DANIEL CLOWES
Dan Clowes é um dos artistas mais reconhecidos no mundo da banda desenhada independente internacional. A sua tão aclamada colecção "Eightball" é um enorme sucesso. Nascido em Chicago em 1962, graduou-se em arte no Pratt Institute, situado em Brooklyn, e frequentou de forma breve o mundo profissional da arte antes de se dedicar intensamente à banda desenhada. De 1985 a 1989, Fantagraphics Books publicou seis números de "Lloyd Llewellyn", uma personagem à volta de quem Clowes criou uma "kitsch-noir private-eye story". Em 1989, iniciou a publicação de "Eightball", uma vasta e diversificada colecção de histórias contínuas. A Fantagraphics Books (sediada em Seattle), realizou desde então diversos livros compilados a partir das histórias publicadas em "Eigthball", incluindo o excelente "Like a Velvet Glove Cast in Iron", "Orgy Bound"," Lout Rampage", "Pussey!" e "Caricature". Mais recentemente, pela Pantheon, foi editada a compilação dos últimos três números de "Eightball", a apocalíptica aventura "David Boring".
O seu trabalho também apareceu em outras revistas independentes como Weirdo, Young Lust, Donut Sissy e o jornal The Village Voice. Trabalhou o design de cerca de 11 capas de álbuns discográficos, a ilustração para uma prancha de skate e a lata de OK Soda, a desastrosa "Gen-X" da Coca-Cola (uma soft-drink).
A história que compõem "Like a Velvet Glove Cast in Iron" desenrola uma narrativa fortemente surreal onde uma personagem com a aparência do autor, tenta encontrar sentido num mundo pungente e perverso dos filmes snuff dos anos 50, comunidades de culto, desesperadas empregadas de mesa com aspecto aberrante e conspirações criadas por teóricos loucos. O seu rígido grafismo acentua o tom negro e perturbante desta série bastante inquietante. "Ghost World", uma história retirada também de "Eightball", acerca de duas descontentes adolescentes, está prestes a estrear-se em filme. "Pussey!" e "Orgy Bounds" são olhares mais ligeiros sobre uma variedade de aspectos que incluem personagens tristonhos mas cativantes da cultura mais jovem mais ou menos recente. Presentemente, Daniel Clowes vive em Berkeley, com a sua mulher.
Quando foi o início de tudo?
Nasci em 1961, mas cresci cercado pelos últimos anos da década de 50 e início dos anos 60. O meu irmão, dez anos mais velho do que eu, era um fanático por banda desenhada. Comprava revistas ilustradas e ficção científica (coisas como Famous Monsters of Filmland). Fui imediatamente arrastado para este tipo de imaginário. Por volta dos 3 ou 4 anos de idade, comecei a esboçar imagens dos números antigos de Batman. O meu desenho simplesmente floresceu a partir daí.
E acerca da banda desenhada alternativa?
A primeira vez que vi uma banda desenhada underground foi em casa de um amigo. Tinha uns oito ou nove anos de idade. Ele mostrou-me um monte enorme de revistas da Playboy e Penthouse... do pai dele. Uma das revistas continha um artigo acerca de banda desenhada underground. Fiquei fascinado com isso, apenas com a ideia de que existia banda desenhada pornográfica. Desejei-as mais do que tudo no mundo. Lembro-me de uma figura desenhada por Robert Crumb, retirada de uma bd sua chamada "Big Ass". O meu amigo e eu acabámos por desenhar a nossa própria versão de "Big Ass", como imaginávamos que seria. Infelizmente, o meu amigo ficou com essa bd. Agora daria tudo para voltar a vê-la. Era uma versão feita por um rapaz de 8 anos do que seria uma banda desenhada pornográfica. Só aos 10 anos de idade é que vi uma banda desenhada de Robert Crumb. Provavelmente uma da sua revista Zap, e era basicamente pornográfica. Não a encarei como arte. Mas era demasiado novo. Tudo estava, ainda, em fecundação.
