THE CRAMPS
A Vingança dos Marcianos
Os Cramps sempre resistiram a tudo. A editoras, modas, saídas de elementos e ao desgaste provocado por 25 anos de carreira. “Fiends Of Dope Island”, acabado de editar, traz-nos uns Cramps iguais a si mesmos. A feliz transbordância excessiva que marcava “Smell Of Female” ou “A Date With Elvis” deu lugar a uma exuberância mais plácida (se tal é possível) e cujo resultado se pode ouvir no álbum agora lançado. Lux Interior acompanha-nos numa viagem pelo universo Cramps.
Quando nasceram, em meados dos anos 70, os Cramps já eram uns inadaptados. O seu peculiar visual mais não era do que as suas roupas habituais e o seu mundo alimentava-se dos seus gostos: filmes de terror e série B, uma paixão avassaladora pelo legado da música rock’n’roll, obras de arte, livros e cultura trash, carros antigos, um gosto acentuado por roupas exóticas e sapatos de tacão alto. Lux Interior, Poison Ivy, Bryan Gregory e Nick Knox, os quatro cavaleiros do Apocalipse originais, redefiniram o termo psychobilly. Não tardou muito até os Cramps se tornarem Lux Interior e Poison Ivy (ou vice-versa), um casal que vive para a sua banda e que se diverte a coleccionar uma imensidão de quinquilharias e de discos. Os discos acumulados são tantos que ocupam todas as divisões da sua casa e já lhes perderam a conta. Olhando-se para eles ao fim de um quarto de século é difícil ver as mudanças. Continuam esguios e resplandecentes nas suas roupas estrambólicas. A música também permanece quase inalterada e a encaixar na perfeição na fantasia criada por Lux e Ivy. Foi um Lux falador, preocupado com a possibilidade de não estar a responder convenientemente às nossas perguntas quem pacientemente saciou a nossa curiosidade de fás de longa data.
Passaram-se cerca de seis anos desde a edição de “Big Beat From Badsville”. Porque um intervalo tão grande entre os dois álbuns?
Aconteceram muitas coisas com os nossos últimos discos. Num dos casos o dono da editora teve uma overdose, noutro, quando íamos renegociar o contrato o tipo foi preso, e por duas vezes as editoras faliram. Sempre que editávamos um álbum alguma coisa trágica acontecia com a editora, por isso estávamos sem contrato discográfico. Antes disso tivemos que processar a editora porque eles eram terríveis. Decidimos que se íamos continuar a ter esses problemas com as editoras, mais valia fazermos uma e editar os nossos discos. Pelo menos agora não temos que nos preocupar com os calendários de edições e de esperar para o disco sair. Na altura em que saímos da Epitaph, e porque estávamos fartos de editoras e de advogados, comprámos um Buick Riviera de 72, e personalizamo-lo só para não termos de pensar nisso. No resto do tempo estivemos a planear como devíamos fazer as coisas e a reeditar parte do nosso fundo de catálogo. Nestes últimos meses estivemos a gravar o novo álbum e a preparar a sua edição. Como já tínhamos usado a Vengeance para editar os nossos primeiros singles e o álbum ao vivo “RockinnreelininAucklandNewZelandXXX”, achamos que seria interessante recuperar o nome já que a ideia era a mesma.
Disse que tratavam de tudo o que respeita à editora entre os dois. Constantemente na estrada como conseguem ter tempo para tomar conta da promoção, distribuição, etc?
Não é muito difícil, mas tira-nos imenso tempo. Felizmente temos uma boa distribuidora na América e por outro lado não é muito difícil controlarmos o que se passa na Europa porque falamos directamente com os nossos distribuidores.
O título do novo álbum, “Fiends Of Dope Island”, não é literal pois não?
Não, “Fiends of Dope Island” é o nome de um filme de exploitation dos anos 60 bastante popular na América. Sentimos que de alguma maneira criamos uma subcultura quando formamos os Cramps. Mais do que uma banda os Cramps são uma série de pessoas que se sentem parte de algo. Na Califórnia chama-se a isso Kustom Kulture.
Os Cramps são mesmo mais do que uma banda? São um estilo de vida?
Antes de começarmos a banda tínhamos uns amigos que tal como nós viviam das lojas em segunda mão. Quando começámos a fazer o que fazemos, outras pessoas acharam que gostavam de ser como nós e a partir desse interesse desenvolveu-se numa subcultura. Dessa maneira pode dizer-se que os Cramps são um estilo de vida. O nosso estilo de vida é o mesmo que o Robert Johnson ou o Howlin’ Wolf tiveram. Viajamos por aí, tocamos música e gostamos de ter uma vida doida. Sei que há muitas pessoas que gostavam de ter esta vida, mas mesmo não a tendo as suas casas estão cheias de objectos semelhantes aos que nós temos. Acho que o rock’n'roll deve ser um estilo de vida. Tem que ser algo mais do que simples música. Há pessoas que têm uma vida diferente daquilo que fazem em cima de um palco, mas para nós isso é representar. É uma falsa imagem, e nós não queremos ser assim.
