CORNERSHOP
Rocky Balboa Veio da Índia
Chegou a temer-se que os Cornershop teriam acabado, depois do sucesso de “When I Was Born For The 7th Time”. Alguns anos depois e com um disco dos Clinton pelo meio, “Handcream For a Generation” levam mais longe o seu cocktail sonoro, mantendo a mesma frescura de ideias e o mesmo entusiasmo do trabalho anterior. Tjinder Singh falou-nos de como o novo álbum é bom para a pele da nossa geração.
No novo disco, aparecem imagens que ilustram cada tema. No vídeo de “Brimful Of Asha” surgiam várias capas para esse single. A componente visual parece ser um aparte fundamental da vossa música.
O grafismo mais cuidado é algo que nos tem acompanhado desde que começámos a trabalhar com o Nick Edwards, em 1995. Ele é muito bom a conseguir algo diferente e compreende muito bem as nossas ideias. Como não colocamos as letras, utilizar essas imagens é uma maneira fácil de dizer o que se passa em cada tema.
Acham a imagem é importante para uma banda?
Julgo que é tudo importante. Seja o grafismo ou o cabelo. Tudo numa banda é importante. Claro que depende com quem se trabalha, mas existem muitos artistas interessantes em Inglaterra a fazer bons trabalhos a nível visual para bandas. Por outro lado, a ideia inicial deve partir da banda, se não se tiver gosto por esse aspecto não adianta enganar as pessoas (risos).
Recentemente participaram no programa de rádio “The Hijack”, da Xfm, que temas tocaram?
Eu não pude ir, mas sei que o Ben passou muitas coisas diferentes, desde reggae, house, música francesa e coisas como Moldy Peaches ou Jon Spencer. Também passou bandas completamente desconhecidas da maioria das pessoas. Como somos coleccionadores, temos uma colecção de discos enorme e muito por onde escolher...
Ainda continuam a ser frequentadores das garage sales? Uma vez afirmou que a maior parte dos samples que usam são retirados desses discos.
Sim, para além disso também frequentamos lojas de caridade e lojas de discos em segunda mão. Compramos muitas coisas nesses sítios porque para além de se encontrarem coisas fantásticas, os discos são extremamente baratos... Posso comprar um saco de discos por muito pouco dinheiro.
Já entregaram alguns temas de “Handcream for a Generation” para remisturar?
O “Lessons Learnt From Rocky I to Rocky III” já foi remisturados e outros temas irão seguir-se. Não quero especular muito sobre este assunto porque ainda não sabemos qual será o próximo single, mas nós gostamos da ideia de usarem as nossas coisas e as levarem em outras direcções, como aconteceu com o “Brimful Of Asha”. Nunca temos ninguém em mente a não ser quando nos pedem directamente.
O single “Brimful of Asha” tornou-se num grande sucesso com a remistura do Norman Cook (Fatboy Slim). Não sentem alguma frustração pelo facto da remistura ter superado a versão original?
Não, de todo. Gostamos da canção e da remistura. Comecei a trabalhar nessa canção no final de 1996, ao mesmo tempo que escrevíamos temas para os Clinton, e sempre achei que esse tema em particular acabaria por atrair as atenções. O Norman Cook deu-lhe uma dinâmica perfeita que convida à dança e que não aparace na versão original, mas ainda bem que isso aconteceu.
Há 4 anos as manchetes dos jornais britânicos diziam “Cornershop have split. For good”...
Bem, eu não vejo as coisas assim: as outras pessoas podem dizer o que quiserem mas para mim o que os jornais diziam não tinha nada que ver com o que eu pensava. Em Inglaterra têm a mania de tentar saber mais do que o que lhes é devido. Faziam melhor se se metessem na vida deles e deixassem as bandas em paz. Eu compreendo que tenha sido a ideia que acabou por ficar, mas se as pessoas querem dizer disparates não há nada que eu possa fazer para as impedir...
Cinco anos é muito tempo para uma banda editar um novo disco. Sentiram de algum modo pressões exteriores ou simplesmente decidiram voltar ao trabalho?
Não, não houve pressão nenhuma. Julgo que o modo de soar do álbum é uma boa amostra de que não houve pressão nenhuma. É verdade que apenas fizemos dois álbuns em cinco anos o que não é muito comum. Mas também editámos os Clinton e começámos a nossa própria editora. Ou seja, não estivemos parados durante cinco anos.
De onde vem a ideia de formar a Meccico?...
Tudo começou por causa do álbum dos Clinton e tem corrido bem. A coisa maior agora são so Toes, que são muito rocky e que reflectem aquilo de que gostamos na música de hoje.
No intervalo dos discos saiu o álbum dos Clinton. Serviu para descomprimir da pressão dos Cornershop?
Tem o mesmo groove. É o mesmo que com os Cornershop. Desde 94 que temos os Clinton em paralelo com os Cornershop. Os Clinton têm é mais tecnologia mas é a mesma coisa.
Preferem o trabalho de estúdio ou o contacto com o público nas digressões?
Gosto de ambas as partes. De ir em digressão e de estar em estúdio. Agora eu e o Ben também tratamos de todo o nosso management, e isso é bom porque temos sempre muitas coisas diferentes para fazer. É isso que torna as coisas diferentes para mim. Esse nunca saber o que vou fazer amanhã. Se vou estar a escrever, a produzir, a dar entrevistas...
É então a pessoa indicada para dizer se finalmente poderemos ver os Cornershop em Portugal...
Espero que sim. Neste momento estamos a tratar dos festivais e talvez as coisas aconteçam.
Onde querem chegar para chamarem ao disco “Handcream For A Generation”?
Suponho que se um creme pode ser uma coisa boa para as mãos, a nossa música pode ser uma coisa boa para uma geração. O creme de mãos era uma coisa que antes apenas estava disponível para as classes médias, por isso...
A partir de que ideias surgiram os convidados do disco?
As canções chegaram a um certo ponto que comecei a pensar que seria bom convidar algumas pessoas para tocar. No último disco dos Clinton há uma faixa que fala de tocar com os Oasis, por isso o Noel e o Guigsy foram opções óbvias. Com o Rob já tínhamos andado a tocar em 95. É tudo gente que conhecemos e que sabemos que se ia enquadrar nas canções.
Continuam a achar interessante a mistura de estilos?
Gosto das ideias. Mesmo no nosso primeiro EP era assim, muito diferente e ninguém sabia que eramos nós.
O que quer dizer a palavra Wog?
São as iniciais de Western Oriental Gentleman. É uma designação dada aos asiáticos com dinheiro e cultura, que remonta ao princípio do século passado. Se antigamente não era comum isso acontecer, hoje já é mais frequente, o que é sempre bom para a nossa cultura.
No BBC existe uma série feita por indianos que se entretêm a gozar com os britânicos. Revê-se nesse tipo de abordagem?
Eles tentam virar os estereotipos de pernas para o ar. Gozam com todos os clichés da cultura britânica e não poupam ninguém. Também tem a ver com falar-se de racismo de uma maneira bem disposta. Aliás, eu não estaria num grupo chamado Cornershop se não tivesse tido esse tipo de experiências. Encontrei racismo nos mais altos níveis de educação quando andava a estudar para a minha licenciatura. Descobri que as pessoas educadas são tão estúpidas como as não educadas. É por isso que estou no grupo e escrevo sobre essas coisas.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 11)
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