Sentiu o seu talento reconhecido na escola de artes que frequentou?
Foi aí que pela primeira vez me apercebi de que a banda desenhada era encarada de forma muito depreciativa pelos jovens "artistas" de belas artes, e até mesmo por ilustradores de ocasião. Isso não me afectou até entrar na escola de artes e tentei mostrar alguns desenhos e bandas desenhadas que fizera. O professor disse, na sua voz condescendente, "Bem, são muito bons, mas estamos aqui para aprender arte, e não bonecada." Eu pensei "O que é que há de errado com o que estou a fazer?" Durante todo o tempo em que frequentei a escola de artes, era-me dito constantemente que se o meu estilo fosse mais sofisticado e não qualquer coisa tipo "Beth and Veronica", talvez eu conseguisse ir mais longe, alcançar posição. Que palhaços! Foi apenas quando me graduei que compreendi que todos eles eram uns falhados. Todos os meus professores eram tipos que ensinavam belas artes porque não eram sequer capazes de encontrar trabalho como ilustradores. Eram a trampa desses tempos.
Quais foram as suas perspectivas de trabalho, depois da graduação?
Os meus professores eram uns falhados completos. E frustrados também! Era perceptível que eles não queriam que os seus estudantes triunfassem, porque eles, mais velhos, ainda estavam a tentá-lo. Houve um que me disse "Vais ser um grande ilustrador. Vou dar-te uma lista de referências." Então deu-me uma lista variada de directores artísticos para os quais eu deveria telefonar. Telefonei para todos, e 95% já estavam retirados do negócio, alguns já há dez anos.
Ainda tem algumas aspirações acerca da pintura, ou a banda desenhada e a ilustração são únicamente as suas formas de expressão?
A ideia de continuar a pintar agrada-me, e agrada-me mais a ideia de poder vendê-las como Robert Williams faz. Adoraria ganhar muito dinheiro com o meu trabalho artístico. De vez em quando, algumas capas ou ilustrações que faço, são pinturas, mas não tenho a certeza se gostaria de fazê-lo a tempo inteiro. Talvez daqui a vinte anos me dedique unicamente à pintura e faça disso o meu modo de vida.
A sua banda desenhada tem muito a ver com a pintura. O aspecto estético, narrativo de cada imagem. Como comenta isso?
Se eu unicamente pintasse, teria de lidar de uma forma diferente, de modo que a pintura tivesse um contexto narrativo que me desse satisfação, que de uma forma ou outra substituísse o que normalmente faço em banda desenhada. Mas não consigo visualizar essa situação. Muitos artistas parecem eliminar constantemente tudo o que não seja absolutamente essencial para o seu trabalho pictórico. O que eu gosto na bd é que, apesar de tudo, ainda não é considerada por completo como uma arte superior, porque são muito poucos os que lhe prestam atenção. Posso fazer tudo o que quiser, sem necessidade de ser auto-consciente acerca do meu trabalho. Não sinto o constrangimento de ter que agradar a críticos de arte. Apenas tenho que impressionar o tipo que compra as minhas bandas desenhadas... na Albânia, por exemplo. E esta posição é muito confortável. Se eu tivesse uma audiência escrevendo críticas severas acerca do meu trabalho, mudar-me-ia para um sítio isolado, onde não tivesse que as ler. Não levo a sério nem os críticos mais conceituados. Acho que as pessoas ainda não entendem o suficiente de bd para poderem criticá-la, a não ser que também a fizessem, e já há muitos anos. A bd é uma forma muito complexa.
Como considera a banda desenhada em relação aos outros meios artísticos?
