DANIEL JOHNSTON
À PROCURA DO AMOR
Há anos que Daniel Johnston escreve canções. Como muitos outros artistas, os seus discos têm sido passados de mão-em-mão entre admiradores fiéis e o seu nome murmurado em conversas de amigos. Em tempos, Kurt Cobain chegou a aparecer envergando uma T-shirt com o seu nome. Agora David Bowie convidou-o para o Meltdown Festival e Matt Groening para o All Tomorrows Parties. Mark Linkous, dos Sparklehorse, produziu o seu último disco “Fear Yourself”.
Gasparzinho e o Capitão América voaram até Waller, um subúrbio de Houston, no Texas. Aí, desceram até à cave dos Johnstons, onde o filho destes, Daniel, tem o seu refúgio, e tomaram parte da animada festa. Depois de horas a ouvir os Beatles, foram-se embora, deixando Daniel repousar. No dia seguinte, Daniel acordou cedo e começou o seu dia a desenhar os seus dois heróis favoritos. Quando não está a desenhar, Daniel Johnston toca piano ou guitarra, escreve canções ou passeia pelas lojas locais. A sua vida tem sido complicada, triste até. Mas Daniel deixou para trás o periclitante período em que esteve internado em várias instituições de saúde mental e criou mais um álbum maravilhoso. Como todos os seus discos, “Fear Yourself” gira à volta do amor, numa perpétua espiral de saudade por Laurie, o seu amor perdido, ou melhor, nunca conquistado. Construído com a ajuda de Mark Linkous, “Fear Yourself” é um disco encantador, luminoso na sua lancinante melancolia. Um pouco receosos, sem saber bem como não ser intrometidos, falámos com Daniel Johnston. Daniel brincou connosco, cantou-nos canções, deixou-nos suspensos dos seus longos silêncios e aliviados com as suas gargalhadas.
Em “Song Of Pain”, o seu primeiro disco, gravado na cave da casa dos seus pais, apenas toca piano. O piano é o seu instrumento favorito e no seu site existem várias fotos suas sentado ao piano. É o mesmo piano onde gravou “Songs Of Pain”?
Essas fotos são no estúdio caseiro. Não, esse piano [onde gravei “Song Of Pain”] foi deixado para trás quando abandonámos a Virgínia. Este é novo e comprei-o aqui no Texas. Este é diferente. O outro era um modelo muito antigo que estava na família há muito tempo. Sinto muito a falta do meu velho piano, mas era muito antigo e disseram-me que não o podíamos trazer, que mesmo que não se desfizesse no caminho nunca o conseguiriam afinar outra vez. O que tenho agora é mais moderno. Bastante bom, mas nada que se compare.
Essas fotografias mostram também uma imensidão de coisas: brinquedos, em especial super-heróis, fotos de pin-ups, fotos e livros dos Beatles... No fundo, os objectos que decoram o seu estúdio são o seu universo, não são?
Sim. São as coisas de que eu gosto. Todas as minhas coisas favoritas estão representadas nesse espaço. Eu sou um bocado excêntrico e um bocado pateta, e passo a vida a coleccionar coisas. Vou pendurando as coisas na parede, ou vou-as colocando em prateleiras, e muitos desses objectos e fotografias servem de inspiração para os meus desenhos.
Essa divisão é o sonho de qualquer miúdo crescido...
Sim. (risos) Passo ali muito tempo sozinho mas, por vezes, os meus amigos aparecem e fazemos festas. Enquanto fumamos uns cigarros e bebemos umas cervejas toco sempre umas bootlegs dos Beatles. Eu adoro os Beatles. Nunca conheci nenhum deles em pessoa, mas tenho muitas coisas deles.
Muitos dos seus discos são gravados em casa, mas em “Continued Story”, o seu oitavo álbum, gravou pela primeira vez num estúdio profissional. Foi fácil adaptar-se?
Sim. Gostei de trabalhar num estúdio a sério. Mas, de facto, a maior parte dos meus discos foi gravada aqui em casa, com equipamento de gravação portátil, incluindo “Fun”, o disco produzido com o Paul Leary. O mesmo aconteceu com “Rejected Unkwon” e com “The Last Recordings Of Daniel Johsnton”, o meu próximo disco, que já está gravado. Gostei muito de gravar o “Fear Yourself”. O estúdio era enorme, tinha todos os tipos de instrumentos, incluindo muitos teclados. Foi como um sonho tornado realidade. Diverti-me imenso. Depois da gravação em si, passou-se muito tempo em produção, e eu estava um bocado preocupado com todo aquele processo. Acabou por resultar tudo muito bem.
Como conheceu Mark Linkous? Ele contribuiu, de algum modo, para melhorar as suas canções?
