas não ter os skates, ou os copos de shots ou os posters. Existem muitos items, que são fabricados por diferentes empresas, o que torna bastante difícil a procura e a compra. Por isso decidi fazer isto para que as pessoas que apreciam o meu trabalho possam coleccionar o que lhes interessa procurando apenas num só local. É como se alguém fosse a casa de uma pessoa e pergutasse: "Eu tenho estes produtos do Coop, vindos de todo mundo. Querem comprar alguns?"

No campo da merchandising, licenciou muitos dos seus trabalhos para uma série de artefactos. Não teme que a imagem dos seus desenhos fique gasta?
Pelo contrário. Eu adoro isso, porque independentemente do dinheiro que as pessoas possam ter existe sempre alguma coisa que possam comprar. Podem comprar um autocolante, um boné ou uma t-shirt, e se tiverem um espaço na parede podem comprar um poster, um skate ou outra coisa qualquer. Se não puderem comprar um quadro original, podem sempre comprar uma serigrafia. Não creio que tudo isto diminua a minha imagem. Pelo contrário julgo que a torna melhor e integrada na paisagem cultural.

Sei que faz parte da Church of Satan. Como conheceu o Anton LaVey e se tornou sacerdote? Ele gostava do seu trabalho?
Eu e a minha mulher tivemos a sorte de conhecer o Dr. LaVey e a sua mulher Blanche através de uns amigos comuns. Sempre nos demos muito bem e sempre que íamos a São Francisco em trabalho ficávamos hospedados na casa dele. Costumávamos ficar num quarto do andar superior da casa, e um dia quando nos vinhamos embora a Blanche deu-nos um envelope. Só o abrimos quando chegámos a casa, e descobrimos que o Dr. LaVey nos tinha formado sacerdotes da Church of Satan. Muita gente faz um grande alarido disso, mas nós considerávamo-lo apenas um amigo. Eu tenho muito orgulho em dizer que ele gostava muito do meu trabalho, razão pela qual fiz o poster da Chuch of Satan. Foi engraçado porque a Igreja não anda propriamente à procura de novos membros. Esse poster acabou por ser uma piada interna, mas tornou-se imensamente popular e esgotou num instante.

É verdade que, se pudesse, não faria nada na vida?
Isso não é bem verdade, mas tenho outros interesses para além de desenhar bonecos estranhos, e se tivesse mais tempo gostaria de os explorar. Por exemplo, estou muito interessado na arquitectura. Eu e a minha mulher comprámos uma casa o ano passado e eu estou muito empenhado na sua decoração, no desenho do que vou meter lá dentro. Adoro desenhar tudo aquilo que gostaria de ter em casa e depois vê-las construídas. Até agora conseguimos construir a biblioteca que eu desenhei e ficou fantástica. Talvez venha a ser o meu compartimento favorito de toda a casa. Onde quero chegar é que existem muitas coisas que gostaria de experimentar, e se não tivesse que desenhar para viver teria muito mais tempo livre para isso.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 10)