É um meio afectuoso e suave de expressão. Podemos lidar com os mais hediondos assuntos humanos, com os mais dolorosos e horríveis que possam ser, mas mesmo assim, de uma maneira ou outra, parecem tornar-se mais agradáveis ou até incentivantes. O mesmo material, visto num filme, criaria uma reacção mais dura e pesada. Na bd, é como se o peso emocional fosse ligeiramente retirado, o que o torna menos confrontativo. Outra vantagem, é a mistura entre palavra e imagem, qualidade que ainda não é reconhecida. Misturando palavras e imagens, gera-se um potencial bastante criativo e inovador. Pode ser surreal, pode criar suspense, pode ser autobiográfico, pode ser fantasista... o conteúdo não é limitado pela forma. Nem na bd, nem em nenhum outro suporte artístico. Porém, o indivíduo normal vê a bd como trampa, ou coisa para miúdos. É isto que me entristece. Esse tipo de indivíduo nunca verá "Hate" (de Peter Bagge). O título independente mais vendido pode ser dificilmente aceite em estados como os de Oklahoma e Florida. Espanta-me o facto de "Eightball" vender cerca de 15 000 cópias, porque a maioria dos outros artistas alternativos dificilmente vende mais do que 3 000 cópias. Até R. Crumb vende menos do que eu, o que me aterroriza. Quando fiquei a saber disso, senti-me culpado, senti-me horrível! É bom vender bem o que faço, mas se pensarmos nas milhares de pessoas que poderiam estar interessadas no trabalho dito underground do mundo da bd se não estivessem socialmente contra ele, mesmo assim seriam uma pequena fracção. Olho à minha volta e vejo um constante ressurgimento de interesse por banda desenhada. Todos os anos há um artigo que anuncia "A banda desenhada finalmente saiu da concha. Já não se destina apenas a miúdos." Mas depois, nada realmente acontece. Quantas vezes não lemos isso? Invariavelmente, esses artigos mencionam o facto de que se guardamos os números do Superman que líamos em pequenos, talvez valham milhões agora. Falam do valor dos comics, mas não entendem a diferença qualitativa entre Robert Crumb e algum idiota que desenhe Batman.
Algo bastante visível no seu trabalho, é um aspecto retro. Nota-se um interesse genuíno acerca de cultura descartável: estranhos e antigos filmes porno, musica lounge dos anos 50, bares pequenos e obscuros, novelas porno tipo pulp dos anos 50, provenientes de também de obscuros escritores. Tudo isto não é de fácil acesso nos tempos que correm de cultura massificada.
É a descoberta que é excitante. Definitivamente! Sou capaz de ficar acordado até às três da manhã, se souber que vão passar na televisão "The Horror Chamber of Dr. Faustus". Se tiver uma cópia do filme em casa, que me permita vê-lo a qualquer momento, faz com que se perca toda a excitação. Não há aquela aura se não for uma coisa obscura pela qual tenhamos que passar por uma prova de esforço para a ver, ou obter. Não sei porque é assim, porque cresci com a cultura pop, vi os mesmos shows de televisão que todas as outras pessoas, sobretudo da minha idade viram, mas considero-me hiper-crítico já desde esse tempo, ou até desde mais cedo. Detesto Disco, Led Zeppelin, Bee Gees. Sentia, e sinto, uma náusea existencial em relação a isso tudo. E em relação aos anos 80, não suporto absolutamente nada. Por exemplo, nem sequer vi o filme "Pulp Fiction" de Quentin Tarantino, porque simplesmente detesto John Travolta. Nunca percebi como é que as raparigas gostavam desse tipo, o idiota tosco de Brooklyn. Não sinto nostalgia pela adolescência. Acho isso ridículo, e um travão na criatividade e na diversidade do que podemos ainda descobrir de tudo o que até hoje se mantém obscuro, sub-cultural.
Quais as suas fontes inspiratórias?
No cinema, Orson Wells, Alfred Hitchcock e Jean Renoir. Literárias, tenho tendência para ler o tipo de livros que desejo recriar. Por exemplo, se quero construir uma narrativa complexa, leio Nabokov ou Madame Bovary, de Flaubert. Quando quero construir um tipo de história mais sucinto, conciso, gosto das pequenas ficções de John Cheever e John Updike. Nos últimos tempos, por causa da adaptação de "Ghost World" para cinema, li variados screenplays, o que é bastante assustador, porque trabalhei com Terry Zwigoff. Recusámo-nos a assinar fosse o que fosse até que todas as pessoas envolvidas no projecto estivessem de acordo com as nossas resoluções. Tentamos criar algo bastante apelativo e interessante para ambos, algo que pudesse ser concretizado como um filme a sério. Mas se isso não for reconhecido, pelo menos terei aprendido qualquer coisa.
