Entrevistas
MR DAVID VINER
VENDEDOR DE FOLK
O rapaz que vendia camisolas, cds e crachás na digressão inglesa dos Von Bondies decidiu mostrar umas canções a Jason Stollsteimer e companhia. Os rapazes e raparigas de Detroit ficaram fascinados com o rapaz londrino, Mr David Viner largou o escritório e passou para palcos maiores que os do pub da esquina. A história é pouco comum, mas agradece-se o desfecho. No seu álbum homónimo, Viner mostra-se um purista a quem agradecemos a reverência. Mostra blues como os de John Mayall e Alexis Korner em plena explosão blues britânica de 60, mostra, principalmente, uma voz cativante e uma guitarra, com a segurança da de Nick Drake, entregue a melodias pelas quais o tempo tratou de não passar.

Vender merchandise para uma banda é a melhor forma de iniciar uma carreira musical?
(risos) Não, é apenas uma boa história. Sempre quis ser músico, mas vender merchandise não era uma forma de me aproximar do meio. Fazia-o por necessidade, porque precisava do dinheiro. Vendia material de bandas e trabalhava num escritório.

E, musicalmente, o que fazia antes de ser “descoberto” pelos Von Bondies? Tocava em pequenos pubs, em noites de microfone aberto que temos em Londres. Pequenas coisas.

A cena blues e folk é algo ainda forte em Inglaterra, para além do seu meio especializado?
Continua a existir uma mostra interessante. É algo que foi tão forte nos anos 60 que tem sido transportado até hoje. Muitos dos gajos dos anos 60 continuam por aí a tocar, como o Bert Jansch, que é o meu favorito. Ainda existe um movimento, mas é um resquício do passado, não há muita juventude envolvida.

Mr David Viner será, então, o jovem que toca para um público com idade para ser seu pai...
Bem... sim. Tenho vinte e três anos, o que acho ser uma idade muito jovem para tocar blues. Não tenho muita experiência de vida para contar.

Será por isso que recorre aos instrumentais e que, quando interpreta algo que reflicta essa experiência que diz não ter, se socorre de versões? Penso que sim. Mas é uma relação ambígua. É um pouco irritante perceber que as versões que toco não são canções minhas.

Em tempos de euforia com ritmos incisivos e electricidade exposta, como reagem as pessoas a música tocada de forma tão simples como a sua, normalmente nada mais que um homem e uma guitarra?
Os miúdos parecem gostar, mas não sei se tem a ver especificamente com a música. Provavelmente terá mais a ver com a publicidade do NME, com a necessidade que têm de ter algo para acompanhar, com o hábito de formar o gosto a partir das críticas semanais. De certa forma, é um processo a lamentar, mas é assim que sempre foi e assim dificilmente deixará de ser.

Mas resultou bem para si. A “NME connection”, consigo incluído em digressões promovidas pelo jornal, foi um impulso importante para a sua carreira.
Claro, não me posso queixar. Acontece que nunca fui um daqueles miúdos que segue muito os concertos mais destacados. Mas é porreiro que gostem. Acho que a maioria destes miúdos nunca ouviram folk e blues, portanto, acaba por ser uma forma de os conhecerem.

Uma revolução microscópica...
(riso envergonhado) Não há muita gente a fazer isto... Há um gajo português, o Legendary Tiger Man que o faz bastante bem.

Isso é certo. Como chegou à sua música?
Tocámos juntos em França. Tenho o seu álbum, que acho óptimo. Há algumas pessoas nos Estados Unidos a fazer o mesmo que ele, a “one man band”, mas nenhuma em Inglaterra. Era bom que viessem até Londres mostrarem-no às pessoas. É impressionante como tal simplicidade pode ganhar uma tal dimensão. Todos os músicos, mesmo os de bandas numerosas, fazem-no basicamente assim. Escrevem canções em casa numa guitarra acústica. No fundo, todas estas bandas de quatro, cinco elementos mundo fora fazem o mesmo que nós. A diferença é que eu sou acordado no quarto e atirado directamente para o palco, sem me juntar a mais ninguém. (risos)

Diz que vivemos em tempos “amaldiçoados e medíocres”. A “salvação” está na simplicidade de uma melodia intemporal como a “Corrina” de Dylan que canta?
O que posso dizer é que nunca será uma má canção. Continuarão a cantá-la para sempre, com alterações aqui e ali à medida que os anos vão passando. Uma evolução bonita.

Podemos dizer que é o elo perdido entre a folk americana e a explosão blues britânica de 60?
Com muito prazer. Agrada-me bastante, é uma descrição “cool”.

De onde surge o tom humorado que aparece regularmente ao longo do seu disco? O famoso sentido de humor britânico explica-o?
Não sei. Acho que sou um gajo genuinamente engraçado. Escrevo sobre o que penso e, normalmente, penso em coisas engraçadas – ou raparigas ou cerveja...

Andou em digressão com os Spiritualized. Como foi essa experiência? Há um grande contraste entre o despojamento da sua música e o imenso gospel sónico da banda de Jason Pierce.
Estava muito nervoso quanto à digressão, mas parece ter corrido bem. Os fãs dos Spiritualized são muito musicais. O contraste era imenso, mas eles deixam que tudo brilhe. Além disso, temos ambos influências de blues e gospel. Aquilo que o Jason toca é muito folky. Se o despires aos seus elementos básicos, o que ouves são belíssimas canções folk e country.

Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 18)