Entrevistas
CORNELIUS
O JAPONÊS TRANQUILO
Cornelius é um artista japonês sui generis: adoptou a cultura musical (e não só) ocidental acrescentando-lhe um toque oriental. O resultado é simultaneamente exultante e bizarro. Música feita de materiais sonoros díspares, mas cheia de sensibilidade... nipónica. Esta entrevista prova que a visão cosmopolita de Cornelius está em sintonia com a era da globalização que actualmente vivemos.

Keigo Oyamada de nome próprio, Cornelius é um músico visionário que em 1998 espantou meio mundo com o seu álbum "Fantasma", um testemunho irrevogável de multidisciplinariedade estética e de audácia formal. Era um disco feito de fórmulas mistas na concepção e um caldeirão de referências, que podiam ir do rock sónico à pop electrónica ou do easy listening ao funk. No fundo, Cornelius fundia múltiplas sensibilidades como forma de antever o eminente fenómeno da globalização cultural, hoje tão em voga, para o bem e para o mal. Não era uma ideia propriamente original, mas ainda assim era arriscada e bem conseguida. Passados estes últimos quatro anos - e alguns EPs de remisturas e colaborações depois - o músico oriental regressa com um disco não tão ambicioso quanto o "Fantasma", mas talvez mais coerente na sua essência: "Point", de seu título, é um disco novamente editado pela Matador Records, e apresenta-nos um Cornelius mais contido e menos dado a experimentalismos fusionistas. A base de trabalho é pop, com piscadelas de olho subtis ao rock, à electrónica sem grandes artifícios e uma abordagem à cultura musical brasileira, com a versão de um tema clássico da tradição musical daquele país ("Brazil"). "Point", no fundo, é um documento não tão expansivo estilisticamente (tendo em conta os trabalhos anteriores do seu autor), mas continua a revelar a marca inconfundível de um músico que, mesmos sendo japonês, revela ter assimilado muito bem a cultura musical ocidental. Naturalmente, para depois a reformular e a recontextualizar num universo muito próprio. E já não são muitos os músicos que hoje em dia conseguem este feito.

Pode explicar qual foi o seu percurso musical?
No início eu gostava de música de desenhos animados como o "Ultra-Man" e também dos ruídos e vozes dos monstros dos filmes de ficção ciêntifica. Também apreciava os tambores tradicionais japoneses e mais tarde, quando andava na escola preparatória devorava a música dos tops, em particular as coisas inglesas e americanas. Uma das minhas bandas favoritas desse período são os Kiss que vejo como uma espécie de super-heróis. E continuo a gostar muito de monstros.

E como passou dessas escolhas musicais para a música electrónica?
No liceu fui-me interessando por outros tipos de música. Comecei pela pop electrónica dos anos 80. Depois passei ao punk, garage, dança e acabei a fazer o que faço. Tudo o que ouço acaba por se reflectir na minha música.

Em "Fantasma", essa mistura é bem patente pois conjuga rock, noise, electro-pop, sound bytes, easy listening e muitos outros géneros. Tem alguma definição para esta sua heterogénia abordagem musical?
Não. Não sei como designar a minha música. Essa mistura limitou-se a surgir. Podia dizer que a minha música é electrónica pois uso instrumentos electrónicos mas, sinceramente, não sei.

Então não vê a sua música como sendo electrónica...
Não a sinto totalmente assim mas sei que é assim que as pessoas gostam de ver a minha música. Eu aceito qualquer que seja a designação que as pessoas queiram dar ao meu trabalho.

Se a sua música reflecte toda a música que ouve haverá outros sons como so dos dia-à-dia que lhe interessem?
Sim. E esses também estão nos meus discos. Gosto dos sons da rua, dos insectos e dos da água.

Considera "Point" como o segundo capítulo de "Fantasma" ou antes uma mudança radical a nível musical e de carreira?
Ambas as coisas. "Point" é, por um lado, a continuação óbvia de "Fantasma". Mas é também um corte profundo com esse tempo. No entanto, como ambos os discos foram feitos por mim, ambos têm uma continuidade. Mas eu já não sou inteiramente o mesmo, e talvez venha mesmo a acrescentar um terceiro capítulo a esta saga.

Em "Point" existe um tema muito curioso: "Brazil", que é uma versão electrónica de um tema tradicional brasileiro (bossa nova). O que o levou a escrever "Brazil"?
A ideia surgiu de um desafio que me lançaram. Eu gosto da música e da cultura brasileira mas parti para "Brazil" porque me sugeriram que seria interessante colocar uma versão/recriação realizada por mim, de um tema brasileiro, numa compilação. Depois o tema acabou por ser incluido em "Point".

"Point" foi editado pela Matador Records. Há publicações e jornalistas europeus que o dão com o mais importante artista da Matador. O que pensa disso?
Eu não posso julgar o meu próprio valor mas fico contente por haver quem me tenha em tão alta estima.

É-lhe difícil transpor a sua música gravada para um concerto?
Não. O que procuro é, sem alterar a estrutura base dos temas, utilizar sons diferentes que permitam a criação de uma outra atmosfera. Tento fazer com que os concertos sejam diferentes dos discos de modo a que se tornem estimulantes para mim e para a audiência.

Sente-se um artista japonês?
Eu sou japonês. Mas não sei o que é ser um artista japonês. Durante muito tempo fui visto como um "Shibuia-kei". Shibuia é uma parte de Tóquio onde existem muitas lojas de discos importados e onde eu passava muito tempo. Ou seja, viam-me como alguém que absorvia e usava linguagens estrangeiras no seu trabalho. E isso é verdade. Mas para ser franco, não sei bem como me posicionar.

Como descreveria a alguém, que mora tão longe do Japão, a cena musical japonesa?
Como igual à de qualquer outro país industrializado com uma indústria musical forte. No Japão há de tudo: artistas ligeiros e muito populares, bandas de rock, projectos totalmente obscuros...

Há vários músicos ocidentais, sendo talvez os mais conhecidos John Zorn e Bill Laswell, que dizem que a música japonesa é fascinante. Tão fascinante que colaboram regularmente com músicos japoneses e dão frequentes concertos aí. Acha isso importante?
Considero esse interesse dos músicos ocidentais pela música japonesa muito importante. Há muito poucos músicos japoneses a quem é dada a oportunidade de colaborar com músicos ocidentais e são ainda menos aqueles que se tornam conhecidos ou falados fora do país. Quantas mais colaborações existirem mais rica se torna a música feita no Japão.

Victor Afonso
(Mondo Bizarre # 10)