Quanto a todo o trabalho em que se envolveu à volta do filme "Ghost World", acha que conseguiu manter o controlo sobre o que realmente pretendia?
Se Terry não tivesse feito um filme que esteve mais do que qualquer outro nas listas top-ten do mundo da década passada, eu nem teria considerado a possibilidade. Acharia que não teria qualquer chance. Mas porque as pessoas estão realmente a prestar atenção a ele e ao que faz, pareceu-me uma boa oportunidade.
Como encarou e lidou com o facto de realizar um argumento?
Mal o terminei, saltei borda fora. Entreguei-o a Terry, e a partir daí o problema era dele. Regressei o mais depressa aos meus desenhos e às minhas bandas desenhadas, mas não perdi o contacto, porque foi uma boa oportunidade de trabalhar com alguém que admiro, gosto e respeito verdadeiramente. Não me imaginaria a trabalhar com qualquer outra pessoa de Hollywood neste projecto, tal como trabalhei com Terry. Eu estrangularia qualquer outro no primeiro dia de trabalho em comum. Terry é o único tipo que alguma vez conheci, que é mais amargo e cínico do que eu. Tive que ser o optimista nisto tudo, do género "Então Terry, não está assim tão mal."
Como todas as adaptações para cinema de obras literárias, ou de banda desenhada, apesar de estas últimas serem mais raras, há sempre qualquer coisa que se reformula em relação à obra original. Isso aconteceu muito durante a adaptação do livro "Ghost World" para argumento de cinema?
Isto pode parecer primário, mas decerto tem a ver com a estática narrativa que confiro aos painéis que compõem as minhas bandas desenhadas, de que já falei antes, foi extremamente estranho pensar nos meus personagens como pessoas reais, em movimento. Acho que entre o factor estático das minhas bandas desenhadas e o carácter movível dos actores que encarnaram as minhas personagens há um enorme abismo, e que foi a primeira coisa em que me concentrei para poder ultrapassar aquela primeira ideia que se estabeleceu na minha cabeça, que era "Os personagens não vão funcionar. Os cenários não vão funcionar..." e etc. Mas lá está, com Terry estava confiante dos resultados, e não creio que pudessem ser de outra maneira. A banda desenhada é o único tipo de narrativa visual onde o cenário, a terra, os locais, são completamente criados a partir da mente do autor. Num filme, podemos criar perfeitos e fiéis desenhos para os cenários, mas os designers e os directores de arte não conseguem criá-los exactamente tal como os visionaste. Os actores são apenas aproximações do aspecto que queres que as personagens tenham. No entanto, na bd, se se possui uma perícia e domínio sobre o que se está a fazer, podemos controlar absolutamente tudo e fazê-lo exactamente como queremos, exactamente como o vemos na nossa cabeça. Estás a transferir isso para a prancha. E acho que há algo de realmente poderoso nisso tudo. Penso que muitos dos filmes mais bem sucedidos, são aqueles em que o director teve a noção de que não pôde transferir completamente para o ecrã a sua visão, que conhece os compromissos que vai ter que fazer e desenha a narrativa delineada dentro desses compromissos. O director sente a artificialidade inerente à feitura de um filme, e usa isso em seu proveito.
Qual o seu estilo de vida, como artista?
Viciado em droga e prostituto masculino.
Com que regularidade trabalha?
Todos os dias. Todos, todos, todos os dias!
A entrevista completa pode ser lida em www.centralcomics.com
Horácio Gomes - Exclusivo Vinheta Sónica - www.centralcomics.com/Mondo Bizarre
(Mondo Bizarre # 9)
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