Regressemos a “The Fiends Of Dope Island”. As imagens de promoção deste disco são mais gore, mais próximas das dos filmes de terror. Foram feitas a pensar no espírito do álbum?
Sim, os nossos discos são um reflexo do que estamos a fazer em determinada altura. Por isso acho que dentro desse contexto eles são todos diferentes. São editados em diferentes períodos de tempo e estão relacionados com o que estamos a pensar na altura.
Muitas das fotografias dos discos dos Cramps são feitas por si. Como se interessou pela fotografia?
Excepcionalmente, as fotos deste disco não foram feitas por mim. São da responsabilidade de um amigo nosso chamado Rocky Schenck, que realizou alguns dos nossos vídeos. Mas eu adoro fotografia e tenho mais de cento e cinquenta câmaras. É um hobby que tenho e costumo tirar bastantes fotografias. Perco imenso tempo à volta disso. Para mim é muito divertido. Por exemplo, nos últimos dias tenho tirado imensas fotos à nossa banda de suporte, as Gore Gore Girls, enquanto estão em palco.
Já publicou algumas das suas fotos ou fez alguma exposição?
Ainda não, mas espero poder fazer isso mais cedo ou mais tarde. Como até agora temos estado bastante ocupados em colocar na rua este novo disco não tenho pensado muito nisso, mas era algo que adorava fazer.
Na maioria das capas dos discos e nas capas das revistas, quando não surge a banda toda, é a Poison Ivy quem costuma aparecer. Não fica um pouco ciumento?
(risos) Oh, não. A ideia é minha. Ela está sempre a dizer que devia haver uma fotografia minha nas capas dos discos. Aliás nem sei porque é que desta vez só apareço eu na capa do disco. De qualquer maneira acho que ela faz vender mais discos do que eu. (risos)
Isso quer dizer que este disco não vai vender tanto? Como estão a correr as vendas?
Eu espero que venda independentemente da capa. (risos) Por acaso até está a vender bastante bem. Estamos muito entusiasmados porque em 2001, quando editámos as reedições, estas venderam muito bem. Ficámos até um pouco chocados por terem vendido tanto. Mas este é primeiro álbum de originais que editamos por nossa conta e felizmente as coisas estão a correr bem. No início estávamos um pouco preocupados porque tivemos que investir bastante dinheiro, mas agora estamos mais descansados.
As reedições foram uma forma de poderem financiar o “Fiends Of Dope Island”?
Inicialmente só queríamos que esses discos continuassem disponíveis nas lojas, mas devidos às boas vendas acabaram por ajudar a financiar o novo álbum. Acho que vendemos dez vezes mais discos das reedições, do que das respectivas edições originais, durante o mesmo período de tempo. Por alguma razão que desconhecemos, neste momento somos mais populares que nunca. Na América passámos a ser considerados uma “legendary band” e começa a surgir a consciência de que somos uma boa banda, desviando alguma da atenção dada às bandas novas para nós. As pessoas estão a ter muito interesse em entrevistar-nos e os concertos desta digressão estão sempre esgotados. É uma boa altura para nós porque na América, nos últimos anos, as pessoas não iam ver muitas bandas ao vivo. Preferiam ir a festas e ouvir discos em casa. Não tinham muito interesse no rock’n’roll e nos concertos de bandas rock’n’roll. Agora as coisas parecem estar a mudar, o que é um bom indicador.
Disse que os concertos desta digressão estão esgotados. Que tipo de pessoas vai aos vossos concertos, velhos fãs ou pessoas mais novas?
A maior parte das pessoas acha que só as pessoas mais velhas é que vão aos nossos concertos porque nós já existimos há mais de 25 anos, mas eu diria que neste momento a média de idades do público dos nossos concertos é de 18 anos. A grande maioria é nova, mas no meio deles também se vêm pessoas mais velhas.
De onde vos vêm a força para continuarem com a banda ao fim destes anos todos?
Há algo no rock’n’roll baseado nos blues que é muito excitante. É algo divertido de fazer. Não é como um trabalho chato que se tem de fazer. Há muito trabalho por trás, é certo, mas é uma sensação indescritível estar em palco a tocar essa música e ver a reacção que causa. Para mim seria muito difícil se tivesse de parar o que estou a fazer.
Disse há pouco que havia um novo interesse no rock’n’roll. No entanto os Cramps nunca cederam a modas. Nunca sentiram a necessidade seguir uma determinada tendência?