Só o conheci pessoalmente quando fomos gravar o disco. Antes de nos conhecermos, ele tinha-me mandado uns discos dos Sparklehorse. Gostei muito dos discos e, quando ele me contactou, achei que seria uma boa ideia trabalhar com ele. Ao mesmo tempo, fiquei um pouco assustado, porque a música dele é muito intensa e intimidante. Na altura em que recebi os discos dos Sparklehorse andava a receber muitas cassetes e CDs pelo correio de pessoas que queriam trabalhar comigo. A maioria era absolutamente horrível. Coisas caseiras, muito pobres e sem interesse, ou de estúdio mas sem chama nenhuma. Como não conhecia os Sparklehorse, pensei que eram mais uma dessas bandas desagradáveis. Fiquei muito contente com o que ouvi. A produção serviu para puxar pelas minhas canções. Tornou-as mais visíveis, mais apelativas. No início foi tudo muito rápido e calado. O Mark não disse quase nada. Lançou-se ao trabalho e tive que começar logo a trabalhar, o que me deixou um pouco receoso. Fiquei a pensar que, se calhar, não ia ser fácil ele entender-me. Mas, um dia, fomos comprar discos juntos, e senti logo que ia correr tudo bem. E assim foi. Ele fez-me trabalhar muito e melhorar as canções antes de as gravar. Eu tocava a canção, só com a guitarra e, depois, eles tocavam a parte deles, como banda. No fim ficou tudo muito bem e gostava de voltar a trabalhar com ele outra vez. Ele já me convidou e estou à espera que isso volte a acontecer.
Em todos os seus discos há temas recorrentes, em especial o amor e a dor…
Toda a gente anda atrás do amor. É a única coisa de que eu ando à procura. Eu encontrei-o em tempos, mas fugiu-me. O problema do amor é que é preciso saber de que tipo de amor se anda à procura. E eu, às vezes, não sei muito bem... Quanto à dor, muitas vezes o amor também é dor. Por isso acaba a ser a mesma coisa, sou apenas eu a falar novamente da mesma coisa.
O novo disco chama-se “Fear Yourself” e o anterior chamava-se “Rejected Unkwon”. São títulos um bocadinho escuros, não são?
Sim, de certo modo são nomes um pouco escuros. É um pouco mostrar-me através de um título choque. O nome surgiu-me de um concurso onde o apresentador dizia: “Fear Yourself”. Dizia-o numa voz grossa e um pouco ameaçadora, e os concorrentes berravam imenso. Eu não tenho propriamente medo de mim próprio mas, por vezes, sinto que isso acontece, em especial quando faço coisas que não devo.
Por outro lado, o disco que antecede “Rejected Unkwon” tem por título “Fun”...
Tentei que “Fun” fosse mesmo um disco divertido e com sentido de humor. Mas essa foi a altura em que estive internado em hospitais psiquiátricos. Andava encharcado em medicamentos e nem sequer conseguia tocar guitarra. Mostrei as canções que já tinha escrito ao Paul e teve que ser ele a tocar todas as guitarras. As canções que não estavam escritas improvisei-as, e ele deu-lhes vida. Eu e o Paul estamos a pensar em voltar a tocar juntos. Tenho uma banda há três anos, chamada Danny & The Nightmares, e o Paul deve produzir o novo disco.
Curiosamente, “Fun” foi o seu único disco editado por uma multinacional. Gostou da experiência?
Foi fantástico trabalhar com uma multinacional. Os meus discos estavam em todas as lojas e pelo mundo todo. Ia ao centro comercial e lá estavam os meus discos na discoteca local. Foi pena ter durado só um álbum.
“Fear Yourself” também está a ser um disco bem recebido.
Está, sim. Estou a dar muitas entrevistas e tem estado tudo a correr muito bem. Acho excelente receber atenção. Agora vou em digressão e espero vender bastantes discos nos concertos.
Algumas pessoas conhecidas (Eddy Vader, Mo Tucker, etc) têm feito versões de canções suas. Gosta do modo como as suas canções são tratadas por terceiros? Costuma tocar versões?
Gosto. Acho óptimo. É bom haver quem se interesse pelo meu trabalho. Está a ser preparado um álbum de tributo e, por ora, sei que o Lou Reed e o Tom Waits vão participar. Eu não costumo tocar versões, excepto de canções dos Beatles.
Outra pessoa bastante conhecida, David Bowie, escolheu-o pessoalmente para participar no Meltdow Festival. Sentiu-se lisonjeado?
Senti, sim. Sou fã do Bowie e fiquei muito contente por ele se ter lembrado de mim. Foi um concerto excelente, mas acho que a maioria das pessoas que foi ao concerto não sabia quem eu era.
E há ainda Matt Groening, o criador dos Simpsons, que também o escolheu para o All Tomorrows Parties de Los Angeles, que decorrerá em Junho.
É verdade. Tenho a sorte de ter muitos amigos entre pessoas conhecidas. O Matt é um grande amigo meu. Já fui várias vezes a casa dele e gostei muito. Ele disse-me que eu que sou o compositor favorito dele. Como nunca houve nenhuma canção minha nos Simpsons, vou tentar escrever alguma coisa para o programa.
A par da música, o desenho faz parte da sua vida. Descobri muitos desenhos seus on-line, para venda. Desenha muito?
Desenho há muitos anos e, daqui a algum tempo, espero tornar-me profissional. Quer dizer, um verdadeiro profissional. Desenho todos os dias porque os meus desenhos vendem-se bem (alguns a 200 dólares), e isso permite-me fazer dinheiro suficiente para os meus pais não terem problemas para me sustentar. Desenho mais do que faço música por essa razão. É o meu pai quem trata da venda dos desenhos e tem corrido tudo muito bem, pois consigo vender vários desenhos por semana. O dinheiro serve para, sempre que saio, poder comprar o que me apetece e para pagar os meus tratamentos e medicamentos.
Ao fim de tanto tempo a desenhar não sente que se repete um pouco?
Sim, sim. Estou sempre a repetir-me. Uso sempre os mesmos temas mas tento sempre fazer coisas diferentes, ou, pelo menos, não iguais.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 15)
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