THE D4
Do Outro Lado do Mundo
Não vale a pena comparar os Datsuns aos D4. Apesar de ambas as bandas virem da Nova Zelândia e ambas fazerem rock, as referências musicais são bastante distintas. Os Datsuns os são mais pesados e a sua música é puro músculo, segundo a cartilha dos AC/DC, Led Zeppelin ou Deep Purple. Os D4, por seu lado, aprenderam a lição na escola australiana, e tiveram como professores os Radio Birdman e os Saints. O estágio foi feito em Detroit (Stooges) e Nova Iorque (Johnny Thunders, Ramones).
Além de fazerem rock e virem da Nova Zelândia, há outra coisa que ambas as bandas têm em comum: por onde passam deixam um rastro de fieis convertidos á religião da sua música.
Para saber mais sobre o que se passa no universo rock do outro lado do mundo, conversámos com Jimmy Christmas dos D4.
Comecemos por uma pergunta trivial. O que significa D4?
Já me esqueci…
Como eram as coisas antes dos D4 assinarem pela Infectious?
Excelentes! Tínhamos editado o nosso álbum pela Flying Nun seis meses antes de assinarmos pela Infectious. Para além de termos realizado várias digressões pela Nova Zelândia, já tínhamos ido tocar ao Japão e à Austrália. Depois, quando souberam que íamos assinar pela Infectious, pediram-nos para irmos tocar ao festival SXSW (South By Southwest), em Austin, no Texas. A partir daí fazia todo o sentido avançar-mos para Inglaterra e também para o resto da América do Norte.
O reconhecimento em Inglaterra foi uma questão de estar no sitio certo na hora certa?
Totalmente! Desde o início da banda que decidimos que queríamos fazer digressões para além da Nova Zelândia. Mas sem o apoio da nossa editora teria sido muito mais caro e difícil conseguir isso. Foi uma grande ajuda para nós as coisas estarem como estão actualmente no mundo da música e nós, quando a oportunidade surgiu, agarramo-la com as ambas as mãos.
Sendo uma pessoa de fora, como vê toda a euforia do rock que se apoderou de Inglaterra?
Acho óptimo. Fez com que uma série de bandas que gostamos pudessem tocar fora dos seus países para que mais pessoas os pudessem ver ao vivo. Neste momento, a quantidade de bandas excelentes a tocar em Inglaterra e na Europa é impressionante e isso deixa-nos muito entusiasmados. Acho que esta febre não vai durar muito mas isso pouco me importa. Todas essas bandas estariam a tocar independentemente da popularidade conseguida na imprensa, e tenho a certeza que o irão continuar a fazer depois do rock deixar de ser “hype”. O rock’n’roll nunca vai morrer!
Os D4 e os Datsuns são as únicas bandas da Nova Zelândia a “acontecer”. Acha que isso fará com que as pessoas tenham interesse em descobrir a cena rock neozelandesa como aconteceu com a escandinava?
Eu já li artigos hilariantes descrevendo a Nova Zelândia como a “nova Suécia”, o que não deixa de ser engraçado e interessante. Apesar da Nova Zelândia ser apontada como a nova capital do rock não existe propriamente uma cena rock a explodir. Existem algumas boas bandas que merecem uma oportunidade, como os Rock’n’Roll Machine e os Bloody Souls, e espero que toda a atenção dada à cena neozelandesa os possa ajudar.
Conhece a compilação "Do The Pop", realizada com as melhores bandas rock australianas? Acha que seria interessante fazer algo semelhante com as bandas neozelandesas?
Sim, conheço e acho que é um disco fantástico. Já existem algumas boas compilações, como a “AK79” e a “Hate Your Neighbours” que cobrem a nossa cena rock da mesma altura. O nosso amigo Skinny, da Fast Food, está a organizar uma compilação com as melhores bandas rock neozelandesas contemporâneas, por isso estejam atentos.
Apesar da versão do Johnny Thunders não ser invulgar, as versões dos Guitar Wolf e dos Scavengers não deixam de ser curiosas. Como foram escolhidos esses temas? No que respeita aos Guitar Wolf, é uma homenagem aos vossos irmãos de sangue japoneses?