Não, nós nunca tivemos a nossa fase reggae se é isso que quer dizer... (risos) Li na capa de uma Rolling Stone recente que o “rock está de volta”. Comecei a rir porque o rock nunca se foi embora. As pessoas é que não lhe andavam a ligar. (risos)
Durante a vossa carreira tiveram diversos baixistas e bateristas. Porque é que eles não ficam durante muito tempo?
Nós sempre dissemos que isto era uma banda de rock’n’roll e que devia ser uma coisa divertida. Nenhum de nós quer estar numa banda a menos que toda a gente se sinta confortável e se divirta. Por isso se há um elemento que não faz a sua parte, que não quer andar em digressão ou algo assim, então tem de sair. É assim que as coisas funcionam. O Harry Drumdini está connosco há dez anos, feitos no mês passado. Como já existimos há muito tempo, parece que já houve muita gente a passar pelos Cramps. Muitas vezes pedimos a alguém para fazer uma digressão connosco, e como as coisas correm bem ficamos entusiasmados e pensamos que essa pessoa vai passar a ser da banda. Mas nem sempre isso acontece. Em relação aos bateristas, no fundo foram só dois: o Nick Knox durante 13 anos e o Harry Drumdini nos últimos dez anos. Quanto aos baixistas tivemos vários porque a maioria das bandas só dura um par de anos mas nós continuamos sempre em frente. É uma vida dura, com as viagens e os tempos prolongados fora de casa. Como exige bastante de cada um há pessoas que não o querem continuar a fazer. Isso ou tornam-se alcoólicos, drogados, etc. Há bandas que ficam juntas apesar dos elementos se odiarem e pouco falarem entre eles. Limitam-se a subir a um palco e tocar. Nós nunca faremos isso. Se algum dia acharmos que já não é divertido então paramos com a banda. Não é algo que se faça por dinheiro. O rock’n’roll é demasiado espiritual para se estar a fazer por dinheiro. Isso seria como estar a mentir às pessoas.
Curiosamente nunca tiveram mais do que quatro elementos na banda. Quatro é o número certo?
Não sei ao certo. Eu gosto de bandas com cinco elementos, mas no que fazemos tentamos simplificar as coisas ao máximo. Esta é o que pensamos ser a perfeita banda de rock’n’roll. O Chopper (Franklin) tanto toca baixo como guitarra, a Ivy toca guitarra, eu canto e o Harry toca bateria, e isso é tudo o precisamos para fazer as coisas acontecerem. Para nós usar mais uma pessoa é desnecessário. Queremos que as coisas sejam o mais simples possível pois quanto mais simples mais poderoso o rock’n’roll é.
Sempre gravaram e tocaram ao vivo muitas versões. Usam-nas por serem uma constante na tradição dos blues e do rockabilly, géneros onde o tocar músicas de outrem é também uma forma de aprendizagem e aperfeiçoamento?
Sim. Uma boa canção é uma boa canção. Não vemos os Cramps como a única banda do mundo a fazer arte. Somos uma boa banda que toca boas canções. Às vezes somos nós a escreve-las, outras vezes vamos à nossa colecção de discos e descobrimos um tema para o qual tentamos encontrar uma maneira de a tocar melhor que a banda que o compôs. Nós coleccionamos discos durante toda a nossa vida e adoramos tudo o que se passou dentro da história do rock’n'roll. Admiramos muito esse trabalho. Nesta digressão estamos a tocar o “Hang Up” dos Wailers [N.R. banda de garagem que foi a principal influência dos Sonics. Não confundir com a banda de Bob Marley.] , de Seattle, que foi editada originalmente em 1962, e quando a tocamos ao vivo as pessoas ficam histéricas. Se um dos elementos dos Wailers estivesse no meio da assistência acho que começaria a chorar porque é uma sensação estranha. O rock’n’roll baseado nos blues é intemporal. Se uma canção que soava bem em 1962 soar bem 2003 então é porque é uma excelente canção.
Excepto nos vossos primeiros singles e no primeiro álbum, onde trabalharam com Alex Chilton e Chris Speding, nunca mais utilizaram os serviços de um produtor. Porquê?
Acima de tudo acho que nunca precisámos de ninguém para esse trabalho, e nunca encontrámos ninguém que achássemos suficientemente bom para perceber aquilo que fazemos e que fosse divertido. Mas se encontrássemos alguém com essas qualidades talvez pensássemos nisso. Nós trabalhámos com o Alex Chilton no início da banda, e como ainda somos amigos, pode ser que voltemos a trabalhar com ele no futuro. Quando as bandas têm alguém a produzir os seus discos é porque dá muito trabalho e não o querem ou não o sabem fazer. Nós sabemos e gostamos de o fazer.