Os Guitar Wolf são uma das minhas bandas preferidas de sempre e para além de serem nossos amigos são uma fonte de inspiração. As digressões que fizemos com eles na Nova Zelândia e no Japão foram dos melhore momentos das nossas vidas, por isso achámos que seria interessante reflectir o que sentimos através de uma versão de um tema deles. O tema dos Scavenger é piscar de olhos à nossa herança musical neozelandesa. As pessoas têm a mania de procurar as suas influências fora da Nova Zelândia e esquecem-se que durante os anos 70 tivemos grandes bandas. Talvez isso faça com que as pessoas se interessem em descobrir um pouco mais da história musical dessa década.
Como lidam com o lado rock and roll da vida e com toda a atenção que estão a receber de todo o mundo?
Mantendo os pés bem assentes no chão e dormindo o mais possível! Para nós é uma experiência bastante surreal mas ao mesmo tempo muito entusiasmante, por isso espero que seja sempre assim. Não queremos ver o sucesso ou toda esta atenção como um dado adquirido.
Com o sucesso alcançado for a da Nova Zelândia, sentem que alguma coisa mudou no vosso país natal?
Tivemos uma grande recepção quando regressámos a casa. Toda a gente nos apoiou e estavam todos muito contentes com o facto de nos estarmos a sair bem além mar. Os neozelandeses ficam muito orgulhosos quando alguém consegue um feito no resto do mundo. O público nos nossos concertos aumentou em número e em loucura, o que é óptimo.
Até que ponto é que a cena rock australiana (Radio Birdman, Saints, etc) influencia mais as bandas neozelandesas do que bandas americanas ou europeias?
Não posso falar em termos globais mas para os mais conhecedores sempre foi importante e influente. Obviamente que somos um pouco mais novos que essas bandas e só os descobrimos através de outras pessoas. Essas bandas foram-se tornando uma presença constante enquanto crescíamos e nos íamos tornando mais rebeldes.
Com tantas digressões, decerto que devem ter algumas histórias estranhas e engraçadas. Quer partilhar alguma connosco?
Bem, nós temos muitas histórias mas não sei se podem ser publicadas! As digressões podem ser uma experiência imprevisível. Há pouco tempo, em Berlim, o promotor levou-me a mim e ao Dion a tomar banho num hospital psiquiátrico e o Beaver jura ter visto gente a foder num parque... A cidade é estranha mas o concerto dessa noite foi óptimo.
O que se passa com a palavra “motherfucker”? Tanto os D4 como os Datsuns a usaram para dar nome a temas? Será que é pura coincidência?
Não sei… O facto é que é uma palavra fantástica! Provavelmente os Datsuns pensam da mesma maneira…
Numa entrevista afirmaram que os “White Stripes fazem bem em manterem o controlo sobre o que os rodeia e fazerem as coisas à maneira deles”. Até que ponto é fácil ou difícil para os D4 manterem as coisas dessa maneira?
Tem os seus momentos. Quanto mais fazemos mais gente se envolve. Sabemos muito bem o que queremos e o que não queremos, e fazemos questão de dizer isso às pessoas com quem trabalhamos. No entanto temos tido muita sorte nesse campo, já que todas as pessoas que nos têm ajudado têm sido fantásticas e têm-nos apoiado nas nossas decisões.
Tanto os D4 como os Datsuns tem sido dados como das duas bandas mais quentes do momento. São amigos uns dos outros e mantêm uma competição saudável ou, pelo contrário, cada uma segue o seu caminho e tem inveja da outra?
Conhecemos os Datsuns muito bem pois somos oriundos da mesma pequena cena musical e sempre nos encorajamos e apoiamos mutuamente. E, como somos duas bandas muito diferentes, não sentimos que exista uma competição entre nós. Sentimo-nos mais como uma força rock’n’roll de ataque, bastante unida, vinda da Nova Zelândia. Somos, ao mesmo tempo, o esquadrão de bombardeiros pesados e uma divisão de artilharia.
Fizeram as primeiras partes dos Fu Manchu, Jon Spencer Blues Explosion e Hellacopters. Qual é a dimensão da cena rock na Nova Zelândia? Quantas pessoas é que essa bandas atraem?
É uma cena cool e em crescimento. As bandas referidas tem um nome e são tidas em bastante consideração. Assim sendo, os promotores que as trazem tendem a trabalhar no duro para que esses concertos sejam um sucesso. E acabam sempre por o ser. As rádios universitárias locais dão muito apoio às bandas rock que andam em digressão por aqui e isso faz com que a palavra se espalhe. Em geral, esse tipo de bandas toca para 1000 pessoas ou mais.
Lorena Star
(Mondo Bizarre # 13)
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