Em “I Ain’t Nuthin But A Gorehound” canta: “I don’t know about art but I know about life” e tende sempre a dizer que aquilo os Cramps fazem não é arte e, até, a ser um bocadinho desdenhoso em relação à dita. Mas a verdade é que conheceu a Poison Ivy quando ambos andavam a estudar arte e são os dois grandes admiradores de Man Ray, Gaudi, Marcel Duchamp, Salvador Dali…
Se fossemos artistas acho que seríamos dadaistas. Também gostamos de nos comparar ao Marcel Duchamp. Não estamos muito interessados em desenvolver um estilo ou fazer algo para vender o nosso estilo como alguns artistas fazem. Nós estamos mais interessados em provocar uma reacção. Como quando Marcel Duchamp encontrou um urinol e o colocou em exposição e causou uma reacção enorme, muito maior do que, por exemplo, os impressionistas que pintaram a luz nos seus quadros. Não me importo que nos chamem artistas, mas quando penso nos artistas penso neles de forma negativa, porque existe tanta gente a fazer arte pobre e com uma grande falta de sinceridade. Toda a gente tem uma ideia diferente do que a arte é. O mesmo se passa com o rock’n’roll. Quando se fala de rock a alguém já não é um termo descritivo. Mas para nós, rock’n’roll tem de ser uma música simples baseada nos blues. Para muitas pessoas pode significar rock progressivo, folk, grunge, new wave, alternativo ou nove milhões de coisas diferentes. Mas para nós não é. Podíamos intitularmo-nos artistas porque estamos a ser honestos no que estamos a fazer, mas o que fazemos é rock’n’roll.
Sei que têm uma colecção de discos gigante e que são coleccionadores dos singles da Sun. Já conseguiram comprar os que vos faltavam?
Temos todos os singles editados pela Sun, com excepção de três ou quatro singles de blues que foram editados no início e que parecem ser impossíveis de encontrar. Talvez um dia os possamos encontrar.
Ainda costumam andar pelas lojas de discos à procura deste ou daquele disco ou já têm tudo aquilo que vos interessava ter?
É incrível a quantidade de discos que foram editados nos anos 50 e nos anos 60. Parece que nunca mais acabam. Continuamos sempre a encontrar coisas que desconhecíamos. É estranho porque devia haver muita gente nesse tempo a fazer rock’n’roll...
Têm alguma coisa anterior aos anos 50?
Sim, temos muitas coisas que vão até ao início do século passado. Quando começámos a coleccionar discos coleccionávamos grupos vocais de r&b como os Ravens ou os Five Red Caps. Estes grupos eram formados por negros que não tinham dinheiro para comprar instrumentos, e por isso juntavam cinco amigos e um deles fazia de baixo, outro de guitarra ritmo. O que eles faziam com a boca é o que muita gente chama de “human orchestras”. É um estilo de música que nos agrada bastante. Temos imensas coisas desse tipo.
De toda a sua gigantesca colecção de discos e de todos os músicos que admira, Charlie Feathers é o seu maior ídolo. Até que ponto Feathers foi uma influência para si e para os Cramps?
Foi uma enorme influência. Ele foi aceite como a pessoa que inventou o “rockabilly hickup” e ensinou o Elvis a fazer isso. Ele trouxe muita loucura para o rock’n’roll e influenciou muita gente. Foi das primeiras pessoas a misturar sons estranhos com as palavras de forma a dar uma grande ênfase aos temas. E sempre que gravava um tema fazia-o de uma forma sempre diferente. Não gostava de utilizar uma fórmula. Cada vez que gravava um tema esquecia-se de todos os outros e concentrava-se apenas nesse, como se o mundo inteiro se resumisse a esse tema em particular. Acho que é uma excelente maneira de olhar para as coisas. Quando estou em palco e começo a cantar, faço como ele e esqueço tudo à minha volta. Só me concentro no que as palavras dessa música significam. Essa deve ser uma dar coisas mais importantes que aprendi com Charlie Feathers: viver uma canção quando se ouve ou quando se a canta. Muitas vezes quando mostramos um tema a alguém, e ao fim de alguns segundos essa pessoa começa logo a falar sobre esse tema, sem sequer conseguir acabar de o ouvir é o pior que pode acontecer.
Muitas pessoas descobriram músicos como Charlie Feathers por vossa causa. Isso faz com que se sinta orgulhoso?
Se no futuro as pessoas se esquecerem por completo dos Cramps, ficaremos muito orgulhosos se tivermos conseguido que as pessoas voltassem atrás, e dessem valor a estes discos que vieram do passado. Ficaria com a sensação de que teríamos alcançado algo importante nas nossas vidas.
Hugo Moutinho e Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 15)
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